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Relatórios recentes do UNFPA apontam forte aumento da violência contra mulheres e meninas na Faixa de Gaza
G1 — Brasil · 2026-10-06T11:01:44.000Z
Relatórios recentes do UNFPA apontam forte aumento da violência contra mulheres e meninas na Faixa de Gaza
Relatórios recentes do Fundo de População das Nações Unidas (UNFPA, na sigla em inglês) apontam um forte aumento da violência contra mulheres e meninas na Faixa de Gaza, incluindo casos de casamento precoce e forçado.
Um dos documentos, elaborado com dados reunidos por dez organizações, afirma que a crise prolongada em Gaza, devastada pela guerra, "criou condições que expõem mulheres e meninas a riscos cada vez maiores de violência de gênero".
O relatório também alerta para uma "forte escalada" dos casos de casamento precoce e forçado no segundo trimestre deste ano. A Organização das Nações Unidas (ONU) considera as duas práticas como formas de violência de gênero.
Outro relatório reúne depoimentos de 230 mulheres que vivem em campos superlotados para deslocados na Cidade de Gaza e em Khan Younis e descreve os episódios de violência que elas sofreram ou testemunharam.
Atenção: esta reportagem contém detalhes que podem ser perturbadores para alguns leitores.
Uma mulher que vive em uma escola transformada em abrigo em Gaza relata que vítimas de estupro muitas vezes são obrigadas a se casar com os próprios agressores para evitar a vergonha e o escândalo. "Quando um caso de estupro é descoberto em uma escola, no dia seguinte há casamento e comemoração no local", diz ela.
Outra mulher conta que, no ano passado, durante o período de fome, "um homem deu a filha de 14 anos em casamento em troca de dois sacos de farinha, para que ele e os [outros] filhos pudessem comer". Seis mulheres que vivem em diferentes campos de deslocados relataram situações semelhantes, algo que seria impensável antes do início do conflito entre Israel e o Hamas, em 2023.
Ainda é difícil chegar a números precisos, mas o UNFPA afirma que os casos registrados de casamento precoce e forçado aumentaram 123% no segundo trimestre deste ano em relação aos três primeiros meses. Nos casos de casamento precoce ou infantil, as meninas tinham entre 12 e 17 anos.
"As tendências são chocantes", afirma Nestor Owomuhangi, representante do UNFPA para a Palestina. Segundo ele, as condições extremas enfrentadas por Gaza nos últimos três anos — com dezenas de milhares de mortos, destruição em larga escala e sucessivos deslocamentos da população — romperam estruturas sociais básicas. "Tudo se deteriorou... não há sistema."
Embora os mercados de alimentos tenham reaberto, muitas pessoas não têm dinheiro para comprar os produtos disponíveis. A pobreza extrema e a fome continuam, e grande parte da população depende de doações. Quase todos os mais de 2 milhões de habitantes de Gaza foram expulsos de suas casas, e a maioria vive hoje em acampamentos de tendas em condições precárias ou em prédios danificados. Os serviços públicos entraram em colapso em grande parte, e os ataques aéreos israelenses continuaram apesar do cessar-fogo.
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Cerca de 1,2 milhão de palestinos em Gaza vivem em tendas ou abrigos improvisados
Antes da guerra, as meninas eram maioria e tinham desempenho melhor que o dos meninos em todos os níveis de ensino depois da escola primária em Gaza. Agora, com as escolas fechadas por longos períodos, muitas crianças deixaram de estudar. Os meninos sofrem pressão para conseguir trabalhos informais e ajudar no sustento da família; para as meninas, a falta de segurança se tornou uma preocupação ainda maior.
Em uma sociedade conservadora, a convivência com desconhecidos e a falta de privacidade nos abrigos têm sido acompanhadas por mais relatos de assédio e abuso sexual. Muitas famílias veem o casamento das filhas como uma forma de protegê-las e preservar sua reputação. O relatório do UNFPA, baseado em pesquisas realizadas no fim de 2025 e no início de 2026, mostra que meninas que ficaram órfãs durante a guerra estão especialmente vulneráveis.
Uma mulher entrevistada para o relatório em um campo de deslocados na Cidade de Gaza conta que foi ao casamento de duas meninas de sua família, de apenas 14 e 15 anos.
"Os tios as casaram muito novas. Sabe por quê? Porque o pai e a mãe delas foram martirizados, e os tios queriam se livrar da responsabilidade e das despesas", disse a mulher. "Por Deus, elas não entendem o que é casamento nem o que é a vida."
O Women's Affairs Center in Gaza, uma ONG palestina que trabalha em parceria com o UNFPA, e outros grupos de apoio registraram casos graves de meninas que foram casadas, sofreram abusos e, muitas vezes, engravidaram. Segundo essas organizações, adolescentes muito jovens correm risco bem maior de sofrer abortos espontâneos e de dar à luz bebês com baixo peso do que mulheres adultas.
"Estamos vendo um aumento enorme das gestações na adolescência por causa do casamento infantil", diz Owomuhangi, do UNFPA para a Palestina. "Estamos falando de uma criança cujo corpo ainda não está completamente desenvolvido para levar uma gestação adiante, que passa fome, vive em condições insalubres, não sabe cuidar de um bebê e nem sequer sabe cuidar de si mesma. As consequências dessa gravidez são sempre muito, muito graves."
A ONU e a maioria das organizações humanitárias consideram casamento precoce aquele que envolve meninas com menos de 18 anos. Antes mesmo da guerra, esse tipo de união já era mais comum entre palestinos na Faixa de Gaza, governada pelo Hamas, do que na Cisjordânia ocupada, embora estivesse em queda.
Em Gaza, a idade mínima para o casamento é 17 anos, mas a lei permite exceções com o consentimento dos pais e autorização de um juiz. Os tribunais podem aprovar casamentos a partir dos 14 anos e sete meses. Mas um especialista local em direito islâmico (sharia) disse à BBC que essas "salvaguardas legais" deixaram de funcionar quando os tribunais islâmicos — responsáveis por questões familiares entre muçulmanos — ficaram fechados durante boa parte da guerra.
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Anadolu via Getty Images
A BBC conversou com famílias em que jovens acabaram se casando depois de perder parentes na guerra. Zuhair, de 25 anos, conta que os tios o pressionaram a se casar com uma jovem de 16 anos de sua família depois que o pai dela — seu único responsável — morreu em um ataque aéreo israelense.
Ao ser questionado sobre por que aceitou o casamento, respondeu: "Um dos motivos foi que não havia ninguém para cuidar dela. Esse foi o primeiro ponto".
"Se não fosse a guerra, ela ainda estaria sob os cuidados do pai, levando uma vida de adolescente e frequentando a escola", acrescenta Zuhair. "Ela ainda pensa como uma criança. Sente falta da escola, da família, dos amigos. Sente falta até de ficar em casa."
Outro casal conta que permitiu que o filho de 17 anos se casasse com a prima, de 16, depois que o filho mais velho e o pai da menina morreram. A adolescente está grávida e não voltará à escola. "Ela precisa cuidar do filho", diz o sogro. "Continuar estudando não teria mais utilidade para ela."
Organizações humanitárias afirmam que melhorar as condições de assistência em Gaza reduziria significativamente os riscos enfrentados pelas mulheres
A violência sexual em Gaza continua sendo fortemente subnotificada, principalmente por medo de estigma e represálias. Avaliações de segurança da ONU mostram que mulheres e meninas ficam particularmente expostas à noite, o que leva muitas delas a evitar os banheiros dos campos.
O relatório mais recente do grupo de trabalho coordenado UNFPA afirma que os casos de violência sexual, incluindo estupro e agressão sexual, "atingiram um nível crítico em Gaza". Entre abril e junho de 2026, esse tipo de violência respondeu por 2,7% de todos os casos de violência de gênero registrados, ante 2,1% no trimestre anterior. Em números absolutos, o total de casos aumentou 61%.
O aumento também pode estar relacionado às campanhas de conscientização e à ampliação dos canais para denúncias confidenciais. Os dados mostram que a maioria das vítimas era formada por mulheres de 18 a 59 anos. Meninas adolescentes correspondiam a 8% dos casos, e homens adultos, a 5%.
Viúvas e mulheres cujos maridos estão presos ou desaparecidos também estão mais expostas a abuso e exploração sexual. Hoje, quase um em cada quatro domicílios é sustentado por uma mulher, proporção que dobrou em relação ao período anterior à guerra.
"Uma viúva procurava uma tenda quando um representante [do campo] disse: 'Eu te dou uma tenda, coloco você no nosso campo e você pode passar a noite comigo'", relata uma mulher da Cidade de Gaza entrevistada para o relatório do UNFPA.
Organizações humanitárias afirmam que melhorar as condições de assistência em Gaza reduziria de forma significativa os riscos enfrentados pelas mulheres. Elas pedem que Israel autorize a entrada de abrigos de melhor qualidade e de equipamentos para melhorar as latrinas, o saneamento e a iluminação. Israel restringe a entrada de itens que considera passíveis de uso tanto civil quanto militar.
Também há iniciativas para ampliar o acesso à educação e à saúde, além de planos de longo prazo para campanhas de combate à violência doméstica e ao casamento infantil. A vida de muitas pessoas em Gaza já mudou de forma irreversível, mas as mulheres dizem esperar por um futuro em que possam se sentir, ao menos, mais seguras.
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