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CE: Pelo menos 33 dos 46 deputados estaduais eleitos são parentes de outros políticos
G1 — Brasil · 2026-10-07T07:00:01.000Z
CE: Pelo menos 33 dos 46 deputados estaduais eleitos são parentes de outros políticos
No último domingo (4), os cearenses elegeram 46 deputados estaduais que vão compor a nova legislatura da Assembleia Legislativa do Ceará (Alece), a partir de 1º de fevereiro de 2027. Conforme levantamento do g1, pelo menos 33 dos 46 deputados possuem parentes que já foram ou ainda são políticos eleitos, entre filhos, irmãos, pais, maridos e esposas.
Das 46 vagas, 20 serão ocupadas por deputados reeleitos. Os outros 26 são novatos ou nomes que retornam à Casa. A maior bancada será do PSB, com 13 parlamentares. Em seguida aparecem PT, com 11 cadeiras; e PL, com 6 eleitos.
No levantamento do g1, 33 dos deputados eleitos possuem ou já possuíram parentes na política. Parte dos deputados da lista lançou um parente ou foi lançado na política por um familiar que já tinha um cargo público obtido em outra eleição. A lista foi feita com base em informações públicas encontradas sobre os deputados eleitos, checadas pela reportagem. Confira a lista completa abaixo.
Entre os deputados com parentes políticos, há casos de casais eleitos ao mesmo tempo, como a deputada estadual Bella Carmelo (PL) - a mulher mais votada entre as candidatas a deputada estadual - cujo esposo, Carmello Neto (PL), foi eleito deputado federal.
A Assembleia Legislativa do CE é formada por 46 deputados
Pedro Albuquerque / Alece
O presidente da Assembleia, o deputado estadual Romeu Aldigueri (PSB), lançou a esposa, Tainah Marinho (PSB), para deputada federal. Ela foi eleita como a mulher mais votada da história do Ceará para a Câmara dos Deputados.
Há também a presença de longas linhagens políticas. O ex-vice-governador do Ceará, Domingos Filho (PSD), retorna à Assembleia após anos sem exercer cargo no Legislativo. Ele é pai da vice-governadora eleita, Gabriella Aguiar (PSD); pai do deputado federal reeleito, Domingos Neto (PSD); e marido da prefeita de Tauá, Patrícia Aguiar.
Outro exemplo é o deputado estadual Zezinho Albuquerque (PP), eleito para seu 9º mandato na Assembleia. Ele é pai do deputado federal reeleito AJ Albuquerque. Eles são de Massapê, município na região norte do Ceará no qual vários familiares de Zezinho - incluindo pai, irmão, o filho AJ e a filha Aline Albuquerque - foram prefeitos.
Há diversos casos de prefeitos e ex-prefeitos que lançaram suas esposas a deputadas estaduais, e elas foram eleitas. Jô Farias (PT), Lizianny Medeiros (PT), Fabiola Carneiro (PT) e Georgia do Marcelão (Solidariedade) são exemplos.
Assembleia Legislativa do Ceará Alece
Em alguns casos, a ligação política é de irmãos. Gadyel (PT), eleito para o primeiro mandato como deputado estadual, vai substituir o irmão, Alysson Aguiar (PCdoB), que vai concluir agora seu primeiro mandato e não concorreu à reeleição. Elizeu Monteiro (PSB) estreia na Assembleia, mas seu irmão Robério Monteiro (PSB) já está no terceiro mandato na Câmara dos Deputados.
Também foi encontrado mais de um caso de pais políticos que lançaram seus filhos para uma vaga na Assembleia. É o caso de Ilo Neto (PT), filho do ex-deputado Agenor Neto; e de Manu Pimenta (PSB), filha do prefeito de Quixeramobim, Cirilo Pimenta (PSB).
Da nova legislatura, apenas 13 deputados não tinham outros parentes com cargos eletivos na atualidade ou no passado*. São eles:
Tancredo dos Santos (PL) - eleito pela 1ª vez para a Assembleia
Gabriel Biologia (PSOL) - eleito pela 1ª vez para a Assembleia
Abreu Júnior (PL) - eleito pela 1ª vez para a Assembleia
Jade Romero (PT) - eleita pela 1ª vez para a Assembleia
Catanho (PT) - eleito pela 1ª vez para a Assembleia
De Assis Diniz (PT) - eleito pela 1ª vez para a Assembleia
Franzé Carneiro (PT) - eleito pela 1ª vez para a Assembleia
Missias Dias (PT) - reeleito
Moisés Braz (PT) - reeleito
David Durand (Republicanos) - reeleito
Leo Suricate (PSOL) - eleito pela 1ª vez para a Assembleia
Gardel Rolim (Republicanos) - eleito pela 1ª vez para a Assembleia
Dra Mayra Pinheiro (PL) - eleita pela 1ª vez para a Assembleia
*A lista será atualizada se houver um novo parentesco constatado.
Confira a lista de deputados estaduais eleitos com parentes na política, por ordem alfabética:
Esposas, filhos, pais, irmãos: pelo menos 33 deputados estaduais eleitos são parentes de outros políticos, no CE
Eleitores cearenses escolheram 46 deputados estaduais para a legislatura de 2027 a 2030.
Negócio de família
O professor e historiador Raimundo Alves de Araújo, que estudou o fenômeno das famílias de longa tradição política na região norte e no sul do Ceará, destaca que parte do poder deles tem origem na posse de terras e na prestação de "favores", por parte de membros da família que eram médicos e advogados, à população mais pobre, que criava uma vinculação com a família.
Ele destaca que a situação não é semelhante ao que se chamava de coronelismo ou voto de cabresto, mas algo mais próximo ao clientelismo, que envolve uma troca de favores por apoio político.
"Isso é um fenômeno do nosso tempo, que está vivo hoje. E, se a gente for ver, a maioria, todos esses candidatos têm curso superior, são pessoas com doutorado, pós-doutorado, com mestrado. [...] São empresários de setores diversos, mas principalmente ligados a grandes fazendas, ligados mesmo a grandes proprietários de terra, comerciantes, setor de transporte, de ônibus e etc. Então, não é correto chamar de coronel esse sujeito. Eles não são homens do campo, não são mais", avalia.
Conforme Raimundo Alves, em muitos casos é comum que famílias com poder político em municípios pequenos acabem formando alianças com outras famílias de municípios próximos, de modo a projetar poder político para o estado como um todo por meio da eleição de deputados estaduais ou federais.
"Quando o município é pequeno, ele não consegue eleger sozinho um deputado, seja estadual ou federal. Então, eles formam consórcios de municípios. Às vezes, um município de médio porte, um Sobral, ele é um centro gravitacional, onde gravitam os municípios vizinhos, como Uruoca, Massapê, Varjota, Cariré, Forquilha. Então, essas oligarquias fazem alianças entre si e, com isso, elas conseguem o número necessário de votos para ascender até o governo do estado", aponta.
O historiador destaca que o fenômeno não é exclusivo do Nordeste e pode ser mapeado por todo o país. "Então, isso aí é típico da nossa sociedade brasileira como um todo. Agora ficou sobre nós, nordestinos, a tese de sermos atrasados, a coisa rural, do coronel e tudo mais. Mas, se você for ver, esse fenômeno em si é presente nas capitais", aponta.
Para o pesquisador, a procura por colocar parentes em vários ramos da política, em alguns, tem relação inclusive com questões econômicas, sendo o meio político uma espécie de negócio de família.
"As famílias tradicionais dominam os pequenos municípios porque, para essas famílias tradicionais, controlar a política é um meio de vida, é a profissão, é o ofício de algumas dessas famílias", resume. "Eles são camaleônicos, essas famílias, e assim eles estão sobrevivendo. E eles não têm uma ideologia definida", completa.