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Hernanes critica futebol moderno e a falta de craques no Brasil: "Não tem espaço para o transgressor"

Abre Aspas - Hernanes, "O Profeta"

ge — Futebol · 2026-10-02T14:00:00.000Z

Abre Aspas - Hernanes, "O Profeta"

Qual a relação entre o modo como gados e frangos são criados e a formação de jogadores de futebol? E o que uma vinícola pode ter a ver com a grande área? Assuntos que parecem tão distantes são conectados por Hernanes com a mesma maestria que ele tratava a bola.

Depois de um período sabático, no qual se dedicou a administrar um restaurante e a produzir vinhos na Itália, o Profeta está de volta ao futebol – fora dos campos. Supervisor das categorias de base do ASD Sale, da Itália, ele ainda não está certo dos rumos que pretende seguir, mas tem um desejo claro: ajudar jogadores a evoluírem.

Hernanes não anda muito satisfeito com o que tem visto. Na opinião dele, o Brasil está carente de craques e é prejudicado pelo que chama de "indústria do futebol", que prioriza o físico em detrimento da técnica e do intelecto. Também se preocupa com o São Paulo e, embora pense em ajudar o clube de coração, nem sequer cogita um retorno neste momento:

— É muita desordem, muita coisa que não me inspira a querer voltar.

Durante rápida passagem pelo Brasil, o Profeta concedeu entrevista ao Abre Aspas, na qual tratou de diversos assuntos: dos desafios de empreender ao método que criou para desenvolver jogadores; de como a Espanha sagrou-se campeã mundial ao trabalho de Ancelotti; das feridas do 7 a 1 à idolatria no São Paulo. Confira abaixo, na íntegra.

Nome: Anderson Hernanes de Carvalho Andrade Lima

Idade: 29/5/1985 (41 anos)

Clubes como jogador: São Paulo, Santo André, Lazio, Inter de Milão, Juventus, Hebei China e Sport.

Títulos: Brasileirão (2007 e 2008), Paulista (2021), Campeonato Italiano (2015/2016) e Copa da Itália (2012/2013 e [2015/2016).

Pela Seleção: 27 jogos, dois gols e campeão da Copa das Confederações de 2013. Também disputou oito jogos pela equipe olímpica, conquistando a medalha de bronze nos jogos de Pequim-2008.

Hernanes, o Profeta, em entrevista ao Abre Aspas

Abre Aspas: Hernanes

Hoje você é dono de restaurante e produtor de vinhos na Itália, mas está querendo voltar ao futebol, é isso?

— Sim. Desde muito cedo eu pensava em jogar até os 33, 35 anos e depois fazer outras coisas, porque eu sempre fui um cara muito eclético. Atuei em várias posições, gostava de conhecer, de aprender. O futebol sempre fez parte da minha trajetória, desde os oito anos em escolinha. De profissional foram 15 anos, mas antes foram outros 12. Era diariamente aquela busca incessante de melhorar, de atingir os objetivos e realizar grandes coisas.

— Depois, eu tinha isso na cabeça: vou encerrar minha carreira e vou fazer outras coisas. O futebol mesmo me deu a possibilidade de conhecer e ter contato com outras culturas, com coisas novas, como a cultura do vinho, dos restaurantes, e isso me encantou muito. Só que quando você vai empreender, o buraco é mais embaixo: vêm as dores de cabeça, vem o choque com a realidade, porque quando a gente vai a um restaurante como cliente é tudo muito bonito, mas tem uma cadeia de coisas até chegar naquela aparência para o consumidor final.

— Muitas dores que eu vivia no futebol e que não gostava encontrei também no empreendedorismo. Eu queria uma vida mais tranquila, achava o futebol muito estressante e falei: "Vou viver mais tranquilamente". Na verdade, debaixo do sol não tem vida tranquila. Como dizia Jesus, no mundo tereis aflições, e a vida é essa. Sou um privilegiado por realizar coisas importantes, mas as dores de cabeça existem em todo lugar. Se é para ter dor de cabeça, melhor ter no futebol.

— Fiz os cursos da Licença B e A na Europa, na Itália, e estou em um caminho um pouco aberto. Não decidi o que fazer, tenho algumas possibilidades e estou estudando, vou deixar aquilo que faz o coração brilhar me guiar para decidir se é como agente de jogador ou como treinador, que é algo que gosto muito. Já tive algumas experiências de estar no campo com a garotada, ensinando, é algo por onde eu gostaria de começar, se for para o campo mesmo. Então, estou de volta!

Motivado também por um pouco de saudade do campo, do dia a dia do futebol?

— Saudade eu não diria que é a palavra. É estranho, porque os italianos me encontram e falam: "Mas não tem saudade do Brasil?". Quando eu estava em São Paulo, também perguntavam se não tinha saudade de Recife, de Pernambuco. Saudade nunca foi uma palavra que fez parte do meu vocabulário. Minha cabeça está sempre pensando para a frente. É pelo prazer de ir ao campo e ensinar coisas básicas ou avançadas e ver o garoto assimilando, colocando em prática e melhorando.

— Todo mundo me chama de ambidestro, tanto aqui no Brasil como na Itália, mas eu não sou ambidestro. Eu era um destro que, através do treino, da disciplina e da prática diária, conseguiu ter o domínio da perna esquerda e da mão esquerda como se fosse um canhoto. Eu gosto de treinar, gosto da prática e quero transmitir isso para os garotos. Tudo é possível para aquele que crê e que pratica.

“Aceita que dói menos”: Hernanes diz que Seleção precisa se adaptar e analisa desempenho

Você fala que tem muitas possibilidades, que está avaliando, mas me parece que você está inclinado ao trabalho como treinador mais focado na base, não é isso?

— Isso, eu decidi começar por aí e ver se esse é o caminho mesmo. Claro que o futebol profissional tem menos margem para desenvolver os jogadores, mas ainda assim é possível viver situações em que alguns jogadores realmente evoluam na carreira. Esse é o meu foco: a evolução.

Já que você falou da base, o que foi a base do São Paulo para você, como você chegou e o que ela significou na sua vida?

— A categoria de base do São Paulo sempre foi um modelo, era um trabalho muito forte e a estrutura era extraordinária. Foi um período em que eu era moleque, entre 16 e 20 anos, e o pessoal achava que eu era meio louco, mas tive muitas experiências legais. O São Paulo fazia intercâmbio, então vinham mexicanos, japoneses, americanos, armênios. Foi aí que conheci o Mkhitaryan (meio-campista da Inter de Milão).

— Acabei os estudos porque o São Paulo se preocupa com a parte humana do jogador, então eles montaram uma escola para a gente dentro do CT, não tinha nem que sair de lá. Depois comecei a fazer faculdade e eles colocaram uma Kombi para levar a gente. Saía de Barueri às 6h para chegar na Lapa às 7h. Fiz um ano de faculdade, e o São Paulo era muito preocupado com essa parte também.

— Só tenho a agradecer por ter sido sortudo de encontrar o São Paulo no meu caminho. Até porque eu já tinha ido a Corinthians, Santos, Portuguesa e Juventus da Mooca. Dei sorte. Eu já tinha um pouco da experiência de ser reprovado nos clubes, fui com mais determinação e deu certo. Nos outros clubes em que eu ia era sempre sub-17 e eu tinha 16 anos, estava um ano abaixo da idade. O São Paulo já tinha o sub-16 e o sub-17, então treinei no sub-16. Naquela época eu era subdesenvolvido, chegava lá e os caras já estavam todos com barba e eu ainda muito franzino, muito magro, em desenvolvimento. Era importante treinar com os moleques um pouco menos desenvolvidos fisicamente.

Quatro anos após pendurar as chuteiras, Hernanes quer voltar ao futebol (fora dos campos)

Você brincou sobre ser "meio louco" e lembro que ao te conhecer, ainda jovem, me chamou a atenção o fato de você ler muitos livros e alguns hábitos exóticos, como tentar escrever com o pé e plantar bananeira dentro do CT, dizendo que tudo isso era para estimular o cérebro.

— Não sei de onde veio essa ideia de que eu queria ser um grande jogador. Na época eu não me via assim. Fazia apenas três anos que tinha saído do futsal e estava jogando futebol de campo quando cheguei ao São Paulo. Só que eu sabia que a diferença dos grandes jogadores não estava nos pés, estava na cabeça. Comecei a ler muito livro tentando respaldar a minha intuição e essa minha ideia.

— Na época comecei a aprender sobre a literatura do cérebro. Hoje a gente tem um avanço imenso, estão mudando alguns conceitos, mas na época a ideia era que o controle do lado direito do corpo é dado pelo hemisfério esquerdo, é cruzado. Eu queria ser canhoto, os canhotos têm uma criatividade, uma elegância, um toque de bola diferente, tocavam na bola com mais estilo.

— Aquilo me chamou a atenção e depois descobri de onde a informação é gerada, que é no hemisfério esquerdo, enquanto o hemisfério direito é mais holístico, emocional e criativo. Comecei a viajar nessa parada: "Vou treinar o meu cérebro". Também tinha na época a ideia de que a gente só usa 10% da capacidade do cérebro, então pensei: "Vou usar o máximo possível". A lógica de todas as coisas que eu fazia era essa: usar o máximo do potencial do cérebro.

Você conta que buscou se desenvolver para se tornar um jogador de elite, e esse objetivo você alcançou. Mas você levou isso para o resto da vida? Hoje, por exemplo, você ainda tem esse gosto pela leitura e procura conhecimentos diferentes?

— Como ingeri muito conhecimento, agora eu leio menos, mas escrevo muito. Como tive a oportunidade de jogar futebol, empreender com restaurante e fazer vinho, vou linkando os conhecimentos, e cada insight que tenho vou escrevendo. Estou na fase de escrever muito e produzir método voltado para o futebol. Nesse meio tempo aprendi a falar inglês, estudei italiano, aprendi francês sozinho e espanhol sozinho.

— Na China eu tinha um treinador que falava espanhol, foi muito fácil. Você aprende o italiano, espanhol, o francês que são línguas latinas. Tudo com métodos que fui inventando. Sempre fui bom para criar métodos: chutava com a esquerda tão bem quanto com a direita e escrevia com a mão esquerda, mas tudo usando método, não era ao acaso.

— Esta é uma fase em que estou me dedicando a criar. Já estou decidido: em setembro começa a minha volta ao futebol de maneira cotidiana e vou voltar a essa disciplina de crescimento. Foram sete anos sabáticos no sentido de dar uma acalmada, perdi a disciplina e o desejo de estar ali, mas estou decidido a voltar a ter esse foco de crescimento e aprendizado. Essa fase foi importante para colocar no papel muita coisa que ingeri e relaxar um pouco.

— Eu era muito exagerado, poderia ter aproveitado mais a minha interação social com os jogadores, eu conversava pouco porque acabava a refeição e eu já ia para o meu quarto ler ou fazer alguma coisa. Só no fim da carreira comecei a ficar e interagir um pouco mais, era muito focado nessa parte. Nestes últimos anos eu tinha ficado menos disciplinado, quase sem disciplina, mas vou voltar.

E você está escrevendo sobre vinho, empreendedorismo ou futebol?

— Um pouco de cada coisa. Nas várias possibilidades, já pensei em fazer a minha escolinha, já escrevi o meu método, (quero) ser treinador, estou comentando na DAZN na Itália e criei o meu estilo de comentar o futebol. Está dando muito certo, o último post que fiz foi mostrando a relação do vinho com a grande área e a diferença de uma floresta para um vinhedo. Vou linkando essas coisas e criei meu estilo de comentar. Vou escrevendo as novas análises. Ontem apaguei mais de mil vídeos que tinha feito no CapCut. O telefone já estava com meio terabyte de ocupação. Estou produzindo muito.

Ao falar sobre seu início, você comentou a passagem pelo futsal. O quanto essa modalidade agregou no seu estilo de jogo?

— É uma boníssima pergunta. A gente vê Ronaldinho Gaúcho, Neymar, Ronaldo Fenômeno, há vários vídeos deles jogando futsal. O futsal dá o que eu chamo de amor pela bola. Como é quatro contra quatro em espaço reduzido, você está a todo momento tendo que pegar na bola.

— Hoje vejo um futebol em que os caras sabem jogar futebol porque o conhecimento tático e técnico está muito mais à mostra e acessível, só que eles estão sabendo jogar menos bola. Eles sabem jogar futebol, mas não sabem jogar bola, e o jogar bola vem do futsal, devido ao contato frequente com a bola.

— O futsal gera isso na gente: querer a bola. No espaço reduzido você tem que ganhar vantagem no posicionamento e no pensamento rápido. Agora mudou, o menino com oito, nove, 10 anos já está jogando futebol de campo. Como fazer isso? Tenho a minha maneira de encurtar os espaços para que o cara toque mais vezes na bola, porque é o tocar na bola que faz com que ele desenvolva as capacidades e habilidades técnicas de que o nosso futebol precisa.

— Uma das minhas teses é que o nosso futebol está menos técnico e menos habilidoso devido à evolução do futebol, mas também por não ter mais essa passagem pelo futsal. Na Europa e na Itália não tem essa passagem, nunca teve. O que nos diferenciava era isso: jogar na rua e jogar futsal antes de ir para o campo.

Hernanes critica o que chama de "indústria do futebol"

Na esteira desse assunto, hoje lidamos com uma dificuldade em achar meio-campistas. Você tem um diagnóstico do porquê esse tipo de jogador tem sido cada vez mais raro no nosso futebol?

— Porque desde que o futebol se transformou em business, perdeu um pouco do processo mais natural do desenvolvimento do jogador. Quando entra o business, quando entra a indústria... Vamos pegar o exemplo do frango: tem o frango caipira e o frango (de granja) feito para abater. Na indústria, você dá anabolizante para o frango crescer rápido, vender e obter lucro. Foi isso que fizeram com o futebol, transformaram o futebol numa indústria.

— Os jogadores que potencialmente seriam meio-campistas precisam ter intelecto, não só físico. Mas na Europa eles pedem força física, o jogador box-to-box que marca e chega ao ataque. Aquele jogador que fisicamente era inferior ou menos dinâmico, mas que tinha um potencial de crescimento quando amadurecesse de ser esse meio de campo cerebral, pensador, que dá o ritmo do jogo (perdeu espaço).

— Se a indústria tivesse me achado até os meus 16 anos, eu não teria jogado futebol de campo, porque era fraco e lento. Por isso sofri em São Paulo, mas eles viram que eu era bom. Hoje a indústria do futebol não perdoa o menino que é lento ou está em desenvolvimento, porque é uma indústria. Não quero nem esperar, dar anabolizante, já quero pegar pronto. Quando eu vejo transferências no sub-10 e sub-11 para mim está matando a criança, o futebol e a arte.

A Espanha foi contra a indústria do futebol com Rodri, Pedri, Dani Olmo e companhia?

— Vou mesclar agora com as outras atividades que faço. Quando vou comprar algum produto, vinho, azeite, uma massa, ou carne, você vai nos produtores, e eles dizem: "essa raça cresceu nos pastos livres, comendo avelã, as melhores comidas. O boi estava livre." A Espanha não é uma indústria, ela é uma fazenda. Eles deixam os meninos crescerem dentro de uma filosofia não para vender, mas para fornecer à seleção do país. Eles têm uma metodologia moldada há muito tempo e não se apressam.

— Quando você faz as coisas respeitando o processo, o menino com 16 anos já está pronto para jogar. A Espanha tem sucesso por respeitar mais o processo e o “finalmente” não ser somente no lucro, o financeiro, o business, eles estão tendo mais sucesso. Mas é difícil, o Brasil é um país que quer o resultado do investimento para amanhã, é resultado de cultura, do que foi implantado, de estilo de vida.

Hernanes diz ter criado um método para desenvolver jogadores

Você já falou do método Hernanes em diferentes respostas. Isso é algo que está sistematizado e organizado ou é algo que está só na sua cabeça?

— Está sistematizado, escrito. Quando comecei, há algum tempo, minha ideia principal era ter a minha “academy”. Tinha até feito o projeto, mas até encontrar o espaço... O investimento era muito alto. Fazer, na Itália? No Brasil? Depois mudei o formato: não preciso fazer a minha estrutura. Tendo o meu método, não quero ir para algum lugar onde digam: tem que treinar assim. Ou faço aquilo que acredito ou vou esperar até entrar em algum lugar que me dê essa liberdade. Já está catalogado e escrito, e este ano eu começo porque quero ter a prova.

Voltando a falar da Seleção, qual foi o grande problema do Brasil na última Copa?

— Além dos problemas normais de mudanças de treinadores, tivemos três no mesmo ciclo. Olha a comparação: a Espanha que foi campeã jogava junta não sei desde quando, era o mesmo time, contra a seleção brasileira que mudou três treinadores, três filosofias, três maneiras de jogar em menos de quatro anos. A seleção não dá para instalar um modelo de jogo com os treinos em que você nem repete os jogadores. Isso já é, por si só, um problema gigantesco. E aí tem a Espanha pela frente que você fala: realmente, seguir o modelo dá certo, a Espanha fez isso. Até a França, que era a equipe mais forte e com mais talento, sucumbiu diante de uma engrenagem construída no tempo.

— Nós temos bons jogadores, mas para a seleção brasileira apenas bons jogadores não bastam: é preciso ter grandes jogadores, craques não só no ataque. A gente já viu que com grandes jogadores não quer dizer que você vai ganhar, imagina sem grandes jogadores, imagina na seleção brasileira em que a pressão é asfixiante.

— Fiquei feliz que mantiveram o Ancelotti. Não acho que ele seja o problema nem a solução, mas fiquei feliz que mantiveram para dar continuidade ao trabalho, porque sem continuidade é irracional, ilógico, não dá esperança. Mas o problema principal é todo o celeiro de jogadores que a gente não tem mais, mas não só no ataque, onde os caras resolvem.

Muita gente criticou e tratou até como inadmissível a postura do Brasil no jogo da eliminação contra a Noruega, em que a Seleção teve pouca posse de bola e não fez um jogo propositivo. Você segue essa linha de pensamento ou acredita que é preciso se adaptar de acordo com o adversário e também com o que o futebol de hoje em dia pede?

— A Seleção deve se adaptar. Para mim o problema não foi deixar a Noruega jogar. Eu estive no Bernabéu e vi Real Madrid ser amassado pela posse de bola do Manchester City, mas no final 3 a 3 num jogo épico, emocionante, com várias grandes jogadas. O que faltou ao Brasil, principalmente no segundo tempo, foi um pouco de alma e intensidade na hora de marcar e recuperar a bola.

— O Brasil ficou muito passivo, o problema foi esse: a passividade com que a gente executou o sistema de jogo, o modelo de jogo que o Ancelotti queria. Talvez ele quisesse esperar mais a Noruega para sair no contra-ataque, mas a gente foi muito passivo. Para mim, isso foi o problema. Em relação ao modelo de jogo a gente tem que se adaptar.

— Quem era nosso Odegaard? Um cara que ia cadenciar o jogo, que tinha qualidade técnica e mental para dar no zagueiro, dar ali... A gente não tinha esse cara. O Bruno Guimarães fez uma boa Copa, mas não é esse cara, é mais vertical. Ele fez vários passes, o último passe ele fazia, mas a gente não tem esse cara. O Casemiro talvez pudesse dar a cadência, mas pelo contexto em que estava não conseguiu realizar isso. Não critico... a gente tem que esquecer isso, bater no peito e falar “é penta”, temos que jogar que nem o Manchester City, dominando o jogo. Não acho isso. Primeiro: o Ancelotti não é assim. E não temos jogador para jogar assim, da maneira que a Espanha joga. Temos o Rodri? Não temos o Rodri. Temos o Pedri? Não temos o Pedri. Então temos que nos adaptar e aceitar. Aceita que dói menos.

Ao Abre Aspas, Hernanes reflete sobre o 7 a 1 e diz que Neymar era meio time

Desde o penta, a seleção brasileira que mais foi longe em uma Copa do Mundo foi a de 2014, que você fez parte do grupo. Porém, o que marcou aquela campanha acabou sendo a derrota muito dolorida para a Alemanha. Quais são suas lembranças mais vivas do 7 a 1?

— Eu não tinha feito as pazes com isso até poucos meses atrás... Era uma raiva de estar sonhando com um título mundial e, de repente, viver a maior catástrofe do nosso futebol. Então, quando lembrava, me dava raiva. Mas eu resolvi isso dentro de mim.

— Quando jogava futebol, eu acreditava sempre no impossível, no improvável, mas essa mesma esperança nos faz viver dias tão amargos como o 7 a 1. Essa esperança exacerbada nos tira a capacidade de ter lucidez em momentos críticos como aquele. A gente perdeu o Neymar (machucado), perdeu Thiago Silva (suspenso). E o Neymar era, assim, não sei se eu devia falar isso, mas, na linguagem popular, era meio time, meio sistema tático. .

O maior impacto da ausência do Neymar foi técnico e tático ou emocional?

— Acho que foi um pouco de tudo. Principalmente por tomarmos dois gols muito rápido, aí já era, né? Porque a gente estava jogando em casa, para mim era um sonho. E na minha cabeça só tinha um resultado (possível), ser campeão. Jogando em casa, é campeão. Somos Brasil, tem que ser campeão. Quando a gente toma os dois gols, aí sim entra o fator emocional.

— A gente não estava preparado, do tipo: “vai ser um jogo difícil, se eles fizerem um gol, vai ser assim.” Não, eu não lembro disso. "Vamos pra cima”. Vamos pra cima como? Tinha até um modelo teórico de como deveríamos ir, mas que não funcionou porque faltavam as peças que deveriam estar jogando. Então foi tático, técnico e emocional. Tudo.

Ao longo da sua carreira, qual jogador mais te impressionou em campo?

— Eu joguei com o Ney e com o Gaúcho, os dois são realmente de outro planeta, é outro patamar. Até o Dybala, que no clube foi o que mais me impressionou, ainda assim está abaixo dos dois. O Ney e o Gaúcho são a genialidade no seu estado puro. Eu joguei contra o Messi, joguei contra Cristiano também, num amistoso, mas o Messi ainda é de outro planeta.

Espontaneamente, o Neymar foi citado aqui no nosso papo em diferentes momentos. E ele está se aproximando do fim da carreira. Qual o balanço que você faz dessa trajetória? Acha que ele não atingiu o potencial que ele tinha?

— Eu acho que ele atingiu, na verdade. Talvez não com a durabilidade que a gente espera. Esse é o ponto, a chave de leitura é essa. Porque o que ele fez no Barcelona, no PSG, na Seleção é todo o potencial que ele tinha, e por isso eu coloquei o Messi (como alguém) de outro planeta, porque com o Messi foram 20 anos realmente no nível estratosférico. Nós temos que, como humanidade, realmente agradecer. Porque o futebol é uma prisão de luxo. Você vive para jogar futebol, você só pensa no futebol, e o Messi me dá essa impressão.

— Que dedicação, que amor, que vocação é essa que faz o cara por 20 anos ali, quarta e domingo (jogando), e conseguir extrair dentro dele a motivação e o estado de performance. Porque o jogador é quase um super-herói, no sentido assim, o Peter Parker nunca salvou ninguém, quem salva é o Spider-Man. No futebol é a mesma coisa. O Anderson nunca fez gol, foi o Hernanes.

— E o Lionel conseguia se transformar em Messi por 20 anos. O Neymar... Porque é brasileiro também, a cultura influencia muito, né? Assim como o Gaúcho também, que era genial, poderia ter durado mais. O Fenômeno, talvez, pelas lesões, a gente não pode cobrar dele.

A cultura em que sentido?

— No Brasil, não tem a cultura da disciplina. A gente enche a barriga muito rápido. O Ney poderia ter ganhado a Bola de Ouro se naquele ano do Barcelona ele não estivesse disputando com o Messi e com o Cristiano. Era Bola de Ouro, não tem como. Então, ele atingiu todo o potencial dele. Mas eu falo assim: a cultura é isso, é sempre um paradoxo, o Neymar ainda foi um dos jogadores da geração passada que ainda era o boleiro, e por ser boleiro era genial.

— Hoje o futebol não dá espaço para o craque em todos os sentidos. Porque o craque geralmente é o transgressor, é o cara que dá o "migué". Ele não treinava com disciplina 100%, ele dava sempre o jeitinho. Só que hoje tem GPS, tem as máquinas que controlam o quanto de força você está colocando, hoje não tem como dar "migué", não tem espaço mais para o craque, não tem espaço mais para o transgressor. Ou você treina ou você não treina.

— E os jogadores brasileiros estão introduzindo essa cultura. A gente não tinha cultura como a do Cristiano, por exemplo, como a do Messi, que todo mundo achava que era só o talento natural. Não, o Messi treinava pra caramba, porque ele tem 40 anos, o cara não tem como chegar em 40 anos com o físico em dia. Se o cara não treinar, se não se cuidar da alimentação, do sono, não tem como.

Hernanes vive na Itália, mas participou do Abre Aspas durante rápida passagem pelo Brasil

Você teria levado o Neymar pra última Copa?

— Eu levaria. Acho que o Ancelotti o usou perfeitamente. Levaria como prêmio por tudo o que ele fez pela Seleção, pelo que fez na carreira, merecia estar na Copa, e pela qualidade que ele tem se tivesse condição de estar inteiro. Ele estava machucado. Acho que o Ancelotti usou muito bem, não tinha como antecipar (a utilização). Ele se machucou de novo agora, mas eu vi o jogo contra o Corinthians, os jogos anteriores, ele estava começando a atingir um patamar muito legal. Eu falei: se o Neymar estivesse nesse estágio na Copa, iria ajudar muito mais. Mas naquele período o Ancelotti fez tudo certo ao levá-lo e como usou ele.

Voltando à resposta anterior, fez mal para o Brasil essa glamourização do não esforço?

— É um paradoxo. Os nossos jogadores eram talentosos por causa disso, por causa desse aspecto cultural, transgressor. “Eu sou malandro...” Na China você nunca vai ver um craque. A cultura eu conheço, o cara cresce já desde muito pequeno com respeito muito grande pelas autoridades. O cara não faz nada a não ser que peça permissão ao próprio pai, ao professor, é um respeito muito grande.

— E quando eu ia jogar com eles, parecia isso. “A bola chegou, e agora, eu faço o quê?” Esperando alguém falar o que eles têm que fazer. E o futebol não é isso, cara. O futebol, você tem que ter personalidade, e a personalidade vem muito disso, de confiar em você mesmo. “Ah, estou fazendo a coisa errada. Mas, eu vou fazer porque eu sou assim, eu sou o craque, eu vou fazer.”

Há pouco você relacionou ser craque a uma atitude subversiva, rebelde... Você se considera um craque?

— Não me considero craque, eu tive momentos de craque. Mas eu também achava que eu era um cara muito certinho, mas não era. Descobri isso. Tenho que confessar essa transgressão: no trânsito, por exemplo, eu era um cara que nunca respeitei a lei de trânsito. Não no sentido de passar sinal vermelho, não é isso. Mas eu obedecia quando eu tinha que obedecer. Quando eu via que não fazia sentido, não vou respeitar uma lei porque ela é uma lei.

— Para mim, ela tem que fazer sentido. Então, só de ter esse pensamento, já é ter o pensamento de craque. Eu vou transgredir apenas quando vejo a ocasião favorável. Ou seja, quando o treinador vinha para mim e dizia: “Vou te dar duas tarefas. Marca o volante dos caras ou quando o zagueiro sair, você que vai entrar”. Vou obedecer até o fim. Agora, (dizer) “quando a bola chegar, faz isso ou faz aquilo.” Aí, não.

— Eu transgredia a informação ou a regra que o cara queria que eu fizesse, por isso que esse futebol de hoje, que é tudo muito “domina e toca ali”, eu ia ter muita dificuldade, porque eu não quero seguir as leis. É por isso que eu cheguei aqui de moto. Eu não aceito o trânsito de São Paulo. Ele é anticonstitucional, ele tira o direito de ir e vir. Então eu vou pegar a moto porque eu posso furar pelo corredor. Eu quero liberdade.

— Ou seja, sim, eu sigo as leis, gosto de seguir as leis, sou obediente, mas desde que façam sentido, desde que não tirem a minha liberdade. A liberdade não é para fazer o mal, não é isso. Porque o que vale mais é isso, o meu princípio. O meu princípio é fazer o bem, jogar futebol, fazer gols, divertir o torcedor. Então não me venha colocar leis.

Hernanes chega de moto para entrevista ao Abre Aspas

Como parte deste seu retorno ao futebol, você esteve no CT do São Paulo em setembro. O clube vive um mais conturbados momentos da história do clube. Quais foram suas impressões estando lá?

— A impressão que eu tinha vendo os jogos era que a tabela, o momento ou os rumores eram maiores do que aquilo que o time estava fazendo. O time não estava jogando tão mal a ponto de passar tantos jogos sem vencer. A gente sabe que o futebol é mais do que as questões técnicas e táticas: tem a questão emocional, ambiental e organizacional do clube que às vezes interfere nesse resultado de a bola não entrar. Ou o time adversário vai uma vez no gol e marca.

— Já vi muito isso acontecer e vai acontecer, de em momentos de dificuldade a bola parecer não entrar. Era essa impressão que eu tive e, depois, estando no CT, pude corroborar que a qualidade da organização feita pela comissão e pelos jogadores (é boa). Tudo bem que cheguei no período em que o time ganhou, e a vitória vira completamente a chave do humor e da intensidade do treino.

— Penso não estar enganado, acredito que o São Paulo vai sair dessa situação momentânea. Agora, para resolver a questão (estrutural) e voltar a ser o de antes, eu não sei, não tenho ideia. A dificuldade é muito grande, o buraco, a curva negativa está demorando muito lá embaixo. É uma questão estrutural que precisa repensar, reorganizar, e não tenho ideia de quando o São Paulo vai voltar a ser um chamado grande e competir com Flamengo, Palmeiras e outros times.

"Me fez aceitar o status de ídolo", Hernanes fala sobre liderança contra o rebaixamento

E lá da Itália, tendo tantas obrigações com restaurante, vinícola e na TV de lá, você ainda consegue acompanhar o futebol brasileiro e o São Paulo especificamente?

— Eu não consigo assistir aos jogos, mas vejo os resultados e os melhores momentos estendidos. Tendo essa parte de analisar e acompanhar estatísticas, você consegue ter uma fotografia quase real do que aconteceu no jogo. Consigo acompanhar assim: melhores momentos e dados estatísticos.

O quanto que dói para você, tão identificado com o São Paulo, ver o clube nas páginas policiais?

— Mais do que dor, a minha sensação é de perplexidade, né? Sabe, de ser assim: o que está acontecendo? Porque já em 2017, quando eu volto, encontro o clube numa condição de deterioração que eu custei a acreditar. Agora fui no CT lá, eu vi que, aparentemente, começaram a reestruturar, está mais organizado. Então, deu um alívio de ver que o clube está tomando cuidado com isso também, com a imagem, com a estrutura, porque o jogador chega e não vê o ambiente saudável, sendo organizado, o cara já começa com a aquela voz no canto da cabeça. Essa parte extracampo realmente tem que ser organizado porque o São Paulo é muito grande, daqui a pouco vai ter o centenário e tem que ser feita alguma coisa.

— Eu poderia até pensar em querer voltar ao Brasil, voltar ao São Paulo, mas no momento não tenho esse pensamento porque eu tenho acompanhado a volta do Neymar e a confusão que está sendo. Santos x Corinthians na arena, um episódio lamentável (de uma criança corintiana sendo hostilizada por receber a camisa do Neymar).

— É muita desordem, muita coisa que não me inspira a querer voltar. Ainda que tenha uma torcida grande, uma esperança grande de querer estar pronto para ajudar o São Paulo em alguma coisa. Mas voltar ao Brasil agora eu não penso nisso.

Hernanes foi bicampeão brasileiro pelo São Paulo e conquistou títulos por clubes da Itália

Gostaria de falar sobre duas pessoas que fizeram parte da sua carreira: Rogério Ceni e Muricy Ramalho. Pessoas duras, exigentes, mas muito queridas por quem esteve com elas.

— Acho que era devido à honestidade e lealdade. Muricy, como treinador, era muito duro, xingava pra caramba. No começo, ele não me chamava pelo nome, era "garoto, garoto".

Te incomodava isso?

— Não, não, não. Ele xingava pra caramba também. Mas ele era muito leal. Se o cara estivesse bem, ele ia colocar para jogar. Se não estivesse, ele ia tirar. Ele me tirou algumas vezes, fiquei realmente muito p... Mas ele era leal, então acho que isso faz com que ele seja também respeitado e querido.

E o Rogério Ceni?

— E o Rogério Ceni também. A paixão e a determinação pelo resultado eram o que fazia o Rogério. A dedicação de treinar. Quando cheguei, ele já era o Rogério, mas estava sempre treinando, sempre cobrando, sempre atento. Sempre queria ganhar. E eu também era assim. Eu queria ganhar. Eu ficava mal, sofria, eu me identificava muito com o Rogério por causa disso também. Queria ganhar, fazer o máximo possível. E era isso: dedicação, concentração, enfim, não tinha como não gostar do Rogério.

— Até lembro também desse momento, da capacidade de visão e de liderança do Rogério, porque o Muricy me tirou do time, e eu estava com muita raiva, tentando não demonstrar, mas o Rogério, como líder, como capitão, falava uma palavra. É legal, ele sabendo que eu era um cara muito religioso, até usou uma passagem da Bíblia para falar: “os injustos sofrem”, coisa assim. Ele era muito ligado, não tinha como não gostar dele. Era sempre atento.

Em 2017 você é um dos principais responsáveis por evitar o rebaixamento do São Paulo. Lembro de um episódio que você pediu a retirada de pudim das sobremesas do CT. Como aquela campanha marcou sua carreira e sua relação com a torcida tricolor?

— Eu trouxe uma cultura. Porque, às vezes, o cara fica pensando: estou treinando, fazendo o que estão me mandando, estou fazendo a minha parte. Só que, às vezes, não basta. Se o que a gente está fazendo não está sendo suficiente, nós temos que começar a fazer coisas diferentes. Um aspecto que eu sempre tive muito cuidado era a alimentação, o sono e o treino. O atleta não pode negligenciar essas coisas.

— Meu poder de observação sempre foi muito alto, eu sempre ficava observando, porque eu jogava futebol para ganhar. Então, se eu não estava ganhando, eu ficava: “Por quê? Qual é o problema?” E eu identifiquei, assim que eu cheguei eu bati o olho e vi que alguns jogadores estavam um pouquinho fora de forma. Aí fui lá no departamento de fisiologia e disse: deixa eu ver aqui os dados.

— E aí vi que o meu olho batia com os dados. Chamei o Dorival e falei: acho que precisaríamos refazer uma análise para ver como está e tal. Depois que foi feito, constatou-se que o time estava negligenciando um pouquinho o cuidado com a alimentação, aí foram tomadas algumas decisões de tirar alguns alimentos com excesso calórico. Pudim era um deles.

— Isso é até uma parte que eu tenho que administrar muito quando for treinar, se algum dia acontecer: nós temos que ganhar, não dá para fazer acordo com não ganhar e estar tudo bem. Isso aí não tem como. Eu acho que vou ser um cara que vou cobrar muito. Quando eu cheguei lá, pela minha maturidade de ter jogado fora, de estar num momento diferente da minha carreira, eu tinha essa moral. Depois me deram também a faixa de capitão. Enfim, cheguei realmente para colocar ordem na casa. Essa foi a situação. Realmente coloquei ordem.

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E o torcedor te agradece por aquilo?

— Dei uma contribuição legal... Até eu fico sem graça. Porque não fui só eu, claro. Um time gigante como o São Paulo, uma nação de torcedores, esse episódio, esse momento, realmente me fez aceitar o status de ídolo. Porque antes eu me achava um bom jogador e queria ser um grande jogador. E eu treinei muito para isso. Nunca me senti um ídolo. Ídolo, para mim, é o Raí, o Rogério, o Lugano. Chegar no status desses caras eu não considerava.

— Mas, em 2017, depois do que aconteceu e de como o torcedor me acolhe hoje, eu falo: realmente aceito. E os caras me agradecem. Mas eu é que agradeço sempre pelo carinho, porque ser um jogador importante de um time como o São Paulo, com a representação que o São Paulo tem no Brasil e no mundo, é uma coisa muito importante para alguém. E eu sou muito feliz. E agradecido.

Qual foi o seu “prime”?

— 2017, para mim, foi o prime, apesar de ser muito curto. 2013 e 2014, na Lazio, foi prime. E 2007 e 2008, acho que... esse é o ponto: eu apareço como volante, mas, em 2007, fiz poucos gols. Em 2010 também teve um momento legal, porque, em seis meses, eu fiz dez gols. Eu era um cara que tinha que fazer gols. Finalizador. Só fui acrescentar isso ao longo da carreira. Em 2008, apesar de estar no prime, era um prime com poucos gols. Em 2017, por exemplo, fiz nove gols em metade dos jogos. Consegui o prime completo. Em 2012 e 2013, também na Lazio, foi um prime que desencadeou ali eu estar na Copa das Confederações, entrar em todos os jogos e ser um cara bem presente.

Quanto as experiências internacionais, na China e principalmente na Itália, moldaram a sua personalidade, a sua forma de ver a vida?

— A Itália principalmente. Eu tinha 10, 11 anos, e para me amostrar, na formatura da minha prima, eu comecei a beber um pouco de cerveja, exagerei e fiquei bêbado. Eu falei: nunca mais eu vou beber. E até os 25 anos nunca mais eu tinha bebido nada alcoólico. E nem precisava também, porque eu sou de Recife e os sucos (são bons): cajá, acerola, laranja, abacaxi, melancia. Não precisava de vinho.

— Eu chego na Itália, e o legal foi isso, o cara que não bebia se transforma num produtor de vinho. Então, o quanto de abertura que eu tive que ter para assimilar, devagarzinho, e introduzir essa nova cultura. Quando eu jogava, realmente era bem equilibrado, tomava só depois dos jogos. Mas hoje, não, uma taça de vinho por dia tem que ter. Então, realmente mudei da água... Mudei do suco para o vinho! Só isso já diz muito.

— E aí passei a deixar um pouco de lado essa parte de tentar sempre melhorar, sempre aprender alguma coisa. Porque eu era maluco. Eu sempre estava querendo aprender alguma coisa. Quando estava tudo bem, eu dizia: agora eu vou aprender uma língua ou agora eu vou aprender a tocar violão, agora eu vou aprender um instrumento. Eu estava sempre querendo aprender uma coisa diferente.

— Então eu dei uma acalmada e passei a valorizar mais as relações. A gente jantava lá e ficava duas, três horas na mesa conversando. Realmente moldou bastante a minha vida. Você vai crescendo, né? A idade vai passando e você vai vendo mais coisas. Acho que é um processo natural. A não ser que... Eu conheci também alguns brasileiros que foram para a Itália e, por não gostar de algum fator, aí se fecham e não estão aptos a receber uma influência.

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E a China?

— Da China não rolou muita (influência) porque lá os caras são muito fechados, então não teve essa troca. E o idioma dificulta muito. Quando cheguei lá, falei: vou aprender chinês. Claro que eu ia tentar. E aí falava em chinês com os caras também, para os caras verem que eu estava tentando. É claro, falava um “bom-dia” ali, né? Ni hao. Zao shang hao. Então os caras viram que eu estava tentando, mas realmente não tinha nem condições. Apesar de ter a intérprete sempre, os caras não estavam abertos. Não é essa a troca, né? Esse idioma é muito fechado. Então só não foi mais legal a experiência na China por causa disso, porque eu não pude receber essa troca.

Quem são os grandes amigos que você fez no futebol?

— São poucos. O Jean a gente jogou junto, esteve na base, então ali veio uma amizade de muito tempo. Depois tem o Miranda, a gente esteve no São Paulo por bastante tempo, mas depois a gente manteve um contato. A gente se concentrava juntos, então era legal porque ele era um cara bem diferente, mas a gente sempre se entendia, se deu bem. Tem o André Dias que jogou na Lazio, é um pouquinho mais longe, mas a gente ainda mantém a amizade.

Você foge um pouco do estereótipo, do padrão do boleiro que a gente imagina. De alguma forma, isso causava um estranhamento, Hernanes, em relação aos outros atletas? Você tinha dificuldade, talvez, de transitar nesse ambiente boleiro?

— Não, não tive, porque eu não estava nem aí para o que a galera ia pensar. Quando você está de boa, sem querer trapacear ninguém, sem fazer mal para ninguém, não tem como você não ser aceito. Então também era muito gente boa. Não era um cara mala. Tinha esse lado meu, que eu me ausentava para fazer meus estudos, minhas coisas, mas eu estava com os caras também. Eles eram muito parceiros, muito legais. Então eu nunca tive nenhum problema quanto a isso. Só esse estranhamento, do tipo: "o profeta é maluco". Mas, fora isso, nenhum problema.

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