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Células de defesa do embrião seguem a 'correnteza' dos tecidos para chegar a todo o corpo; veja VÍDEO

O trajeto das primeiras células de defesa

G1 — Brasil · 2026-10-07T07:00:01.000Z

O trajeto das primeiras células de defesa

Quando um embrião está começando a se formar, ele ainda não tem sangue circulando nem coração batendo como o de um animal pronto. Mesmo assim, já precisa de defesas.

As primeiras células imunes, que mais tarde vão eliminar células mortas, combater micróbios e ajudar na formação de órgãos, nascem num ponto do corpo e precisam chegar a todos os outros.

Um estudo do University College London, no Reino Unido, publicado na revista Nature Cell Biology, mostra como elas fazem isso: sentem o tecido ao redor se mexendo e passam a andar na mesma direção.

Em entrevista ao g1, Hoang Anh Le, pesquisador de pós-doutorado do laboratório do professor Roberto Mayor e primeiro autor do artigo, afirma que o achado amplia a forma de entender como essas células chegam ao destino. Além de seguirem sinais químicos, como se acompanhassem um cheiro, elas também leem o movimento das células por onde passam. Para o pesquisador, isso pode ter relevância na cicatrização de feridas, hipótese que ainda precisa ser testada.

A cena que os cientistas filmaram

Os pesquisadores trabalharam com a rã Xenopus laevis, uma espécie africana muito usada em laboratório porque seus embriões são grandes e transparentes o bastante para serem observados ao vivo.

Eles retiraram do embrião um pedacinho de tecido, da região perto da cabeça onde nascem as células do sangue e da defesa do corpo, e o deixaram numa placa com nutrientes, debaixo de um microscópio. Câmeras tiraram fotos a cada poucos minutos, e o resultado foi um vídeo acelerado.

🔵 No vídeo, as células da camada mais externa do embrião, a que dará origem à pele, aparecem em azul.

🔴 As células de defesa estão em vermelho.

Com o passar das horas, a camada azul se espalha pela placa, como uma mancha de tinta que se abre na água.

As células vermelhas, que no início ficam amontoadas no centro, vão saindo uma a uma e se afastam em todas as direções, como se avançassem sobre o território azul.

À primeira vista, dá a impressão de que elas estão apenas sendo levadas pela mancha que cresce, como folhas arrastadas pela correnteza de um rio. A equipe quis descobrir se era isso mesmo.

Em vermelho, células de defesa se deslocam pelo tecido de um embrião de rã, mostrado em azul

Hoang Anh Le/UCL

Soltas, células de defesa andam sem rumo

Os pesquisadores começaram tirando as células vermelhas do meio da camada azul e deixando-as sozinhas na placa. Longe das vizinhas, elas se arredondaram, como gotas, e passaram a dar pulinhos de um lado para o outro, sem seguir um caminho.

Quando estavam no meio das outras células, ficaram alongadas, com um formato mais esticado, e caminharam para fora em linhas muito mais retas.

Os cientistas então pensaram que talvez as células vizinhas apenas apertassem as vermelhas, e que esse aperto bastasse para organizá-las. Para testar, pressionaram as células soltas com uma lâmina de vidro bem fina. Elas realmente ficaram achatadas e mais rápidas, mas continuaram a andar de forma desorganizada.

O aperto, portanto, não explicava a diferença.

Será que existe um cheiro a seguir?

A explicação mais comum para a orientação de células imunes é a química. Elas costumam seguir substâncias liberadas por feridas ou por micróbios, de um jeito parecido com o de um cachorro seguindo um cheiro.

Segundo Anh Le, boa parte do que a ciência sabe sobre essas células vem justamente da relação delas com as substâncias químicas, sejam as liberadas por outras células, sejam as presentes nas fibras que sustentam os tecidos.

Mas, ao caminhar até uma ferida, a célula de defesa não lida apenas com o que flutua ao redor. Ela também precisa se espremer entre as células do tecido, e esse contato físico, diz o pesquisador, costuma ser deixado de lado.

A equipe checou a hipótese química de várias maneiras. Bloqueou as substâncias que mais atraem esse tipo de célula, impediu que as células detectassem sinais químicos de modo geral e até fez o líquido da placa correr devagar para levar embora qualquer substância que estivesse sendo liberada. Em nenhum desses testes as células perderam a direção de forma importante.

O que mudou o comportamento foi mexer no movimento da camada azul. Quando os cientistas dificultaram a expansão dessa camada, as células de defesa passaram a andar de modo mais confuso.

Ao rever as imagens, eles notaram que a direção das células vermelhas acompanhava a direção do tecido ao lado, com um atraso de cerca de cinco minutos. A velocidade delas, porém, não dependia do tecido.

O fluxo apontava o caminho, mas não fazia a célula andar mais depressa ou mais devagar.

Um empurrão feito com luz

Para ter certeza de que o tecido era mesmo o responsável, a equipe criou uma forma de movê-lo na hora que quisesse. Os pesquisadores colocaram nas células da camada azul uma proteína que reage à luz: quando recebe um feixe luminoso, ela faz a célula se contrair, como um punho que se fecha. Com isso, o tecido em volta escorre na direção da região iluminada, num ritmo parecido com o do crescimento natural da pele.

Os cientistas então iluminaram um ponto ao lado de uma célula de defesa que caminhava. Ela reagiu: o pequeno prolongamento que a célula estica para puxar o corpo para a frente, uma espécie de braço, girou e passou a apontar para o local da luz.

Quando o estímulo era dado atrás da célula, às vezes bastava para ela dar meia-volta.

A equipe também reparou que novos braços surgiam no que antes era a traseira da célula.

Isso indica que ela não foi apenas arrastada, mas percebeu o movimento e reorganizou o próprio corpo para segui-lo. O mesmo efeito apareceu em embriões vivos.

Embrião impedido de crescer

Os pesquisadores fizeram ainda um teste com o embrião inteiro. Nessa fase, o corpo da rã se alonga rapidamente, e a pele escorre junto com ele.

Quando o alongamento foi bloqueado por alteração genética, os embriões ficaram mais curtos e tinham menos células de defesa espalhadas. Quanto menor o embrião, menos células haviam chegado longe.

Num segundo teste, os cientistas colocaram embriões em moldes que os impediam de crescer. No início, as células de defesa saíram do ponto de origem normalmente.

Quando o corpo encostou na parede do molde e o tecido parou de se mover, a camada externa também parou. Pouco depois, as células de defesa recolheram seus braços e ficaram imóveis.

Ao serem retirados do molde, os embriões voltaram a crescer, e as células retomaram a caminhada, embora sem alcançar o mesmo resultado dos embriões que nunca foram contidos.

Os autores ressaltam que, no estudo, as células de defesa conseguem andar sozinhas, sem precisar do movimento do tecido. O fluxo funciona como uma ajuda extra, que torna a dispersão das células pelo corpo mais eficiente.

Eles também não descartam que sinais químicos atuem no embrião inteiro, já que parte dos testes foi feita em pedaços de tecido cultivados em laboratório.

O que a célula sente, afinal

Ainda não se sabe como a célula de defesa percebe que o vizinho se moveu. Anh Le explica que a equipe trabalha com duas possibilidades.

Uma delas é um simples atrito entre as superfícies das células, como o de duas mãos que se esfregam. O grupo já mostrou em laboratório que esse tipo de força altera o esqueleto interno da célula, e isso poderia levar ao surgimento dos braços que ela usa para avançar.

A outra é que existam moléculas específicas na superfície das células de defesa e das vizinhas, capazes de captar a força de puxão do tecido. Segundo o pesquisador, a equipe ainda não identificou quais seriam essas moléculas, mas testa alguns candidatos.

Ele também rejeita a ideia de que um único mecanismo explique tudo. Para Anh Le, os sinais mecânicos e os químicos agem juntos, e a célula está exposta a todos ao mesmo tempo. Ele cita como exemplo o que ocorre nos gânglios linfáticos, as popularmente chamadas ínguas, onde células de defesa se orientam por substâncias presas a uma superfície, sentindo ao mesmo tempo o sinal químico e o quanto essa superfície é mole ou dura.

Em embriões, o pesquisador vê como possível que o crescimento do tecido também redistribua essas substâncias, como adesivos colados numa bexiga que se enche e vão se afastando uns dos outros. Isso poderia mudar o comportamento das células que dependem desses sinais para se mover.

Fenômeno pode ser comum

Segundo o pesquisador, o mecanismo pode ser mais geral do que parece e não se limitar às células de defesa e à pele do embrião. Ele pode valer para qualquer célula que se desloque dentro de uma camada de outras células.

Há indícios disso em outros contextos. Durante o desenvolvimento de camundongos, os melanócitos, que dão cor à pele, caminham das costas para a barriga e descem pelos membros, e há evidências de que eles percebem o movimento das células vizinhas.

No olho do peixe-zebra, um tipo de célula nervosa também depende do deslocamento do tecido em volta, e, como esses mecanismos costumam ser muito semelhantes entre espécies, o pesquisador acredita que o mesmo possa ocorrer em humanos. Isso, no entanto, ainda não foi demonstrado.

O que vem a seguir

Se tivesse de escolher uma aplicação para o futuro, Anh Le apostaria na cicatrização de feridas. Um corte na pele muda por completo as propriedades mecânicas das células ao redor, e essas propriedades mudam de novo quando o tecido tenta se fechar.

Existe uma enorme quantidade de substâncias químicas envolvidas, mas o sinal mecânico também é relevante. A pergunta, segundo ele, é se seria possível atrair mais células de defesa para o local influenciando fisicamente as células vizinhas.

Um dos experimentos que ele gostaria de fazer é provocar um ferimento na pele, deixar um líquido escorrer por cima para levar embora as substâncias químicas soltas e ver como as células de defesa reagem apenas ao sinal mecânico.

O pesquisador também vê possíveis usos na engenharia de tecidos, para construir tecidos com a distribuição e o formato corretos de células. Ele reconhece que essas ideias ainda são especulação, mas lembra que pensar de forma criativa faz parte do trabalho científico e costuma levar a descobertas.

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