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Preferência por Lula, cautela ao criticar Flávio: como a China (e a imprensa local) vê a eleição no Brasil

Veículos chineses — que são amplamente controlados pelo governo de Pequim — vêm dando destaque à eleição brasileira.

G1 — Política · 2026-10-02T14:00:33.000Z

Veículos chineses — que são amplamente controlados pelo governo de Pequim — vêm dando destaque à eleição brasileira.

Um dos maiores parceiros comerciais, um dos grandes países do planeta, uma fonte vital de produtos agrícolas, um aliado nos Brics e um importante ator regional em um continente fortemente influenciado pelos Estados Unidos.

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Essa é a visão que alguns órgãos de imprensa da China têm noticiado sobre o Brasil e as eleições presidenciais do próximo domingo (4/10).

Nas últimas semanas, a imprensa chinesa tem dado destaque ao pleito brasileiro, com especial enfoque aos dois principais candidatos — Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL), considerados favoritos para irem a um segundo turno. Ambos aparecem nas primeiras posições de intenções de voto nos dois turnos da eleição, segundo o Agregador de Pesquisas da BBC News Brasil.

A China é o terceiro país com o pior índice de liberdade de imprensa, segundo ranking da organização Repórteres Sem Fronteiras, e praticamente tudo o que é publicado pela imprensa do país reflete o pensamento ou tem o aval do governo de Pequim.

Para explicar como a China — e a imprensa chinesa — estão vendo a eleição presidencial de domingo, a BBC News Brasil conversou também com Kerry Allen, analista de Mídia da China do BBC Monitoring.

Na avaliação de Kerry Allen, o interesse do governo chinês está refletido na cobertura que a imprensa local faz do processo eleitoral brasileiro.

O BBC Monitoring é um departamento especializado da BBC que monitora, traduz e analisa mais de 3 mil veículos em mais de 150 países e 100 línguas. Allen monitora a mídia chinesa e produz relatórios de análise.

Ela afirma que o Brasil costuma ser mencionado pelo presidente Xi Jinping como parte da "diplomacia de grandes países" — um tratamento especial dado pela China a alguns países.

"Com o Brasil, você ouvirá frequentemente essa frase de 'diplomacia de grandes países' sendo usada, que são os países mais poderosos, os grandes países, aqueles com grandes populações, os mais influentes. Essa grande escala é vista como muito importante [por Pequim]", afirma.

Allen diz que o mercado de mídia chinês é amplamente dominado pela presença do Estado — que controla praticamente todos os veículos de grande circulação e audiência. Portanto praticamente tudo que é veiculado na imprensa possui uma chancela do governo de Pequim.

Na sua visão, a cobertura da imprensa chinesa da eleição brasileira parece demonstrar uma certa preferência de Pequim por Lula.

"Eu diria que, se há um candidato preferido da China, é Lula", afirma Allen à BBC News Brasil.

"Muitos veículos de comunicação têm se mostrado muito positivos em relação a ele, falando sobre como, por exemplo, o jornal Global Times o considera o político de esquerda mais influente do Brasil. Dizem que ele possui uma base sólida de apoio popular, vasta experiência em governança e uma imagem internacional positiva."

No entanto, ela diz que a imprensa chinesa tem sido cautelosa em não se mostrar crítica a Flávio Bolsonaro — dado que Pequim não quer estar em posição antagônica ao Brasil caso ele vença a eleição.

"Acho que, em linhas gerais, a China espera que, independentemente de quem assumir o poder, as relações positivas sejam mantidas", afirma Allen.

"Há um consenso implícito de que Lula já possui uma relação consolidada com Xi Jinping. E há um reconhecimento das falas de Flávio Bolsonaro de que as relações comerciais e econômicas não sofrerão alterações [caso ele seja eleito]", afirma Allen.

O Reference News — jornal de grande circulação que pertence à agência estatal Xinhua — descreve a eleição como "uma das mais polarizadas da história do Brasil".

Jornal mais influente da China em assuntos internacionais — e também um dos mais lidos —, o Global Times, diz que a eleição terá um "impacto profundo no cenário político do país e em toda a região".

O Global Times vê Lula e Flávio Bolsonaro com condições iguais de ganhar a disputa. Para o jornal, Lula teria uma vantagem no lado econômico, por suas políticas de bem-estar social e distribuição de renda. Já Flávio Bolsonaro ganharia mais votos entre os que estão preocupados com segurança.

Alguns veículos — como o Global Times a revista China Newsweek — questionam também a idade avançada de Lula no pleito.

"Lula afirma que caminha por uma hora todos os dias e que treina especificamente as pernas e os braços. O presidente brasileiro de 80 anos está bem ciente de que a idade é um tema inevitável", afirma a China Newsweek.

Outro tema recorrente na imprensa chinesa é se uma eventual vitória da direita no Brasil poderia provocar um afastamento entre Brasília e Pequim — dada a proximidade de Flávio Bolsonaro com Donald Trump.

Uma reportagem no site de notícias e tecnologia NetEase afirma que a política latino-americana não é guiada por ideologia e que "quem realmente entende o Brasil sabe que a bússola política do país nunca é determinada pelas preferências pessoais do presidente, mas sim pela direção de um navio cargueiro".

O jornal afirma que a direita brasileira aprendeu que os interesses chineses são vitais para a economia nacional e que "quer o Brasil vire para a esquerda ou para a direita, seus navios cargueiros continuarão a seguir para o leste".

Confira abaixo como a imprensa chinesa está noticiando a eleição brasileira.

Apelo da esquerda e direita é 'praticamente o mesmo'

O Global Times, jornal de assuntos internacionais mais influente da China e conhecido por suas posturas antiamericanas, publicou uma longa reportagem sobre a eleição brasileira no final de agosto.

Nela, o jornal afirmou que "como o país de esquerda mais importante da América Latina", a eleição brasileira terá um "impacto profundo no cenário político do país e em toda a região".

A eleição é apresentada como uma disputa em aberto, com pequena margem de votos entre os Lula e Flávio Bolsonaro.

O jornal afirma que Lula tem três vantagens como candidato.

"Primeiro, ele continua sendo o político de esquerda mais influente no Brasil, com uma base sólida de apoio popular, vasta experiência governamental e uma imagem internacional positiva", afirma a reportagem de 31 de agosto.

"Segundo, ele mantém uma campanha que combina 'esquerda com moderados e centristas', e o vice-presidente Geraldo Alckmin, um político veterano de origem conservadora, contribui para conquistar o apoio do setor empresarial e dos eleitores de centro", continua.

"Terceiro, a economia brasileira tem demonstrado certa resiliência nos últimos anos, e políticas como as transferências sociais e a promoção do emprego para as classes mais baixas têm ajudado Lula a consolidar sua base", conclui.

Mas o jornal destaca que um dos pontos negativos de Lula é sua idade avançada e problemas de saúde.

"Lula completará 81 anos em outubro de 2026 e foi diagnosticado com câncer de pele em maio deste ano, tendo se submetido a radioterapia superficial preventiva no couro cabeludo", afirma o Global Times.

"Sua idade avançada, saúde debilitada, o desgaste social decorrente de seu longo mandato, somados às fortes preocupações com a segurança na sociedade brasileira, estão diminuindo suas chances de vitória."

Além disso, o jornal destaca que, apesar das promessas econômicas às classes mais pobres do Brasil, Lula "tem dificuldades em apresentar um cenário de forte recuperação econômica, o que limita o apelo de suas políticas econômicas aos eleitores de centro".

Flávio Bolsonaro é retratado como herdeiro da base de apoio de seu pai, Jair Bolsonaro, que inclui "grupos evangélicos conservadores, alguns grupos agrícolas e comerciais, eleitores anti-Partido dos Trabalhadores e apoiadores de políticas de segurança linha-dura".

"O problema é que Flávio também carrega um fardo pesado: seu pai foi condenado em um caso relacionado a uma tentativa fracassada de golpe, e os conflitos políticos e jurídicos de sua família estão intimamente interligados; seu irmão, Eduardo Bolsonaro, foi condenado pelo Supremo Tribunal Federal por pressionar governos estrangeiros nos EUA a influenciar o sistema judiciário brasileiro", afirma o jornal.

O Global Times afirma que, para os brasileiros comuns, as questões mais urgentes nesta eleição não são ideológicas — de "esquerda ou direita" — mas sim sobre a segurança nos seus bairros, os preços de alimentos e combustíveis, a disponibilidade de empregos para os jovens e a mobilidade social.

A reportagem afirma que as prioridades dos eleitores definirão quem irá conquistar seus "corações e mentes".

"Se as principais demandas do público forem segurança de renda, bem-estar social e estabilidade nacional, Lula é mais persuasivo: se o combate ao crime e a manutenção da ordem social forem as principais preocupações, a direita tem maior probabilidade de despertar emoções", afirma a reportagem.

"O candidato verdadeiramente vitorioso não é aquele que grita os slogans ideológicos mais estridentes, mas sim aquele que convence os eleitores de que pode proteger o sustento das pessoas e manter a segurança dos bairros", pontua o jornal.

"A julgar pelas preferências atuais dos eleitores, tanto a esquerda quanto a direita têm seus pontos fortes em determinadas questões, e seu apelo é praticamente o mesmo", afirma o Global Times.

Relação com China pode piorar?

Uma das preocupações noticiadas em alguns veículos é se Flávio Bolsonaro — que é fortemente alinhado aos EUA de Donald Trump, maior rival de Pequim no palco internacional — promoveria algum tipo de afastamento do Brasil em relação à China caso venha a ser eleito.

"Muitas pessoas que acompanham as notícias internacionais provavelmente se perguntam: se Lula, o presidente, for de fato derrotado pelo candidato de direita, as relações sino-brasileiras irão piorar?", questiona reportagem publicada na segunda-feira (28/09) pelo NetEase, um portal de notícia e tecnologia considerado influente entre os mais jovens.

A reportagem da NetEase cita uma reunião a portas fechadas com empresários na Confederação Nacional da Agricultura do Brasil na qual Flávio Bolsonaro teria tranquilizado líderes empresariais presentes de que as relações comerciais e econômicas com a China não mudariam caso ele vença a eleição.

"Esse forte contraste entre o que acontece dentro e fora dos palcos revela o instinto de sobrevivência dos políticos brasileiros", afirma o texto da NetEase.

"Para o Brasil, um país que depende fortemente da exportação de produtos primários para gerar excedentes em moeda estrangeira, o mercado chinês não é uma questão opcional, mas sim uma tábua de salvação para toda a economia nacional", afirma a reportagem.

O NetEase afirma que governadores de Estados com grande produção agrícola e a bancada ruralista no Congresso brasileiro estão entre os principais defensores das relações comerciais entre Brasil e China.

"Voltando no tempo a 2018, quando Jair Bolsonaro assumiu a Presidência, ele inicialmente seguiu o exemplo do presidente rebelde do norte [Donald Trump], entoando slogans ideológicos e até mesmo ultrapassando os limites na questão de Taiwan. Mas qual foi o resultado? Menos de um ano após o início de seu mandato, a realidade lhe deu um tapa na cara", afirma a reportagem.

"O setor agropecuário brasileiro ficou em polvorosa, e governadores de todo o país alertaram o governo federal para que não prejudicasse seus próprios meios de subsistência", diz.

E afirma, em seguida, que o próprio Bolsonaro trocou de postura sobre a China.

"No segundo semestre de 2019, Bolsonaro liderou diligentemente uma grande delegação à China, sorrindo amplamente diante das câmeras e enfatizando repetidamente a importância da parceria estratégica com o país. A atual elite política de direita do Brasil aprendeu muito com essa experiência. Tornou-se mais astuta e pragmática."

EUA 'concorrente' do Brasil

A reportagem também apresenta a China como um executor concreto de investimentos no Brasil — como a construção de linhas de transmissão pela State Grid Corporation of China ou a instalação de montadoras como a BYD e GWM — enquanto os EUA oferecem apenas "conceitos vagos" de aliança.

"Há alguns anos, a Ford Motor Company anunciou repentinamente o fechamento de sua fábrica centenária em Camaçari, na Bahia, sem qualquer aviso prévio. Milhares de trabalhadores locais perderam seus empregos da noite para o dia, e toda a área da fábrica ficou reduzida a ruínas tomadas pelo mato", diz a reportagem.

"Na época, o governo local recorreu a Washington em busca de ajuda, na esperança de que uma empresa americana pudesse assumir o controle, mas sequer recebeu uma resposta educada. Quem, afinal, salvou aquele parque industrial? Foi a montadora chinesa BYD."

A NetEase destaca que os EUA seguirão tentando influenciar o Brasil a se afastar da China, mas que Washington não possui "recursos financeiros concretos" e que só oferece a Brasília "conceitos vagos como valores, alianças democráticas e acordos exclusivos de segurança".

"Muitos podem perguntar: os EUA não vão pressionar o Brasil? Washington vai simplesmente ficar de braços cruzados enquanto a maior economia da América Latina se aproxima cada vez mais da China? A pressão certamente existe; os políticos de Washington têm sido incrivelmente ativos na América Latina nos últimos anos", afirma o texto da NetEase.

Além disso, na visão do site chinês, Brasil e EUA são concorrentes econômicos, mais do que parceiros.

"Pedir ao Brasil que abrace um concorrente direto e abandone um grande cliente que compra seus produtos em grandes quantidades todos os anos é uma decisão suicida para os negócios, que nenhum político brasileiro com um mínimo de bom senso tomaria."

A reportagem conclui que qualquer que seja o presidente eleito pelo Brasil em outubro, as relações com a China não mudarão.

"Quer o Brasil vire para a esquerda ou para a direita, seus navios cargueiros continuarão a seguir para o leste. Nenhum presidente eleito pode arcar com as consequências catastróficas da soja não vendida, do fechamento de portos e da desvalorização da moeda."

A questão da soberania brasileira frente a ameaças do presidente americano Donald Trump também foi apontada pela revista China Newsweek como importante na eleição brasileira.

"Lula disse que o Brasil deve estar preparado para impedir que forças externas cruzem a fronteira e 'levem o presidente embora', e que essa preparação visa a manutenção da paz. Embora o nome de [Nicolás] Maduro [da Venezuela] não tenha sido mencionado, quase todos entenderam a mensagem implícita", afirma a China Newsweek.

China e liberdade de imprensa

A imprensa chinesa é uma das mais controladas pelo governo em todo o mundo — e praticamente tudo o que é publicado nos jornais e exibido nas televisões está alinhado ao Partido Comunista Chinês e ao governo de Pequim. A internet também é fortemente controlada pelo governo.

A China está em antepenúltimo lugar em um ranking de 2026 de liberdade de imprensa da organização Repórteres Sem Fronteiras (RSF) — na frente apenas de Eritreia e Coreia do Norte, entre 180 países. Nesse ranking, que é liderado pela Noruega, o Brasil ocupa a 52ª posição e os EUA, a 64ª.

A China é o país que mais prende jornalistas no mundo, com mais de 100 detidos atualmente, segundo a RSF.

Alguns dos principais veículos de imprensa da China são a Agência de Notícias Xinhua, a China Central Television (CCTV), a China National Radio (CNR), os jornais China Daily, People's Daily e Global Times, e os portais NetEase (163.com) e Sohu.

Segundo a RSF, o Departamento de Propaganda do Partido Comunista Chinês envia diariamente um comunicado detalhado a todos os veículos de comunicação, contendo diretrizes editoriais e tópicos censurados.

"Jornalistas independentes e blogueiros que ousam divulgar informações 'sensíveis' são frequentemente submetidos a vigilância, assédio e detenção e, em alguns casos, tortura", afirma um relatório da RSF.

"Para obter e renovar suas credenciais de imprensa, os jornalistas precisam baixar o aplicativo de propaganda 'Estude Xi, Fortaleça o País', que pode coletar seus dados pessoais."

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