ITATIBA1

Do vestiário aos negócios: o que levou o Cruzeiro a tirar Paulinho do Mirassol

Paulinho acerta com o Cruzeiro e deixa o Mirassol

ge — Futebol · 2026-10-06T13:00:00.000Z

Paulinho acerta com o Cruzeiro e deixa o Mirassol

Novo diretor de futebol do Cruzeiro, Paulinho teve uma rotina intensa em seus quase dois anos no Mirassol. O gestor deixou o clube do interior paulista pela porta da frente, após um trabalho marcado pela quarta posição no Brasileirão de 2025 e a classificação às oitavas de final da Libertadores de 2026. Ele nunca teve contrato formalizado, mantendo sempre um compromisso na "palavra".

Paulinho chegou ao Leão Caipira em dezembro de 2024 e foi uma das principais figuras, ao lado do vice-presidente Juninho Antunes e do técnico Rafael Guanaes, responsáveis pelo sucesso do time que disputou a primeira Série A de sua história.

+ 🔍 Adicione o ge nas suas fontes favoritas do Google

Antes, nos gramados, foi um dos grandes meio-campistas brasileiros do século XXI. Em uma carreira de 20 anos, foi ídolo do Corinthians, disputou duas Copas do Mundo, jogou no Barcelona e marcou 180 gols no futebol profissional.

Paulinho foi executivo de futebol do Mirassol

Paulinho não caiu de paraquedas na gestão da equipe amarela e verde. Ele começou a fazer cursos na área ainda como atleta, em 2022, quando teve uma lesão grave no Corinthians.

Em dezembro de 2024, poucos meses após pendurar as chuteiras, ele inaugurou sua versão fora das quatro linhas e foi contratado como coordenador técnico do Mirassol. Sete meses depois, foi promovido e virou executivo de futebol.

+ Tudo sobre o Mirassol

+ Mais notícias do Cruzeiro

O ex-volante trouxe ainda mais credibilidade à marca, principalmente nas negociações que fez para trazer reforços para o Leão. Uma das primeiras e mais importantes foi a contratação de Reinaldo, que foi o artilheiro do time em 2025 e melhor lateral-esquerdo do Brasileirão.

Paulinho fazia o elo entre atleta e diretoria, mas não se envolvia na definição dos valores. A função dele era apresentar o projeto Mirassol nos inícios de negociações. Em outras, chegou a descomplicar negócios difíceis, como as intensas tratativas para trazer Chico da Costa, do Cerro Porteño. Foram mais de 40 dias para contratar o atacante, que teve passagem pelo Cruzeiro em 2026.

O executivo de futebol também era muito ativo no vestiário do Leão. Ele participava de todas as preleções e frequentava o ambiente nos intervalos e após os jogos. Na maioria das vezes, ouvia atentamente as orientações passadas pelo técnico Rafael Guanaes aos jogadores.

No dia a dia, também procurava os atletas individualmente para orientações mais personalizadas. Ele acompanhava todas as sessões de treinos, incluindo a dos não relacionados. Todo início de semana, às segundas e terças, fazia as reuniões com a comissão para planejar treinos, logística e viagens. Também passava pela fisiologia, nutrição e ficava a par de tudo e ajudava a definir o planejamento.

Paulinho no CT do Mirassol

Pedro Zacchi/Ag. Paulistão

Antes de aceitar a proposta do Cruzeiro, Paulinho recusou diversas ofertas de outros times: Corinthians, Santos, Sport, além de clubes do Catar, Emirados Árabes, Paraguai e China.

Em entrevista ao ge, em dezembro de 2025, Paulinho descreveu seu próprio estilo como gestor.

— Sempre deixei claro: se alguma instituição estivesse procurando um executivo para ficar dentro de uma sala, esse não seria eu. Não consigo. Tenho que fazer gestão de pessoas e isso não envolve apenas atletas ou comissão técnica. Existem cozinheiro, faxineiro, uma série de pessoas que também têm sua parcela de contribuição.

– É o poder de convencimento que o diretor executivo tem que ter. Não é só pegar o telefone, ligar para o atleta, falar "isso, isso e isso" e esperar que ele venha no outro dia. É muito mais que isso. Por isso, digo que é muito mais do que financeiro: é projeto. Você tem que apresentar o projeto ao atleta, mostrar as perspectivas do clube, onde queremos chegar, o que vamos enfrentar. O jogador tem que vir sabendo o que vai encontrar. O poder de convencimento varia de pessoa para pessoa. Cada um precisa fazer suas manobras, mas não é fácil – disse Paulinho.

A primeira função no Mirassol

Paulinho chegou a viver um pequeno impasse no começo da carreira fora dos gramados. Inicialmente, ele chegou ao Mirassol como coordenador técnico que era uma função mais de beira de campo, mais próximo do treinador Rafael Guanaes e do elenco. Ele exerceu o cargo de dezembro de 2024 a junho de 2025.

— Como coordenador, eu estava praticamente como auxiliar. É difícil você ficar na beira do campo, de braço cruzado, assistindo, sendo que até pouco tempo você estava dentro de campo. Só que depois fui percebendo que, para exercer minha função como executivo, que era o que eu queria, eu tinha que estar fora do campo, senão não conseguiria enxergar. Em muitos momentos estava ajudando a comissão técnica, dando conselhos nos trabalhos. Mas quando havia dois ou três trabalhos ao mesmo tempo, não dava para enxergar tudo. O coordenador técnico precisava estar fora, para ter visão.

— Quando começaram a surgir convites para trabalhar em outras instituições como executivo, sentei e pensei: 'Olha, acho que é o momento de mudar. Agora preciso olhar o todo, o 360, e estar ali dentro do campo não vai permitir isso'. E é o que eu quero. No Mirassol tive a oportunidade de começar como coordenador e também como executivo. O processo foi muito saudável para que, no dia a dia, a função pudesse ser exercida com mais clareza — explicou em entrevista em dezembro de 2025.

Paulinho chegou a ser auxiliar técnico no Mirassol

Pedro Zacchi/Ag. Paulistão

O momento que mais mexeu com a cabeça de Paulinho foi na última rodada do Paulistão de 2025 contra o Palmeiras, e nas quartas de final da mesma competição, diante do Corinthians, ocasiões que ele ficou como auxiliar técnico do Mirassol.

O Leão Caipira estava sem treinador na época, após a demissão de Eduardo Barroca, e foi comandado por Ivan Baitello. Com isso, o coordenador Paulinho virou auxiliar.

— O momento mais difícil para mim foi quando fiquei de auxiliar técnico contra Palmeiras e Corinthians. Ali minha cabeça ficou bagunçada. Porque eu não sabia se queria ficar no campo ou ir para gestão. Confesso que gostei, mas prefiro a gestão.

— É que, ali, você está num jogo contra o Palmeiras, depois contra o Corinthians, no mata-mata. A adrenalina é outra, você está dentro do campo. Então, te confesso: fiquei um pouco confuso, no sentido de pensar: 'Será que fico no campo?'. Mas realmente não era o que eu queria — falou Paulinho.

Paulinho executivo: a segunda versão

Em junho de 2025, no meio do Brasileirão, Paulinho foi promovido a executivo de futebol do Mirassol. Além do departamento profissional, ele também passou a ter responsabilidades no time feminino e nas categorias de base do clube.

O dirigente passou a ficar ainda mais próximo de Juninho Antunes, que é o principal gestor do Leão há três décadas.

Paulinho e Juninho Antunes trabalharam juntos como dirigentes do Mirassol

Em entrevista ao ge, Paulinho falou sobre sua chegada ao Mirassol e a mudança de função.

— Pelo processo que o Mirassol enfrentaria em 2025, o clube entendeu que eu seria um grande reforço. E sempre deixei claro: eu nunca vou para algum lugar para ser mais um. Porque, se fosse para ser mais um, ficava dentro da minha casa. Quando falo isso, digo: 'Estou aqui porque amo o futebol, de verdade, com paixão, e gosto de fazer o que eu faço'. Só que você tem que estar preparado para exercer. O futebol é coisa séria, de pessoas sérias. Se você está no futebol e não tem comprometimento, profissionalismo, responsabilidade, não entra. Você vai ser só mais um.

— Uma das coisas que sempre coloquei é que não sou um diretor-executivo de fazer reuniões. Mas, individualmente, eu os chamo e digo: 'A única coisa que vocês não podem deixar de fazer é ter coragem para jogar futebol e performar'. O resultado vem do controle das nossas ações, e nossas ações são durante a semana. Depende de como trabalhamos na semana para chegar no jogo e performar.

— A gestão é você quem decide como será. Você vai saber se será boa ou ruim. Depende das suas atitudes, do que você faz e representa. Faço a ponte entre todos os departamentos, mas procuro estar próximo dessas pessoas, porque muitas vezes elas não aparecem quando as coisas acontecem. Elas são as mais importantes. Existe a parte tática, do treino, do campo, da academia, do departamento médico, mas também há aqueles que fazem a comida, que limpam os quartos. Às vezes não aparecem, mas são fundamentais no processo — emendou.

Paulinho no CT do Mirassol

Na mesma entrevista, em dezembro de 2025, Paulinho também revelou os sonhos que tem no universo da gestão.

— Tem alguns (sonhos), né? Mas deixo muito nas mãos de Deus. Já deixei claro que ainda tenho o sonho, nessa função, de disputar outra Copa do Mundo. Também tenho a projeção de, um dia, trabalhar fora do país em uma liga de alto nível. Você tem que ter suas metas e objetivos. Quando cheguei ao Corinthians, no primeiro dia falei que queria jogar uma Copa do Mundo. Disseram que eu era louco. Mas não: é o que você quer para a sua vida. E, quando depende de você, fica tudo mais fácil. É assim que quero, como dirigente, alcançar os grandes objetivos que tenho. Mas o primeiro deles é cumprir minha meta no Mirassol — encerrou Paulinho.

Leia no Itatiba1 →