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Governo de Rondônia e mais 81 empregadores  entram para Lista Suja da escravidão

O ESTADO de Rondônia e a empreiteira Terra Forte, que mantém contratos milionários de obras públicas com o governo estadual, estão entre os 82 novos nomes incluídos na Lista Suja do trabalho escravo , atualizada nesta terça-feira (6) pelo…

Repórter Brasil · 2026-10-06T13:52:28.000Z

O ESTADO de Rondônia e a empreiteira Terra Forte, que mantém contratos milionários de obras públicas com o governo estadual, estão entre os 82 novos nomes incluídos na Lista Suja do trabalho escravo , atualizada nesta terça-feira (6) pelo Ministério do Trabalho e Emprego.

A relação torna públicos os dados de pessoas físicas e jurídicas responsabilizadas por trabalho escravo, após exercerem o direito de defesa na esfera administrativa em duas instâncias.

Uma vez incluídos, os empregadores permanecem na lista por dois anos, mas podem ter seus nomes retirados antes desse prazo , caso assinem um acordo de regularização com o MTE e passem a integrar uma lista de observação. Com a atualização, a lista chega a 508 empregadores. Confira aqui a relação .

Criada em novembro de 2003, a Lista Suja é atualizada semestralmente pelo governo federal. O cadastro não gera punições aos empregadores, mas é usado por empresas e setor financeiro para gerenciamento de riscos — na aprovação de financiamentos, por exemplo. A relação é considerada pela ONU (Organização das Nações Unidas) um dos mais relevantes instrumentos de combate ao trabalho escravo no mundo.

Os setores com mais novos empregadores flagrados com trabalho escravo são o da agricultura (17), extração de madeira e carvão (13), pecuária bovina (11), construção (7), serviços domésticos (7) e mineração (5).

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O destaque na lista é a inclusão do Estado de Rondônia, em razão de uma obra na qual dois trabalhadores foram resgatados no ano passado em condições análogas à escravidão. O caso chama atenção porque a gestão do governador Marcos Rocha (União Brasil) desarticulou a comissão de combate à escravidão no estado.

Em setembro de 2025, uma força-tarefa formada por auditores-fiscais do Ministério do Trabalho e Emprego, procuradores do Ministério Público do Trabalho e do Ministério Público Federal e agentes da Polícia Federal resgatou dois trabalhadores venezuelanos em condições análogas à escravidão durante a reforma de uma escola indígena na Terra Indígena Rio Guaporé, em Guajará-Mirim (RO). A obra era custeada com recursos públicos.

A reforma da Escola Estadual Indígena de Ensino Fundamental 5 de Julho fazia parte de um contrato de R$ 21 milhões firmado pela Secretaria de Estado da Educação com a empresa Terra Forte. Segundo o MPT, R$ 504 mil desse valor seriam destinados à escola.

A fiscalização encontrou cinco trabalhadores no canteiro: três indígenas da comunidade, contratados de forma precária e sem equipamentos de proteção, e dois venezuelanos que trabalhavam como serralheiros. No caso dos imigrantes, as condições encontradas configuravam trabalho análogo à escravidão, segundo a procuradora do Trabalho Camilla Holanda Mendes da Rocha.

Os dois venezuelanos estavam alojados em condições precárias, com salários atrasados e sem alimentação garantida. Não havia banheiro adequado, e eles dormiam em colchões colocados sobre mesas escolares. O acesso difícil à aldeia também contribuiu para impedir que deixassem o local nos dias de descanso, segundo a fiscalização. Os agentes só chegaram ao canteiro de helicóptero, após uma denúncia feita por alunos e professores da Universidade Federal de Rondônia.

A Repórter Brasil procurou o governo de Rondônia e a Terra Forte e aguarda um posicionamento.

Ex-fornecedores da maior cooperativa de café entram para Lista Suja

Cinco produtores de café ligados à Cooxupé (Cooperativa Regional dos Cafeicultores de Guaxupé) tiveram seus nomes incluídos na Lista Suja, após serem flagrados com trabalhadores em condições análogas à escravidão durante a colheita de 2025.

Uma criança de 12 anos, um adolescente de 16 e um idoso de 72 estavam entre as 81 pessoas resgatadas em propriedades de produtores ligados à cooperativa, a maior de café do país. As fiscalizações ocorreram entre abril e agosto de 2025, durante a colheita, em fazendas de São Paulo e Minas Gerais.

Nos cinco casos, auditores fiscais do MTE identificaram entre os trabalhadores a submissão a condições degradantes de trabalho e moradia e restrição de locomoção em razão de dívidas ilegais impostas pelos empregadores.

Passaram a integrar o cadastro Luiz Carlos de Avelar, André Pereira Alves, Ornelas Rodrigues Borba, Nilceu Patrocínio Muniz Junior e Wagner Luiz de Lima. Eles foram bloqueados pela Cooxupé após os casos virem à tona.

Das 6,6 milhões de sacas de café recebidas pela Cooxupé em 2024, 80% foram destinadas a clientes no exterior (Foto: Lela Beltrão/Repórter Brasil)

Na época do flagrante, a Cooxupé informou à Repórter Brasil que o bloqueio de produtores ocorre sempre que a cooperativa “toma conhecimento oficial de situações que envolvam violações trabalhistas por parte de cooperados”.

A organização ressaltou também que “pauta sua atuação no respeito às pessoas, na dignidade do trabalho e na responsabilidade social” e que possui um programa de orientação sobre direitos humanos.

Já André Pereira Alves disse na época, por meio de seu advogado, que “entende que a situação vivenciada pelos trabalhadores não se enquadra em condições análogas à escravidão” porque “os trabalhadores recebiam pelo trabalho valores muito acima do que a maior parte dos brasileiros recebem” e que “possuíam carro à disposição para locomoção”. Alves também pontuou que, mesmo sem concordar com a caracterização de trabalho escravo, cumpriu todas as exigências estabelecidas pela fiscalização.

Procurado pela Repórter Brasil na época, Ornelas Borba não respondeu aos questionamentos enviados pela reportagem.

A Repórter Brasil não conseguiu localizar o contato de Luiz Carlos Avelar, Nilceu Muniz Junior e Wagner de Lima.

O que é a Lista Suja?

A Lista Suja é o cadastro oficial do governo federal que reúne os nomes de empregadores flagrados mantendo pessoas em condições análogas à escravidão. O cadastro é coordenado pelo Ministério do Trabalho e Emprego e funciona como uma forma de dar transparência à sociedade sobre quem já foi responsabilizado por esse tipo de violação. A cada atualização, empresas e pessoas físicas que tiveram decisões administrativas concluídas aparecem na relação.

Para que um nome entre na lista, é preciso que fiscais do trabalho tenham realizado uma operação, lavrado autos de infração e concluído o processo administrativo, assegurando o direito de defesa do empregador. Só depois desse trâmite é que o caso se torna público. O nome fica na lista por, no mínimo, dois anos, período em que a empresa ou a pessoa precisa cumprir todas as obrigações determinadas pelo governo, como pagamento de multas e indenizações aos trabalhadores resgatados.

A publicação da lista tem efeitos diretos no mercado. Bancos públicos e privados, além de grandes compradores de commodities, usam o cadastro como critério para restringir crédito e romper contratos com empregadores que aparecem na relação. Assim, além de informar a sociedade sobre casos de trabalho escravo, a lista também funciona como um instrumento de pressão econômica para que empresas e produtores adotem melhores práticas e respeitem a legislação trabalhista.

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