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'Quanto dura um amor de verão?’: ânimo do mercado com Flávio pode ter prazo de validade, avaliam economistas

Ibovespa bate recorde e dólar tem maior queda desde 2018 após 1º turno

G1 — Economia · 2026-10-07T08:00:01.000Z

Ibovespa bate recorde e dólar tem maior queda desde 2018 após 1º turno

O resultado do primeiro turno das eleições colocou o senador Flávio Bolsonaro (PL) à frente do presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) na disputa pela presidência da República. No Congresso, o PL também foi o grande vencedor do pleito.

Os reflexos apareceram imediatamente no mercado financeiro: o Ibovespa, principal índice da bolsa brasileira, disparou mais de 7%, superou os 206 mil pontos e atingiu recorde na primeira sessão após a apuração das urnas. O dólar, por sua vez, recuou mais de 4%, para R$ 5.

Flávio encerrou o primeiro turno com 47,03% dos votos, contra os 45,16% de Lula. A distância entre os dois foi de cerca de 2,2 milhões de votos, em um resultado que surpreendeu quem acompanhava as pesquisas de intenção de voto.

Os números reforçaram a seguinte leitura de grande parte do mercado financeiro: a de que aumentaram as chances de eleição de um governo que teria, em tese, maior compromisso com o equilíbrio das contas públicas.

🔎 Na prática, essa expectativa é capaz de reduzir as taxas de juros projetadas para os próximos anos e, dessa forma, aumentar a procura por investimentos no Brasil, o que ajuda a explicar os reflexos vistos nos mercados.

Muitos economistas, porém, veem com cautela a perspectiva fiscal de um eventual governo Flávio Bolsonaro. Isso porque, até o momento, a campanha do candidato não apresentou medidas concretas nessa direção. Na prática, uma frustração nesse sentido pode azedar o humor do mercado.

'Quanto dura um amor de verão?'

A avaliação de especialistas ouvidos pelo g1, incluindo consultores, ex-ministro da Fazenda e ex-diretor do Banco Central (BC), é a de que o ânimo em relação a Flávio pode mudar rapidamente se, uma vez eleito, ele não apresentar, de forma imediata, medidas factíveis para equilibrar as contas públicas.

"Quanto dura um amor de verão?", questiona André Galhardo, economista-chefe da Análise Econômica, em referência à reação inicial dos mercados. "Se eleito, Flávio precisa apresentar propostas concretas, que sejam politicamente viáveis e que não coloquem em risco a saúde da economia brasileira."

Do contrário, o cenário pode se deteriorar. "Tem que haver, de fato, disposição de Flávio para seguir nessa direção. Depois, entender as dificuldades de levar isso adiante, já que qualquer tipo de reforma passa por ajustes em despesas constitucionais", acrescenta.

Alexandre Schwartsman, ex-diretor do Banco Central (BC), segue a mesma linha e afirma ser cético em relação à capacidade de um eventual governo Flávio Bolsonaro de entregar o ajuste fiscal esperado pelo mercado.

"O histórico de Flávio é inexistente sobre esse tema. E é uma agenda difícil, impopular, que exige um consumo grande de capital político", afirma. "Não sei se existe apetite para isso."

O economista destaca que o ajuste das contas públicas passa por temas politicamente sensíveis, como mudanças na Previdência, no salário mínimo e em programas sociais. Segundo ele, ainda não há sinais claros de disposição para enfrentar essa agenda.

A maior bancada do PL no Congresso, porém, pode ajudar na articulação de eventuais reformas.

Sem tempo a perder

Schwartsman afirma que o próximo governo terá pouco tempo para transformar expectativas em sinalizações concretas. "Não dá para esperar a posse. É preciso mostrar a que veio", diz.

"Uma série de definições já precisa ser feita no período entre a eleição e a posse. Não precisa estar tudo ultra detalhado, mas é preciso indicar o rumo", acrescenta.

Maílson da Nóbrega segue a mesma linha. Para o ex-ministro da Fazenda, o próximo presidente, seja ele quem for, terá pouco tempo para mostrar como pretende estabilizar as contas públicas e evitar uma piora das expectativas econômicas.

"As medidas para realizar as reformas têm que ser explicitadas rapidamente depois da vitória. Seja sinalizando quais são os pontos a atacar, seja apresentando detalhes das medidas", afirma. "No máximo, isso teria que ser feito no primeiro dia de governo."

Para o ex-ministro da Fazenda, se isso não acontecer, representará um "anticlímax".

"Produzirá rapidamente um colapso de expectativas e uma deterioração da situação macroeconômica: dólar subindo, juros futuros subindo, crédito sendo contido pelos bancos", alerta.

O desafio das contas públicas

Antes do primeiro turno das eleições, o g1 ouviu mais de 20 economistas de diferentes correntes de pensamento para entender qual o principal desafio econômico do próximo governo.

As análises foram feitas por autoridades e ex-autoridades do setor público, profissionais do mercado financeiro, pesquisadores e professores de diferentes instituições de ensino e pesquisa.

Nas respostas, o equilíbrio das contas públicas apareceu, de longe, como o mais importante. O problema começa no resultado primário (diferença entre receitas e despesas do governo) e acaba se refletindo no crescimento da dívida pública.

A dívida bruta do Brasil é a maior registrada desde abril de 2021, ainda durante a pandemia de Covid-19. Em agosto deste ano, o endividamento do setor público, que reúne governo federal, Previdência, estados e municípios, chegou a R$ 11,05 trilhões.

🔎 O indicador está em trajetória de alta e já equivale a 82,9% do Produto Interno Bruto (PIB), soma de todos os bens e serviços produzidos pelo país. Em outras palavras, a dívida equivale a cerca de 10 meses de tudo o que a economia brasileira produz.

Evolução da dívida bruta

Diante desse quadro, um ajuste robusto das contas públicas aparece como a espinha dorsal de qualquer estratégia para destravar a economia brasileira.

A avaliação é que uma trajetória mais sustentável para a dívida seria capaz de reduzir a pressão sobre juros e inflação, criando condições para mais investimento, consumo e crescimento.

A lógica do atual risco é a seguinte:

Quando o governo gasta mais do que arrecada por um período prolongado, precisa se endividar cada vez mais para fechar as contas. E, quanto maior a dívida e a percepção de que ela pode não ser sustentável, maior tende a ser a desconfiança dos investidores.

O governo, então, passa a pagar juros mais altos para conseguir se financiar. Não só isso: o cenário pode pressionar a inflação e contribuir para a manutenção da taxa básica de juros, a Selic, em nível elevado, tornando o crédito mais caro para famílias e empresas.

O resultado é um crescimento mais fraco. Por isso, muitos economistas defendem que uma trajetória mais sustentável para a dívida ajudaria a aliviar as pressões sobre juros e inflação, abrindo espaço para mais investimentos, consumo e crescimento.

O benefício da dúvida

A interpretação de economistas é de que, mesmo sem indicações concretas do que será feito, Flávio ganhou o benefício da dúvida por parte do mercado.

🔎 Na prática, parte do entusiasmo dos investidores decorre menos do que Flávio apresentou até agora e mais da percepção de que Lula não dará prioridade a uma agenda de ajuste fiscal.

"Você sabe que, para aquele lado, não há saída. Para o outro, talvez haja. Então já parece melhor", diz Schwartsman, ex-BC. "Existe uma convicção muito firme de que o governo Lula não tem compromisso com responsabilidade fiscal."

O economista relembra frases do presidente, como quando Lula declarou que o governo precisa focar em investimentos e parar com o que chamou de "babaquice de fazer superávit".

Para parte do mercado, esse tipo de declaração reforça a percepção de que a gestão Lula não tem o mesmo compromisso com o ajuste das contas públicas.

O governo afirma ter promovido, entre 2023 e 2026, um "enorme esforço fiscal" de cerca de R$ 240 bilhões, o equivalente a 2% do Produto Interno Bruto (PIB), por meio de aumento de arrecadação e contenção de gastos. Lula também acena com um ajuste da mesma intensidade, mas de forma gradual, em um eventual novo mandato.

Do outro lado, o plano de governo de Flávio Bolsonaro promete um "grande tesouraço", definido como um "corte profundo e por todos os lados, que enxuga a máquina". O objetivo seria, "com as contas em ordem", conquistar "juros menores".

A equipe econômica do candidato também planeja uma espécie de "PEC da Transição" com cortes bilionários. Os detalhes de como alcançar esses resultados, porém, ainda não foram apresentados.

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Qual o ajuste ideal?

Para André Galhardo, da Análise Econômica, o desafio não é apenas promover o ajuste fiscal, mas encontrar uma forma de fazê-lo sem prejudicar o crescimento econômico.

"Não adianta ser um plano exequível e concreto. Precisa ser um plano que não destrua a economia", afirma.

Ele defende que o controle das contas públicas é necessário, mas não deve repetir uma estratégia semelhante à do teto de gastos, criado durante o governo Michel Temer. Em sua visão, a regra limitou a capacidade de investimento e contribuiu para um período prolongado de baixo crescimento.

"Se criarmos uma saída por meio de um choque, se cairmos novamente na conversa de que um ajuste robusto e impactante é o caminho que o Brasil precisa adotar, o que vamos fazer é criar mais empecilhos para resolver o problema das contas públicas", afirma.

Para o economista, a alternativa passa por mudanças graduais. "Criar uma dinâmica melhor nas contas públicas, mas sem destruir milhões de empregos."

"Não adianta colocar uma camisa de força na economia", conclui.

Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e Flávio Bolsorano (PL)

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