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Franco Montoro, primeiro governador eleito diretamente após o regime militar, Geraldo Alckmin e Tarcísio de Freitas
G1 — Política · 2026-10-06T07:00:00.000Z
Franco Montoro, primeiro governador eleito diretamente após o regime militar, Geraldo Alckmin e Tarcísio de Freitas
Montagem g1/Divulgação Alesp/Mateus Bonomi/Estadão Conteúdo/LUIZ RODRIGUES/ATO PRESS/ESTADÃO CONTEÚDO
Desde a retomada das eleições diretas, em 1982, o estado de São Paulo nunca elegeu um governador de um partido tradicionalmente identificado como sendo de esquerda.
Nas últimas quatro décadas, o Palácio dos Bandeirantes foi ocupado por nomes do PMDB, do PSDB e, mais recentemente, do Republicanos.
A primeira eleição direta para governador depois da ditadura militar ocorreu em 1982 e terminou com a vitória de Franco Montoro, do PMDB. Ele foi seguido por Orestes Quércia, também do PMDB, eleito em 1986, e Luiz Antônio Fleury Filho, eleito em 1990, pelo mesmo partido.
Em 1994, Mário Covas venceu a eleição pelo recém-criado PSDB. A partir dali, a legenda passou a dominar as eleições para o governo paulista: foram sete vitórias consecutivas, de Covas, em 1994, a João Doria, em 2018. A sequência terminou em 2022, com a eleição de Tarcísio de Freitas, do Republicanos.
A trajetória foi analisada pelo cientista político Henrique Curi, professor da FESP-SP, em sua dissertação de mestrado pela Unicamp, “Ninho dos Tucanos: o PSDB em São Paulo (1994-2018)”, posteriormente publicada na revista "Opinião Pública".
O estudo investiga a organização e o desempenho eleitoral do partido e aponta que São Paulo teve a maior sequência de vitórias consecutivas de uma legenda para o governo estadual no Brasil no período analisado.
Em entrevista ao g1, Curi ressaltou que a longevidade tucana por quase 30 anos não pode ser explicada apenas pelo perfil do eleitorado paulista. A estrutura partidária nos municípios e a capacidade de formar e manter lideranças também tiveram papel importante (veja abaixo).
Do PMDB ao PSDB
Os ex-governadores de São Paulo André Franco Montoro, Orestes Quércia e Luiz Antônio Fleury Filho, todos eleitos pelo antigo PMDB.
O período entre o fim da ditadura e a ascensão dos tucanos foi marcado pelo PMDB, herdeiro do Movimento Democrático Brasileiro (MDB), criado em 1966 como oposição ao regime militar.
Segundo o Atlas Histórico do Brasil, da Fundação Getulio Vargas (FGV), o MDB surgiu dentro do sistema bipartidário imposto pelo regime, ao lado da Arena, legenda de sustentação do governo.
Durante a ditadura, as eleições para os governos estaduais foram transformadas em indiretas. O AI-3, editado em 1966, estabeleceu que os governadores seriam escolhidos pelas assembleias legislativas. Em São Paulo, Roberto de Abreu Sodré foi eleito dessa maneira naquele ano.
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A volta da eleição direta ocorreu em 1982, quando Franco Montoro, então no PMDB, tornou-se o primeiro governador paulista eleito diretamente depois do regime militar. Montoro governou entre 1983 e 1987 e foi sucedido por Quércia, que ficou no cargo até 1991, e Fleury, que governou até 1995.
Em 1988, Montoro foi um dos fundadores do PSDB, ao lado de lideranças como Mário Covas, Fernando Henrique Cardoso e José Serra. A criação da nova sigla ocorreu durante os trabalhos da Assembleia Nacional Constituinte, nos dias 24 e 25 de junho, com forte participação de políticos que haviam pertencido ao PMDB.
A origem do PSDB paulista, portanto, está ligada a uma dissidência do partido que havia governado o estado no período de redemocratização. Nos anos seguintes, os tucanos construíram uma estrutura própria para ampliar sua presença eleitoral nos municípios.
Como o PSDB construiu sua hegemonia
Foto de arquivo de 12/03/2018 do ex- governador de São Paulo, Geraldo Alckmin
DIDA SAMPAIO/ESTADÃO CONTEÚDO
Uma explicação frequentemente levantada para a sequência de vitórias tucanas é a de que São Paulo teria um eleitorado de centro-direita, com forte presença da classe média e identificação com o PSDB. Para Curi, porém, essa interpretação não é suficiente.
“São Paulo seria um eleitorado de centro-direita, classe média, identificação partidária com o PSDB, mas ela é insuficiente. A explicação mais robusta, que eu considero, é por uma via organizacional e institucional do partido ”, afirma o cientista político.
Na avaliação do pesquisador, um dos principais fatores foi a capacidade de organização do partido nos municípios. A Executiva estadual acompanhava a atuação dos diretórios nas 645 cidades paulistas e mantinha coordenadores regionais nas 63 regiões de governo do estado.
“O PSDB de São Paulo contava com uma Executiva estadual que era capaz de monitorar os 645 municípios. Ele apostou sua organização nessa interiorização, nos diretórios municipais, em vez de ter comissões provisórias, como os outros partidos faziam no resto do país”, diz Curi.
O partido também mantinha um sistema interno, conhecido como “intranet tucana”, para acompanhar o desempenho das estruturas municipais. O mecanismo permitia identificar demandas locais, avaliar resultados eleitorais e decidir sobre o apoio oferecido aos diretórios.
“Isso permitia captar demandas locais, recrutar lideranças e premiar e punir diretórios. O desempenho eleitoral do partido em cada município seguia métricas que eram passíveis de premiação e punição. Variavam desde o maior suporte durante o mandato até o apoio durante as campanhas nas eleições seguintes”, afirma.
Segundo o pesquisador, apesar da atuação local, os diretórios permaneciam sob acompanhamento da direção estadual. O desempenho também podia influenciar a permanência de seus dirigentes.
Outro fator foi a capacidade de atrair políticos com diferentes níveis de experiência eleitoral. O PSDB recrutava tanto pessoas que nunca haviam disputado uma eleição quanto políticos veteranos.
“Historicamente, o PSDB era o partido em São Paulo que mais atraía debutantes, pessoas que nunca se candidataram anteriormente. E, além de atrair os debutantes, atraía os veteranos também, que eram pessoas que já tinham se candidatado”, diz Curi.
O pesquisador também destaca a continuidade entre as lideranças tucanas. Nomes como Mário Covas, Geraldo Alckmin, José Serra e Fernando Henrique Cardoso atuaram em diferentes momentos da trajetória da legenda, sem que a direção política dependesse de um único líder.
Para Curi, a combinação entre organização interna, recrutamento de lideranças e continuidade política ajuda a explicar por que o partido conseguiu manter o governo paulista por tanto tempo.
A força dos municípios
Palácio dos Bandeirantes, sede do governo de São Paulo, no Morumbi, Zona Sul de São Paulo.
A presença municipal não se limitava à organização dos diretórios. Ela também era parte da estratégia eleitoral do PSDB. Em 1996, o então governador Mário Covas orientou o partido a ampliar o número de candidaturas ao Executivo municipal.
Segundo o levantamento de Curi, o PSDB passou de cinco prefeituras conquistadas em 1988 para 50 em 1992 e chegou a 221 em 1996, crescimento de 342% entre as duas últimas eleições. Os dados foram elaborados pelo autor a partir de informações do Tribunal Superior Eleitoral (TSE).
Naquele ano, o partido lançou candidatos a prefeito em 446 municípios, o equivalente a 69% das cidades paulistas. A estratégia foi ampliada nos anos seguintes: entre 2000 e 2016, o PSDB apresentou candidatos a vereador, em média, em 98,7% dos municípios do estado.
A avaliação do desempenho municipal, porém, não se limitava ao número de prefeituras conquistadas. O partido também considerava a população que estava sob a administração de seus prefeitos e a participação nas alianças eleitorais.
“O PSDB paulista media o sucesso pela população governada”, afirma Curi.
Com o tempo, a legenda também passou a recorrer mais às coligações em cidades menores, em vez de necessariamente lançar um candidato próprio a prefeito. Segundo o pesquisador, essa mudança esteve ligada à estratégia de Geraldo Alckmin de construir alianças com o maior número possível de partidos e municípios, também como forma de preparar o apoio à candidatura presidencial de 2006.
A organização municipal também servia para avaliar o trabalho dos dirigentes. De acordo com Curi, a Executiva estadual utilizava critérios formais de desempenho, que incluíam desde a ausência de candidatura própria a prefeito até a conquista de mais de 10% dos votos ou a eleição de um vereador. Diretórios com resultados considerados insatisfatórios podiam ter seus dirigentes substituídos.
Curi também apontou em seu artigo a força do PSDB nas coligações municipais. Entre 2000 e 2016, o partido participou, em média, de 95,6% das disputas majoritárias municipais paulistas e esteve na cabeça da chapa em 54,8% das candidaturas de que participou.
A legenda também atraiu políticos de outras siglas. Segundo o estudo, em 2016, 26,7% dos vereadores veteranos que disputavam a eleição haviam entrado no PSDB, enquanto 7,2% haviam deixado o partido. Entre prefeitos veteranos, 38,3% entraram na sigla e 10% saíram.
Para o cientista político, a presença nos municípios foi fundamental para sustentar a influência do PSDB no estado e ampliar sua participação nas disputas eleitorais.
Por que a esquerda nunca venceu o governo paulista?
A ausência de um governador de um partido tradicionalmente identificado à esquerda desde a retomada das eleições diretas também está relacionada, segundo Curi, às diferenças entre o desempenho eleitoral na capital e no interior e à dificuldade de construir uma estrutura partidária nos municípios.
“Historicamente, o PT é mais forte na capital”, afirma o cientista político. Segundo ele, o partido encontra mais dificuldades no interior, onde há municípios industrializados, cidades médias e pequenas cidades prósperas, além de regiões marcadas pela presença do agronegócio e pelo antipetismo.
Para Curi, essa diferença ajuda a explicar por que o desempenho do PT na capital nem sempre se traduz em vitória nas eleições estaduais.
“O segundo turno no estado de São Paulo evidencia um clássico Holanda na Copa do Mundo para o PT, que joga como nunca e perde como sempre”, diz o pesquisador.
Além do perfil do eleitorado, Curi destaca a dificuldade histórica do PT para ampliar sua presença no interior e acessar as estruturas políticas municipais. Nesse espaço, o PMDB havia construído uma presença importante antes de o PSDB assumir o protagonismo. Mais recentemente, o PSD também passou a ampliar sua atuação nas cidades do interior.
O pesquisador cita como exemplo a estratégia tucana de buscar o apoio de prefeitos do PMDB, inclusive com a realização de um evento com Franco Montoro para atrair essas lideranças. Segundo ele, a força dos partidos já estabelecidos dificultou a entrada do PT nesses municípios.
Para Curi, a ausência de uma estrutura municipal comparável à de seus adversários e os obstáculos impostos por forças partidárias já estabelecidas ajudam a explicar por que o PT não conseguiu ocupar o mesmo espaço no interior paulista.
A mudança na polarização e a crise interna
João Doria e Rodrigo Garcia (PSDB) eleitos governador e vice governador de São Paulo em 2018
A eleição de 2018 já havia mostrado sinais de mudança. Apesar da vitória de João Doria, aquele foi o pleito mais disputado para o governo paulista até então dentro da trajetória tucana, com a menor diferença de votos entre os dois candidatos no segundo turno desde a primeira vitória do PSDB, em 1994. Curi também destacou naquele momento o crescimento do PSB-SP nas disputas municipais e estaduais.
Ao g1, o pesquisador apontou três fatores para explicar o encolhimento do PSDB nos anos seguintes: a mudança no protagonismo da polarização política, a crise interna e a perda de lideranças e a saída do governo estadual.
O primeiro fator está relacionado à mudança na disputa política nacional. Entre 1994 e 2014, o PSDB ocupou o principal polo de oposição ao PT. A partir de 2018, esse espaço passou a ser ocupado por Jair Bolsonaro.
“O PSDB era o polo antipetista do país que disputava com o PT. Em 2018, esse papel, esse polo migrou para Jair Bolsonaro”, afirma Curi.
Naquele período, o PSDB paulista também se aproximou do bolsonarismo. Para o pesquisador, essa aproximação contribuiu para reduzir a identidade própria da legenda. O rompimento entre Doria e Bolsonaro durante a pandemia de Covid-19 deixou o partido em uma posição mais difícil diante de parte do eleitorado.
“Quando o Doria rompeu com o Bolsonaro na pandemia, o partido ficou meio sem lugar, ficou meio perdido frente ao eleitorado”, diz Curi.
Segundo ele, a legenda continuou enfrentando rejeição entre eleitores de esquerda e passou a ser acusada de traição por setores da direita após o afastamento do então presidente.
O segundo fator foi a perda de lideranças e a crise interna. Curi cita a saída de quadros que haviam construído suas trajetórias no PSDB, como Geraldo Alckmin, Floriano Pesaro, Mara Gabrilli e Carlos Sampaio, além das dificuldades de Doria para sustentar sua candidatura à Presidência da República, apesar de ter vencido as prévias internas.
O pesquisador também menciona a escolha de Rodrigo Garcia para disputar o governo paulista em 2022. Garcia havia chegado recentemente ao PSDB, vindo do DEM, e não tinha experiência anterior em uma disputa eleitoral para o Executivo.
Para Curi, o partido perdeu parte da coesão que havia caracterizado sua direção e sua capacidade de reunir diferentes lideranças.
O terceiro fator foi a perda do governo estadual em 2022. Segundo o pesquisador, o comando do Palácio dos Bandeirantes era importante para sustentar a estrutura partidária nos municípios, tanto pelo acompanhamento dos diretórios quanto pelo apoio político às lideranças locais.
“O partido governador era um dos pontos que conseguia turbinar o monitoramento do partido e ter essa máquina municipal. Perdeu o Palácio dos Bandeirantes em 2022, perdeu esse motor”, afirma.
O encolhimento nas eleições municipais de 2024
Mapa das cidades de São Paulo vencidas por cada partido em 2024.
Nas eleições municipais de 2024, o PSDB perdeu espaço no estado de São Paulo. O número de prefeituras comandadas pelo partido caiu de 173 para 21.
Enquanto os tucanos encolheram, outras siglas ampliaram sua presença nos municípios paulistas. O PSD terminou a eleição com 206 prefeitos eleitos em 645 municípios, tornando-se o partido com maior número de prefeituras no estado. Na sequência apareceram o PL, com 104 prefeitos, e o Republicanos, com 84. O MDB ficou na quarta posição.
A legenda também não elegeu prefeito em nenhuma capital e ficou sem representação na Câmara Municipal de São Paulo.
A queda no número de prefeituras ocorreu dois anos depois de o PSDB perder o governo estadual. Para Curi, a perda do Palácio dos Bandeirantes, a crise interna e as mudanças na polarização política ajudam a explicar a redução da presença tucana nos municípios e o enfraquecimento da estrutura que havia sustentado a hegemonia do partido por 28 anos.
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