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Um sifonóforo — um invertebrado marinho colonial aparentado com a venenosa caravela-portuguesa — é escaneado usando Velocimetria por Imagem de Partículas Profunda (DeepPIV) a uma profundidade de 350 metros.
G1 — Campinas e Região · 2026-10-03T12:42:02.000Z
Um sifonóforo — um invertebrado marinho colonial aparentado com a venenosa caravela-portuguesa — é escaneado usando Velocimetria por Imagem de Partículas Profunda (DeepPIV) a uma profundidade de 350 metros.
ROV SuBastian / Schmidt Ocean Institute
Um verme transparente que parece deslizar pela água, águas-vivas de formas incomuns e organismos unicelulares grandes o suficiente para serem vistos a olho nu estão entre as descobertas feitas durante uma expedição científica no Atlântico Sul.
Em apenas 15 dias, pesquisadores a bordo do navio Falkor (too) identificaram 31 espécies consideradas novas para a ciência em águas internacionais ao largo do Brasil. A missão, chamada Designing the Future 3, ocorreu entre 15 e 30 de abril de 2026 e foi liderada pela zoóloga Karen Osborn, do Museu Nacional de História Natural do Smithsonian, nos Estados Unidos.
“O maior habitat da Terra, a meia-água, está repleto de animais incríveis que estamos apenas começando a compreender”, afirmou Karen Osborn, em comunicado divulgado pelo Schmidt Ocean Institute.
A região estudada é conhecida como meia-água: a gigantesca porção da coluna oceânica localizada entre as águas superficiais iluminadas pelo Sol e o fundo do mar. Apesar de sua dimensão e importância ecológica, apenas uma pequena fração desse ambiente foi explorada pelos cientistas. Segundo o Smithsonian, a meia-água ocupa cerca de 1 bilhão de quilômetros cúbicos e participa de processos como o ciclo global do carbono.
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A cientista-chefe da expedição, Dra. Karen Osborn (Museu Nacional de História Natural do Smithsonian), trabalha com Heather Judkins (Universidade do Sul da Flórida, St. Petersburg) e com a Dra. Silvina Botta (Universidade Federal do Rio Grande) no laboratório de pesquisa R/V Falkor (too)
Alex Ingle / Schmidt Ocean Institute
Um catálogo de criaturas pouco conhecidas
Entre as 31 espécies identificadas estão nove águas-vivas, sete sifonóforos, sete ctenóforos, quatro larváceos, dois rizários gigantes, um anfípode e um verme do gênero Tomopteris.
Os sifonóforos são parentes das águas-vivas e dos corais, mas possuem uma característica curiosa: cada indivíduo aparente é, na verdade, uma colônia formada por unidades especializadas que funcionam em conjunto.
Esta é uma nova espécie do gênero Tomopteris, comumente conhecidos como vermes-de-seda (gossamer worms)
ROV SuBastian / Schmidt Ocean Institute
Os ctenóforos, por sua vez, locomovem-se com fileiras de cílios que produzem um efeito cintilante ao interagir com a luz. Já os larváceos têm aparência que lembra a de girinos e vivem em estruturas de muco utilizadas, entre outras funções, para filtrar partículas da água. Google Sites
Há ainda os rizários gigantes. Embora possam ser observados a olho nu, são organismos formados por uma única célula.
Um dos protagonistas da expedição foi um novo representante de Tomopteris, grupo conhecido em inglês como gossamer worms, expressão que pode ser traduzida como “vermes-fio-de-seda”. O Schmidt Ocean Institute identifica o animal registrado durante a missão como uma nova espécie do gênero e destaca que ele se movimenta mais rapidamente do que os cientistas esperariam considerando o formato de seu corpo. Google Sites
A capacidade de natação desses animais já vinha despertando a atenção da ciência.
Uma nova espécie de sifonóforo, segundo o especialista em águas-vivas Dr. Dhugal Lindsay (JAMSTEC), é escaneada.
ROV SuBastian / Schmidt Ocean Institute
Um estudo publicado em 2021 na revista Integrative and Comparative Biology, com participação da própria Karen Osborn, mostrou que os Tomopteris combinam dois mecanismos de propulsão: ondulações do corpo e movimentos coordenados de apêndices chamados parapódios. Os pesquisadores observaram que esses apêndices geram impulso ativamente e que o movimento ondulatório do corpo ajuda a potencializar a propulsão.
Os Tomopteris passam toda a vida na coluna d'água e possuem um corpo extremamente delicado, constituído em grande parte por fluido, envolvido por uma fina parede corporal com gel e músculos.
Além de ajudar a entender como esses animais sobrevivem no oceano, a forma como nadam chama a atenção de pesquisadores de outras áreas.
“Os tomopterídeos são um exemplo único de combinação de diferentes mecanismos de propulsão”, registram os pesquisadores no estudo. Segundo os autores, a biomecânica desses animais pode ter aplicações em áreas como engenharia de materiais flexíveis e robótica.
Uma fêmea de polvo (Haliphron atlanticus) devora uma água-viva a 800 metros de profundidade.
ROV SuBastian / Schmidt Ocean Institute
Como saber que uma espécie é nova?
Encontrar um animal estranho nas profundezas não basta para concluir que se trata de uma espécie desconhecida. É preciso comparar características morfológicas e, quando possível, informações genéticas com organismos já conhecidos.
Esse processo é particularmente complicado para animais gelatinosos. Muitos possuem corpos transparentes e extremamente frágeis, que podem ser deformados ou destruídos durante a captura e preservação.
Esta é uma nova espécie pertencente ao gênero Atorella, segundo o Dr. Renato Nagata, do Instituto de Oceanografia da Universidade Federal do Rio Grande, no Brasil.
ROV SuBastian / Schmidt Ocean Institute
Um estudo publicado em 2024 na revista Science Advances mostrou como novas tecnologias podem contornar parte desse problema. O trabalho reuniu imageamento tridimensional, robótica, preservação de tecidos e sequenciamento genético para obter informações sobre organismos ainda em seu ambiente natural.
Entre as ferramentas estão o DeepPIV, que utiliza laser para produzir informações tridimensionais, e o EyeRIS, sistema de imageamento capaz de registrar detalhes da morfologia dos animais. Os equipamentos podem ser instalados no ROV SuBastian, veículo submarino operado remotamente pelo Schmidt Ocean Institute.
No trabalho de 2024, os pesquisadores conseguiram obter dados de tamanho de 61 animais com o EyeRIS e escanear 49 indivíduos com o DeepPIV. Entre eles estavam sifonóforos e um Tomopteris.
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A representação digital é especialmente importante para o zooplâncton gelatinoso, justamente porque sua morfologia delicada nem sempre é bem preservada em exemplares físicos.
Na expedição de 2026, esse arsenal tecnológico foi ampliado. Os cientistas utilizaram sistemas avançados de imageamento para observar os animais e montaram um laboratório de genética dentro do próprio Falkor (too). Assim, puderam comparar características e sequências genéticas ainda durante a viagem. Segundo as instituições envolvidas, a combinação entre tecnologia e conhecimento taxonômico permitiu confirmar as 31 espécies como novas em questão de dias — um processo que tradicionalmente pode levar anos.
Um mundo quase invisível
As novas espécies não foram as únicas surpresas.
Os pesquisadores também registraram uma lula-de-vidro juvenil, além de um polvo pelágico (Haliphron atlanticus) alimentando-se de uma água-viva de coloração vermelho-intensa. A equipe encontrou uma diversidade e abundância de organismos de meia-água maiores do que esperava.
A expedição contou ainda com participação brasileira. Entre os pesquisadores a bordo estava Silvina Botta, da Universidade Federal do Rio Grande (FURG), que trabalhou com amostras destinadas a análises de isótopos estáveis para investigar o movimento do carbono pelo oceano.
As descobertas ajudam a revelar a biodiversidade de um ambiente gigantesco que permanece, em grande parte, desconhecido. O Smithsonian destaca que comunidades da meia-água têm papel relevante em processos biogeoquímicos globais, incluindo a retenção e liberação de carbono.
Mesmo depois de encontrar dezenas de espécies em apenas duas semanas, para Karen Osborn a expedição deixou principalmente novas perguntas.
“Continuo fascinada pela fantástica variedade de soluções que eles desenvolveram para sobreviver neste ambiente formidável, e isso me leva a continuar fazendo perguntas sobre o nosso oceano”, afirmou a pesquisadora.
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