Enfrentar o câncer na infância é um desafio enorme. Mas, com acolhimento, informação e brincadeiras, crianças e famílias conseguem compreender melhor a doença e manter a esperança durante o tratamento. É essa a proposta do Projeto Dodói, apoiado pelo Criança Esperança.

Luísa Spíndola, de 12 anos, é fã dos Beatles, gosta de desenhar o sol e atribui um significado especial à palavra esperança.

“Esperança é otimismo. Acreditar que vai conseguir vencer algo ruim".

A definição vem de quem enfrentou um longo tratamento contra uma leucemia linfoide aguda. O diagnóstico foi recebido quando ela tinha apenas quatro anos e representou um enorme desafio para toda a família.

“Eu tive um pouco de dificuldade de falar pra Luiza o que que ela estava vivenciando e o que que ela iria passar, né? Porque eu não poderia simplesmente pegar minha filha e começar a fazer um tratamento tão longo e não contar nada pra ela”, conta a mãe, Vanessa Spíndola, psicóloga.

A ajuda veio por meio do tratamento oferecido pelo Sistema Único de Saúde (SUS) e também das histórias em quadrinhos. Personagens da Turma da Mônica passaram a acompanhar Luísa durante a jornada contra a doença.

"Quando alguém da família está com câncer, precisa de um tratamento especial", lê Luísa em uma das revistas distribuídas pelo projeto.

Criado há 21 anos, o Projeto Dodói busca apoiar crianças que enfrentam doenças graves, ajudando-as a compreender o tratamento, superar medos e acreditar na recuperação.

A iniciativa já atendeu 12 mil crianças em 52 hospitais do Brasil. O projeto conta com 40 funcionários e 600 voluntários, que oferecem treinamento para equipes de saúde, apoio às famílias e distribuem kits com gibis, jogos e materiais educativos protagonizados por personagens como Mônica e Cebolinha.

"É muito emocionante, sabe, você escutar essas histórias, você ver o kit na prática transformando a realidade dura dos hospitais”, afirma Dina Steagall, diretora institucional da Abrale (Associação Brasileira de Câncer do Sangue).

Além do acolhimento emocional, o material também auxilia no acompanhamento médico.

Em uma consulta, uma médica utiliza uma tabela ilustrada para que a paciente identifique o nível de dor que está sentindo.

“Qual é a carinha que você acha que você tá agora.”

“Eu tô com essa daqui, dor de leve”, responde a paciente.

“Dor leve? Que bom, sinal que tá melhorando o remedinho, né?”, diz a médica Silvia.

A tabela ajuda a medir a intensidade da dor, enquanto as histórias em quadrinhos auxiliam as crianças a compreenderem a doença.

"A outra amiguinha dela estava com leucemia e explica, né, sobre a doença. Já li bastante dos livrinhos dela", conta Ana Júlia, de 10 anos.

Questionada se entendeu o conteúdo, ela responde: "Entendi tudo".

Ana Júlia também já faz planos para depois do tratamento.

"Eu só vou querer um cachorro-quente na minha frente, assim, porque o tratamento todo eu passei vontade de um cachorro-quente".

No Hospital Darcy Vargas, em São Paulo, a brincadeira também se tornou uma ferramenta importante para reduzir o medo dos procedimentos médicos.

Nas mãos da menina, o boneco do Cebolinha virou o “Carecão”, companheiro na luta contra a leucemia. Com a ajuda do boneco, a enfermeira explica as picadas e procedimentos médicos pelos quais ela precisa passar.

O maior desejo de Tauane é simples:

“Tá. Eu quero ir pra casa, eu quero ir pra casa logo.”

A mãe se emociona ao falar sobre o futuro da filha.

"Então o que a gente não pode perder é a esperança (...) que ela vá logo pra casa, como ela quer".

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