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Lula e Flávio Bolsonaro em atividades de campanha na cidade de São Paulo (SP), no primeiro turno das eleições
G1 — Política · 2026-10-03T03:49:40.000Z
Lula e Flávio Bolsonaro em atividades de campanha na cidade de São Paulo (SP), no primeiro turno das eleições
Ricardo Stuckert e Vittor Sales
As campanhas de Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsonaro (PL) adotaram estratégias diferentes para mobilizar eleitores na reta final antes do primeiro turno, neste domingo (4). Enquanto o entorno de Lula faz apelos para aumentar o comparecimento às urnas e cria uma mobilização voltada ao eleitorado mais velho, a campanha de Flávio afirma não estar preocupada com a abstenção e aposta no voto útil.
Na sexta-feira (2), em evento em São Paulo, o presidente do PT e coordenador da campanha de Lula, Edinho Silva, afirmou que a abstenção é uma preocupação e disse que a equipe tem usado as redes sociais para estimular o eleitorado a votar.
"A abstenção tem sido um fenômeno mundial, tem a ver com essa coisa da descrença, da derrota da democracia representativa. O Brasil não está imune a isso. Nós estamos trabalhando muito nas redes sociais, trabalhando para que a população vá votar", afirmou.
O próprio Lula falou sobre o tema publicamente e fez apelo para os eleitores com mais de 70 anos —que não são obrigados a comparecer ao pleito— para que votem.
Durante uma carreata no Rio de Janeiro, o presidente afirmou: "Desistiu da vida? Levanta a bunda e vai votar, meu filho. Se não tem mais motivação pra viver, tem filho, tem filha, tem neto. Levanta a bunda e vai votar. O Brasil precisa de você", disse.
A campanha petista também criou o site "Geração Lula", voltado à mobilização de eleitores mais velhos. A página reúne cartilhas e orientações para apoiadores e afirma ter como objetivo "garantir a presença e o voto do eleitorado 70+ nas urnas".
A preocupação tem relação com o perfil do eleitorado que mais se abstém e com os segmentos em que Lula apresenta vantagem. No primeiro turno de 2022, 20,95% dos eleitores aptos não compareceram às urnas, segundo o TSE. Foram 32,7 milhões de pessoas.
Naquele pleito, a abstenção foi especialmente elevada entre os eleitores mais velhos. Em 2026, o eleitorado com mais de 70 anos chega a quase 17 milhões de pessoas, mais de 10% do total de eleitores aptos. O grupo cresceu 15,75% em relação a 2022.
Vantagem de Lula sobre os mais velhos
A faixa etária também é relevante porque Lula apresenta maior vantagem sobre Flávio entre os eleitores com 60 anos ou mais. Na pesquisa Datafolha divulgada na sexta-feira (2), o petista tinha 49% das intenções de voto nesse grupo, contra 36% do candidato do PL.
O levantamento também mostra vantagem de Lula entre eleitores de menor renda (50% contra 28%), com escolaridade fundamental (54% a 27%), no Nordeste (56% a 26%) e entre católicos (50% a 32%). Flávio aparece à frente nas faixas de renda mais altas (47% a 37%), no Sul (50% a 30%) e entre os evangélicos (52% a 26%).
A relação entre abstenção e resultado eleitoral, porém, não é direta. O fato de determinado grupo comparecer menos às urnas não permite saber qual candidato receberia os votos dos eleitores que deixaram de votar.
Outro grupo que chama atenção na eleição deste ano é o de adolescentes de 16 e 17 anos, para quem o voto é facultativo. O TSE contabiliza cerca de 1,6 milhão de eleitores nessa faixa em 2026. Em 2022, eram pouco mais de 2,1 milhões.
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Flávio de olho no voto útil
Na campanha de Flávio, a avaliação é diferente. Segundo integrantes da equipe, não há preocupação específica com a abstenção. A aposta é que o movimento de voto útil na reta final, especialmente entre eleitores que antes declaravam preferência por outros candidatos de direita, seja suficiente para estimular o comparecimento.
A campanha afirma ter identificado migração de eleitores que anteriormente pretendiam votar em nomes como Romeu Zema (Novo), Ronaldo Caiado (PSD), Augusto Cury (Avante) e Renan Santos (Missão).
Para os estrategistas do PL, o chamado voto útil também funciona como instrumento de mobilização. Ao sustentar que Flávio é o candidato com condições de derrotar Lula, a campanha busca transformar essa percepção em um estímulo para que o eleitor vá às urnas.
A avaliação interna é que decisões recentes da Justiça Eleitoral e do Supremo Tribunal Federal contribuíram para aumentar o distanciamento de uma parcela do eleitorado independente em relação ao Judiciário e podem ter reforçado a disposição desse grupo de votar em Flávio.
Esse argumento ganhou espaço na campanha após as decisões judiciais que afetaram o debate presidencial da TV Globo, posteriormente cancelado.
Na quinta-feira (1º), a ministra Estela Aranha, do TSE, proibiu a emissora de exibir o púlpito vazio reservado a Lula e determinou que os demais candidatos não poderiam dirigir perguntas ao presidente durante o debate. Flávio desistiu de participar do programa após a decisão e classificou a medida como "censura".
Na transmissão ao vivo que fez depois de desistir do debate, Flávio vinculou a disputa eleitoral à futura composição do STF e afirmou que uma vitória lhe permitiria "indicar ministros para a Suprema Corte".
"O eleitor que é o indeciso e que deve definir o resultado das eleições está afastado do Judiciário", afirmam estrategistas da campanha ouvidos pela reportagem. Na avaliação da equipe, a possibilidade de Lula indicar quatro novos ministros do STF também pode funcionar como fator de mobilização desse eleitorado.
Na penúltima pesquisa Datafolha antes do primeiro turno, Lula tinha 45% dos votos válidos, contra 40% de Flávio. Entre os eleitores que não se identificam nem com o bolsonarismo nem com o petismo, porém, os dois apareciam próximos: 24% declaravam voto em Lula e 25% em Flávio.