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Tite abre o jogo: ansiedade, frustração na Seleção, no Flamengo e revela primeira meta no Botafogo

Recém-chegado ao Botafogo, Tite recebeu o Globo Esporte no Espaço Lonier e falou sobre tudo: a decisão em assumir o clube, a passagem pelo Flamengo, as eliminações com a seleção brasileira, a crise de ansiedade que o afastou do futebol por…

ge — Futebol · 2026-10-05T16:23:02.000Z

Recém-chegado ao Botafogo, Tite recebeu o Globo Esporte no Espaço Lonier e falou sobre tudo: a decisão em assumir o clube, a passagem pelo Flamengo, as eliminações com a seleção brasileira, a crise de ansiedade que o afastou do futebol por um período e até o tal "titês". Sobre a temporada, foi direto e reto: antes de ambicionar algo maior, o Botafogo precisa se afastar do perigo de cair no Brasileirão.

O treinador admitiu que a primeira meta para este início de trabalho é bem modesta para o tamanho do clube, mas justificou que há a necessidade de garantir a pontuação para permanecer na Série A antes de pensar em voos maiores ao longo do contrato, que se encerra no fim de 2028.

— É preciso fazer todo um processo. A primeira meta, como conversamos internamente, e o Léo Coelho (diretor) está aqui conosco, talvez não condiga com a grandeza do Botafogo. Vou me permitir fazer essa colocação: a história recente e passada do Botafogo exige mais do que eu vou falar agora. Porém, este momento do Campeonato Brasileiro, com umas dez equipes emboladas, é de alerta e atenção. Quem não atingir os 44 ou 45 pontos fica numa zona de perigo. Você precisa garantir isso para, depois, ambicionar algo maior. Um passo de cada vez - e completou:

— Como dizia o meu conterrâneo Mário Quintana: "os passos fazem o caminho". Fique atento ao próximo passo. E eu posso falar de cadeira: o último técnico campeão mundial por um clube brasileiro também executou isso. Passo a passo. Calma, gente. Não é justificativa, sei da responsabilidade e da grandeza do Glorioso. Não é que vou ficar no Botafogo até 2028 brigando para não cair. A ideia é ter desempenho e ganhar também.

Tite, técnico do Botafogo, em entrevista ao ge

Tite definiu a "sintonia" com o presidente João Paulo de Magalhães Lins como um dos motivos para ter aceitado o trabalho no Botafogo neste momento, depois de ao menos três recusas quando o clube estava sob o comando de John Textor.

— O primeiro start que eu tive foi com o João Paulo (presidente), com quem eu havia trabalhado na Seleção Brasileira. Através dele, passando as ideias daquilo que era o Botafogo, da grandeza e da história do clube, recente, inclusive, não só do passado, tivemos uma sintonia. Ele é uma pessoa que tem muito feeling, muita percepção, e sabia cada detalhe do meu trabalho anterior. Isso me deu segurança para chegar ao Botafogo. No momento em que a necessidade da experiência se faz importante, o convite logo se aceita. Mas isso é uma outra história para depois - revelou.

Tite fala de convite do Botafogo, início de trabalho e faz mistério sobre escalação

A estreia aconteceu na derrota para o Mirassol, último jogo antes da Data Fifa. Foram apenas dois treinos antes deste jogo, logo, o período de paralisação foi o primeiro momento que Tite e sua comissão tiveram para começar a desenhar um novo Botafogo. O treinador, no entanto, fez mistério sobre escalação e os tópicos trabalhados.

— Quando veio o convite, eu quis ser leal comigo mesmo. Seria muito mais fácil assumir depois do jogo contra o Mirassol, mas isso não faz parte da minha conduta. Eu tinha que dar a resposta naquele momento, não ia esperar o jogo do Grêmio ou o do Mirassol para assumir. O convite foi feito, a decisão foi tomada. Isso é uma coisa minha, íntima. A partir daí, busquei todas as informações possíveis, desde a análise de dados até a fisiologia e o departamento médico. Avaliei o quanto o clube tem de estrutura por trás para dar suporte ao atleta e gerar desempenho, para que o torcedor fique feliz com o que vê em campo e, claro, com a vitória. Sendo direto na tua resposta: estou acelerando todo esse processo de treinamento e de conhecimento dos atletas nas suas posições e funções - e continuou:

- Daria (para adiantar sobre o time), mas eu não quero e não vou fazer. Por quê? Porque vamos para jogos importantes em que, daqui a pouco, revelar um posicionamento pode ser uma dica para o adversário. Gostaria de dizer, mas, sendo leal, não vou conversar publicamente sobre posição e função de atleta - explicou.

Saúde mental e pausa na carreira

Tite falou abertamente sobre saúde mental. Ele revelou que teve uma crise de ansiedade em 2025, que faz terapia há mais de dez anos e que alguns gatilhos vieram de decisões profissionais, num processo que culminou com o caso Corinthians. Em abril daquele ano, o treinador recusou a proposta do clube paulista e informou que decidiu interromper a carreira para cuidar de questões de saúde mental e física.

— Tive uma série de componentes, gatilhos pessoais. Tive três ou quatro equipes solicitando ou querendo que eu fosse trabalhar, e eu dizendo "não", aguardando uma outra possibilidade profissional. Eu ia dormir e pensava: "Será que estou fazendo a coisa certa? Será que não é essa a oportunidade?". Isso culminou com a situação do Corinthians, por quem tenho toda uma história de respeito. Aquilo fugiu do meu controle, fiquei fragilizado no momento e tive que dar um passo atrás (...) Agora, estou de boa. Já faz algum tempo. Continuo fazendo a minha preparação, a minha espiritualidade, as minhas orações - finalizou.

A possibilidade de trabalhar no exterior, que esteve no horizonte após a saída da Seleção, ficou para trás e tratou o antigo sonho como uma "ideia bem mais remota" para os dias de hoje. Tite revelou que fez entrevistas com dois clubes e chegou a recusar propostas no Brasil à espera de uma resposta.

— Tive contatos de forma direta. Foram dois contatos mais específicos, fiz entrevistas e aguardei. Inclusive, abri mão de possibilidades profissionais no Brasil apostando nisso. Como não se concretizou, hoje essa ideia é bem mais remota. Está deixada de lado, focada no meu objetivo atual. Deixa isso quietinho num canto, tenho um monte de coisas para conquistar aqui.

"Frustração" na seleção brasileira

O fim da era Tite na Seleção aconteceu logo após a Copa do Mundo do Catar, em 2022. O treinador encerrou a passagem com 80,2% e o título da Copa América de 2019. Ao ge, o treinador defendeu o ciclo de seis anos e meio a frente da Seleção, mas admitiu a frustração com as duas eliminações em quartas de final de Copa.

— Ficar quase sete anos na seleção brasileira, por si só, é uma conquista. E não é porque sou simpático, porque falo bem ou deixo de falar, é porque houve desempenho e resultado. Fomos campeões de uma Copa América, vices em outra. Tivemos uma invencibilidade de 29 jogos nas Eliminatórias, com a melhor campanha da história. Saímos nas quartas de final nas duas Copas sendo os primeiros do ranking da Fifa. Isso traz um contexto muito grande - e continuou:

- Fica, sim, a minha frustração, porque nos dois jogos nós tivemos desempenho para passar. Porém, o futebol não é ciência exata, não é basquete, não é somatório de pontos. Do outro lado, tem gente qualificada trabalhando para ganhar também. Às vezes, a efetividade faz a diferença. No futebol a margem é muito pequena, um gol faz toda a diferença.

Tite cita frustração em eliminações com a Seleção: "Tivemos desempenho para passar"

Tite revelou que faria "alguma coisa diferente" se soubesse na época o que sabe hoje, mas rebateu as críticas sobre o treino de pênaltis e lembrou a atuação do goleiro belga Courtois.

— Eu queria ter um processo evolutivo mais maduro, treinar mais algumas situações. Mas eu não tinha esse conhecimento na época. Se eu tivesse e não fizesse, aí sim seria negligência. Dizem: "Treina mais pênaltis, treina mais os teus batedores, treina mais o teu goleiro". Nós treinamos para isso e fizemos isso. Mas como vou retirar o mérito do Courtois, que fez um dos três melhores jogos da carreira dele como profissional? Tivemos 28 finalizações. Teve aquele lance do Renato Augusto que parece que alguém assoprou a bola para fora - afirmou.

— Olho para trás e trago o processo com orgulho. Você separa o desempenho do resultado, porque o resultado nós não conseguimos controlar. Os atletas não conseguem controlar o resultado. Mas dá para controlar o desempenho, o trabalho, o respeito ao clube e ao torcedor, para que ele se sinta representado. Eu sei o quanto as pessoas vão ficar felizes com um bom desempenho e um bom resultado do Botafogo. Carrego comigo essa responsabilidade.

Gosto de "quero mais" no Flamengo

Ao sair da Seleção, Tite se programou para dar uma pausa de um ano na carreira. Mas acabou interrompendo o período sabático após o contato do Flamengo. O treinador ficou quase um ano no comando, entre 2023 e 2024, e acabou sendo demitido para a contratação de Filipe Luís. Tite afirmou entender a decisão, mas revelou que ficou com o desejo de terminar o trabalho. Naquele ano, o Flamengo acabou campeão da Copa do Brasil em cima do Atlético-MG.

— A passagem no Flamengo teve, sim, sete meses muito bons, e eu gostaria de ter permanecido para terminar o meu trabalho. Esse é o sentimento que tenho. O que chateia, ou o que faz lastimar, é que os três jogadores de frente se machucaram juntos em momentos decisivos. E aí o nosso poder ofensivo caiu. Mas trouxemos um título que não vinha há mais de um ano, houve uma reformatação da equipe, chegamos a uma semifinal de Copa do Brasil passando pelo Palmeiras e pela melhor versão do Bahia que eu já vi. A equipe já estava encaminhada. Aí fica aquele gostinho de querer terminar o trabalho. Mas também compreendo - lamentou o treinador.

Tite lamenta saída do Flamengo e revela: "Fica o gostinho de querer terminar o trabalho"

Como é que você vê essa história do "titês"?

— Eu sou um ex-atleta, ex-boleiro, e também sou professor de Educação Física. Então, por vezes, uso uma linguagem acadêmica e, às vezes, o "futebolês", dependendo de como preciso me expressar dentro ou fora do vestiário. Eu luto, e lutei a minha vida toda, Escobar, contra a ignorância. A minha própria. Então, se eu falo "ponta", "externo" ou "jogador que flutua de fora para dentro", são nomenclaturas diferentes que mostram a evolução do jogo. Se eu digo que quero um "apoio estático", acham legal, dizem que é titês. Mas isso é o termo de um acadêmico, do garoto que está surgindo. Quando a gente luta para ter um processo evolutivo, eu vou continuar falando assim. Pode ser "fazer parede", "fazer um pivô" ou "apoio estático".

— Volto a dizer, e tenho esse privilégio: sou ex-boleiro, de "chão de fábrica". O João Paulo (presidente) até brincou com isso. Eu fui formado no chão de fábrica, literalmente. Eu treinava equipe de fábrica. Na minha época de segunda divisão, eu jogava no domingo e, nas terças e quintas, depois das seis da tarde, quando o expediente do profissional terminava, eu ia treinar o time da fábrica para jogar no Sesi. Então eu tenho essa linguagem do chão de fábrica, mas tenho um estilo próprio, um jeito de ser.

Tite, técnico do Botafogo, em entrevista ao ge

Carlos Carvalho e César Culiche

Cobrança e responsabilidade nos técnicos

— Primeiro, é uma realidade nossa, sim. Não sei se no mundo afora é assim. É uma boa pergunta, porque envolve diferentes fatores. Eu mesmo já me coloquei como técnico dizendo: "A culpa é minha, a responsabilidade é minha". Mas, no fundo, estou sendo hipócrita, porque a responsabilidade é conjunta. Não existe um único culpado ou um único herói. É um conjunto da obra. Depende da qualidade técnica dos atletas, da qualidade do treinador, da direção e de todo o contexto. Claro, o técnico tem uma exposição, uma visibilidade e uma responsabilidade maiores. Mas eu não gosto de dizer que a culpa é só do técnico. Ela é dividida, cada um com a sua parcela.

Diferença de rotina nos clubes e na Seleção

— Exigiu uma readaptação. O processo todo, os jogos, o calendário... Por vezes, isso te massacra, te machuca. Você joga na quarta e no sábado, depois na outra quarta-feira. Vamos pegar o calendário do Botafogo: pré-Libertadores, Libertadores, Sul-Americana, Copa do Brasil... E não só do Botafogo, mas dos outros clubes de uma maneira geral. O calendário tem que ser mais equalizado, senão o atleta não tem condição de produzir. Falo isso de uma forma muito tranquila, não é para ficar justificando situações (...) Eu costumo dizer que existe a periodização física, a periodização tática e os momentos de estímulo e recuperação mental.

Algum clube brasileiro vai ser campeão do mundo de novo?

— Não sei. A realidade daquele Corinthians e Chelsea ficou muito diferente da de hoje. O investimento daquelas equipes europeias é enorme. Vou pegar o Lampard para dar um exemplo: um jogador extraordinário, excepcional, visionário. O Hazard no auge da sua forma. Só para citar dois. O nível de enfrentamento já era muito alto. Agora, há um número maior de jogos no novo formato. Consequentemente, os filtros se tornam maiores e a dificuldade para ser campeão mundial aumenta.

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