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Relatório do UNAIDS alerta para risco de ressurgimento da epidemia de HIV no mundo

Relatório do UNAIDS alerta para risco de ressurgimento da epidemia de HIV no mundo

G1 — Brasil · 2026-07-27T19:18:59.000Z

Relatório do UNAIDS alerta para risco de ressurgimento da epidemia de HIV no mundo

Os avanços científicos contra o HIV nunca foram tão promissores, mas o mundo pode estar diante de um novo agravamento da epidemia. É o que alerta o relatório especial "Unidas e Unidos para acabar com a AIDS", divulgado pelo Programa Conjunto das Nações Unidas sobre HIV/AIDS (UNAIDS) durante a 26ª Conferência Internacional de AIDS (AIDS 2026), realizada no Rio de Janeiro.

Segundo o documento, a combinação entre cortes no financiamento internacional, redução dos serviços comunitários e dificuldades de acesso à prevenção pode comprometer décadas de progresso e provocar um ressurgimento da epidemia global de HIV.

Embora as novas infecções e as mortes relacionadas à AIDS estejam nos menores níveis dos últimos 30 anos, o UNAIDS afirma que a resposta global está fragilizada e que o objetivo de acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030 corre risco caso não haja retomada da solidariedade internacional e redução das desigualdades.

Em 2025, foram registradas 1,2 milhão de novas infecções por HIV no mundo e 570 mil mortes relacionadas à AIDS.

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Progresso existe, mas é desigual

O relatório mostra que os resultados variam significativamente entre os países.

Enquanto sete países conseguiram reduzir em quase 80% o número de novas infecções desde 2010 e outros 11 atingiram as metas internacionais de tratamento conhecidas como 95-95-95, o avanço desacelerou ou retrocedeu em diversas regiões.

as novas infecções aumentaram em três regiões do mundo;

21 países registraram crescimento nos casos;

cerca de 22% das 41 milhões de pessoas vivendo com HIV ainda não estavam em tratamento;

quase metade das crianças vivendo com HIV não teve acesso à terapia antirretroviral.

Para o UNAIDS, esses números demonstram que o progresso é possível, mas depende da manutenção dos investimentos e da ampliação do acesso aos serviços.

Ciência avança rumo a uma "revolução" na prevenção

O relatório destaca que o mundo vive um momento considerado histórico no desenvolvimento de medicamentos preventivos contra o HIV.

Segundo o UNAIDS, novas tecnologias oferecem níveis de proteção comparáveis aos de uma vacina.

Entre os avanços estão:

medicamentos injetáveis de aplicação mensal;

medicamentos injetáveis semestrais;

comprimidos de uso mensal que ainda estão em fase avançada de testes.

Apesar desse cenário, a agência afirma que o principal obstáculo continua sendo garantir que essas tecnologias cheguem às pessoas que mais precisam.

A diretora-executiva do UNAIDS, Winnie Byanyima, afirmou que a inovação só terá impacto se houver acesso amplo e preços acessíveis.

"Os avanços científicos estão nos dando ferramentas com as quais as gerações anteriores só podiam sonhar. No entanto, inovação sem acesso não é inovação, é injustiça. O verdadeiro teste do sucesso não é se os medicamentos existem, mas se as pessoas que precisam deles conseguem obtê-los, e a um preço acessível."

Brasil amplia uso da prevenção, mas enfrenta barreira para novo medicamento

O relatório cita o Brasil entre os países que ampliaram o acesso à prevenção medicamentosa.

Segundo o documento, o país registrou um aumento de 41% no número de pessoas que utilizaram medicamentos preventivos contra o HIV pelo menos uma vez no último ano.

Etiópia e Uganda também ampliaram o acesso utilizando recursos domésticos e outras fontes de financiamento, enquanto a África do Sul negocia preços para as aplicações semestrais de lenacapavir.

No entanto, o UNAIDS destaca que, apesar de ter participado dos ensaios clínicos do lenacapavir, o Brasil não recebeu da fabricante Gilead uma licença voluntária que permita preços mais baixos ou a produção de versões genéricas do medicamento.

Diante desse cenário, o país avalia recorrer ao licenciamento compulsório.

Lenacapavir ainda alcança pequena parcela da população

O relatório considera positiva a iniciativa da UNITAID, do Fundo Global de Combate à AIDS, Tuberculose e Malária e de outros parceiros para iniciar a implementação do lenacapavir com a meta de alcançar 3 milhões de pessoas até 2028.

Mesmo assim, o UNAIDS afirma que esse número representa apenas uma pequena parte da necessidade mundial.

A estimativa da agência é que 20 milhões de pessoas precisem ter acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para que seja possível reduzir de forma significativa as novas infecções.

Novos dados mostram que injeção semestral para prevenir o HIV mantém eficácia perto de 100%

Queda histórica do financiamento preocupa ONU

Um dos principais alertas do relatório diz respeito ao financiamento internacional.

Segundo o UNAIDS, a assistência oficial ao desenvolvimento entrou em colapso em 2025.

A ajuda internacional destinada ao desenvolvimento caiu 23%, a maior redução já registrada, afetando especialmente a área da saúde global.

Os recursos internacionais destinados especificamente ao HIV passaram de US$ 8,8 bilhões em 2024 para US$ 7,3 bilhões em 2025, uma queda de 18% e o menor nível em quase duas décadas.

A situação é especialmente preocupante para países africanos de baixa renda, muitos dos quais dependiam de recursos externos para financiar mais de 90% de suas ações contra a epidemia.

Segundo Winnie Byanyima, os governos precisarão ampliar seus investimentos internos.

"A era de depender da ajuda internacional acabou. Os países não podem esperar e não podem retroceder. O mundo deve corrigir urgentemente o sistema financeiro que já não é mais funcional e acelerar a reestruturação da dívida para que os governos possam investir no que mais importa: a saúde, a educação e o futuro de suas populações."

Cortes ameaçam serviços comunitários

O relatório mostra que os programas comunitários foram um dos setores mais afetados pelos cortes.

Na África Subsaariana, por exemplo, 80% dos recursos para prevenção vinham de financiamento internacional.

As organizações lideradas pela comunidade chegaram a receber até 25% da assistência internacional destinada ao HIV em 2024 e, em alguns países, alcançaram:

22% das pessoas vivendo com HIV;

até 60% das populações marginalizadas.

Sem novos investimentos, o UNAIDS afirma que esses serviços correm risco de colapso.

Em alguns países, o financiamento para preservativos foi reduzido em mais de 90%.

Um estudo realizado em 2026, envolvendo 47 países, identificou reduções expressivas nos serviços comunitários:

50% nos serviços de apoio à prevenção baseada em medicamentos e ao cuidado do HIV;

85% nos serviços destinados a homens gays e outros homens que fazem sexo com homens;

82% nos serviços voltados para profissionais do sexo;

72% nos serviços para sobreviventes de violência baseada em gênero.

Retrocessos em direitos humanos preocupam

Além da crise financeira, o relatório aponta um aumento da criminalização de populações vulneráveis.

Segundo o UNAIDS, pela primeira vez desde que começou a acompanhar essas tendências, houve crescimento no número de países que criminalizam grupos mais expostos ao HIV.

Em 2025, Burkina Faso e Níger passaram a criminalizar relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo. Em 2026, o Senegal ampliou as penalidades para essas relações.

De acordo com o relatório, atualmente:

168 países criminalizam o trabalho sexual;

152 países criminalizam a posse de pequenas quantidades de drogas;

66 países criminalizam relações consensuais entre pessoas do mesmo sexo;

14 países criminalizam pessoas trans.

Para Winnie Byanyima, essas medidas dificultam o controle da epidemia.

"Não é possível acabar com a AIDS enquanto se criminalizam as pessoas que vivem com HIV e aquelas mais vulneráveis à infecção. Quando as pessoas têm medo de prisão, violência ou discriminação, elas se afastam dos serviços de HIV. Os direitos humanos não são algo separado da resposta ao HIV; eles são essenciais para o seu sucesso."

Novas metas para 2030

Apesar dos desafios, o relatório destaca que, em junho de 2026, 149 Estados-Membros adotaram uma nova Declaração Política sobre HIV e AIDS, alinhada à Estratégia Global para a AIDS 2026-2031.

As metas estabelecidas para 2030 incluem:

colocar 40 milhões de pessoas em tratamento;

garantir acesso à prevenção baseada em antirretrovirais para 20 milhões de pessoas;

reduzir para menos de 10% a proporção de pessoas vivendo com HIV ou em risco que sofram estigma e discriminação;

reduzir para menos de 10% a proporção de mulheres, meninas e pessoas vivendo com HIV ou em risco expostas à desigualdade de gênero e violência;

reduzir para menos de 10% o número de países que mantenham legislações e políticas punitivas que limitem o acesso aos serviços de HIV.

Segundo o UNAIDS, o cumprimento integral dessas metas poderá evitar 3,2 milhões de novas infecções e 1,3 milhão de mortes relacionadas à AIDS até 2030.

Ao apresentar o relatório, Winnie Byanyima afirmou que o fim da epidemia ainda é possível, mas depende de decisões tomadas agora.

"Apesar dos enormes desafios, acabar com a AIDS ainda está ao nosso alcance. A escolha diante de nós é nítida: recuar e arriscar um ressurgimento da epidemia, ou repensar, reconstruir e avançar para acabar com a AIDS como ameaça à saúde pública até 2030."

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