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Mulheres se sentem menos à vontade para admitir erros em ambientes dominados por homens, aponta estudo
G1 — Brasil · 2026-10-08T04:00:00.000Z
Mulheres se sentem menos à vontade para admitir erros em ambientes dominados por homens, aponta estudo
Errar é inevitável no trabalho. Mas se sentir seguro para reconhecer uma falha e conseguir encará-la como parte de um processo de aprendizado pode depender do ambiente em que o profissional está inserido.
Um estudo com 1.485 profissionais do setor financeiro do Reino Unido indica que mulheres se sentem menos à vontade para admitir erros e têm menor probabilidade de enxergá-los como oportunidades de aprendizado quando trabalham em ambientes predominantemente masculinos.
A diferença ficou mais evidente quando 75% ou mais dos integrantes do ambiente profissional eram homens. Nesses locais, as mulheres apresentaram percepções mais negativas sobre os próprios erros do que os colegas do sexo masculino. Entre os homens, por outro lado, a percepção mudou pouco de acordo com a composição de gênero do local de trabalho.
Embora a pesquisa tenha investigado o comportamento no ambiente profissional, os resultados também levantam uma questão relacionada à saúde mental: o que ocorre quando alguém passa boa parte do dia em um lugar no qual não se sente seguro para errar, se posicionar ou reconhecer uma falha?
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Segundo a psicóloga especializada em burnout Marli Donizeti Oliveira, culturas muito punitivas podem fazer com que profissionais se sintam inseguros e passem a evitar manifestações, propostas e opiniões por medo do julgamento.
“As pessoas param de falar, param de trazer propostas, opiniões, param de trazer possibilidades, porque elas não encontram o espaço para isso. Elas começam a se encolher”, afirma. Para a psicóloga, esse cenário pode afetar a saúde porque as pessoas buscam aceitação e identificação com o grupo do qual fazem parte.
Quanto mais homens no ambiente, menor o conforto relatado pelas mulheres
O estudo, realizado por Grace Lordan e Paris Will, da London School of Economics (LSE), avaliou três aspectos da relação dos profissionais com os próprios erros: o conforto para admitir uma falha, a expectativa de ser penalizado e a percepção de que o erro poderia ser uma oportunidade de aprendizado.
A pesquisa foi realizada on-line em setembro de 2020, em colaboração com a Women in Banking and Finance (WIBF), uma rede profissional do Reino Unido. Dos 1.485 participantes da análise final, 1.205 eram mulheres (81% da amostra) e 280 eram homens, ou 19%.
Os participantes tiveram que imaginar que haviam cometido um erro de consequência moderada no trabalho, como descumprir um prazo de menor importância ou cometer uma falha que obrigasse colegas a refazer uma tarefa.
Em seguida, deram notas de 1 a 7 para três questões: o quanto se sentiriam confortáveis em contar à empresa sobre o erro, se acreditavam que seriam penalizados e se consideravam que a falha seria encarada como uma oportunidade de aprendizado.
Os resultados mostraram diferenças entre homens e mulheres.
Nos dados brutos, os homens deram, em média, nota 5,85 para o conforto em admitir erros. Entre as mulheres, a média foi de 5,52.
Na avaliação dos erros como oportunidades de aprendizado, os homens registraram média de 4,66, contra 4,42 entre as mulheres.
Mas a diferença aumentava quando os pesquisadores levavam em consideração a composição de gênero do ambiente.
Entre mulheres que trabalhavam em locais com pelo menos 75% de homens, a pontuação média de conforto para admitir um erro foi de 5,46, enquanto a dos homens nesses mesmos contextos chegou a 5,94.
Na percepção do erro como oportunidade de aprendizado, a média das mulheres nesses ambientes foi de 4,20, contra 4,54 entre os homens. Mulheres que trabalhavam em locais com menor participação masculina, por sua vez, registraram média de 4,62 nesse quesito.
As análises estatísticas que consideraram outras características dos profissionais e dos empregos reforçaram parte desse padrão: à medida que aumentava a proporção de homens no ambiente, diminuía o conforto das mulheres para admitir erros, enquanto entre eles a percepção permanecia relativamente estável.
Em ambientes compostos por pelo menos 75% de homens, as mulheres também apresentaram cerca de 8 pontos percentuais menos probabilidade que os homens de concordar que os erros eram oportunidades de aprendizado.
Segurança psicológica pode ajudar a explicar resultado
Um dos conceitos discutidos pelos pesquisadores é o de segurança psicológica, definida no estudo como a crença de que uma pessoa pode expressar ideias ou admitir erros sem ser punida ou humilhada.
A hipótese dos autores é que essa segurança possa ser menor entre mulheres que trabalham em ambientes nos quais estão em ampla minoria. Elas também podem se tornar mais visíveis e enfrentar maior pressão por desempenho, fazendo com que uma falha adquira um peso maior.
Na avaliação de Oliveira, a falta de espaço para falar e participar também pode ter consequências emocionais.
Segundo ela, profissionais podem chegar ao trabalho dispostos a contribuir e, ao perceberem que o ambiente não permite essa participação, acumular frustração. A psicóloga compara esse processo a uma “energia represada”: a pessoa quer colocar ideias em prática e contribuir, mas não encontra condições para isso.
A situação não depende apenas da liderança. Oliveira afirma que julgamentos e comportamentos agressivos dos próprios colegas também podem fazer com que profissionais se calem, mesmo em organizações que cobram autonomia, protagonismo e alto desempenho.
Medo de errar pode afetar saúde mental
Oliveira ressalta que o burnout está ligado à relação da pessoa com o trabalho e pode ocorrer em contextos de estresse elevado. Na experiência da psicóloga, a frustração pode ser especialmente intensa entre profissionais muito comprometidos com o que fazem, mas que encontram obstáculos para colocar em prática aquilo que consideram um trabalho de qualidade.
Por isso, os resultados da pesquisa não significam que mulheres inseridas em equipes majoritariamente masculinas necessariamente desenvolverão problemas de saúde mental. O que o estudo identifica é uma associação entre a composição do ambiente e a maneira como elas percebem os próprios erros.
Para Oliveira, porém, ambientes em que as pessoas não encontram abertura para participar e se posicionar podem afetar a saúde mental, sobretudo quando há forte comprometimento do profissional com o próprio trabalho.
Mulheres podem enfrentar uma camada adicional de cobrança
A psicóloga também chama atenção para uma questão que pode aumentar a pressão enfrentada pelas mulheres: as cobranças sociais dentro e fora do ambiente profissional.
Segundo Oliveira, em sua experiência clínica e organizacional, muitas profissionais assumem um volume elevado de responsabilidades e sentem que precisam “dar conta de tudo”. Ela defende a importância de uma rede de apoio e da divisão das responsabilidades domésticas.
No trabalho, a especialista relata observar mulheres que se esforçam para alcançar reconhecimento e ainda enfrentam avaliações diferentes das aplicadas aos homens. Ela também afirma que ainda presencia processos seletivos em que gestores majoritariamente homens questionam se uma mulher teria a mesma firmeza de um homem para determinada posição.
Essa percepção dialoga com um dos principais achados do estudo: a diferença encontrada pelos pesquisadores não apareceu de forma significativa na expectativa de punições formais.
Quando compararam profissionais em funções e contextos semelhantes, os autores não identificaram diferença significativa entre homens e mulheres na expectativa de sofrer uma penalização por um erro.
Logo, o resultado não indica que as participantes esperassem necessariamente uma advertência ou outra consequência oficial maior. A diferença aparece principalmente em aspectos informais e psicológicos, como o conforto para reconhecer a falha e a confiança de que ela seria encarada como uma oportunidade de aprendizado.
“Em teoria, um erro acarreta as mesmas consequências, independentemente de quem o cometa, e foi exatamente isso que constatamos. Mas regras formais não definem a cultura”, afirma Lordan.
Estudo não permite afirmar relação de causa e efeito
Os resultados precisam ser interpretados com cautela. O próprio estudo não permite concluir que trabalhar com uma maioria de homens seja a causa da percepção mais negativa das mulheres sobre seus erros.
Os pesquisadores afirmam que não é possível determinar se as diferenças decorrem de um tratamento diferente dado às mulheres, de características individuais, de uma combinação desses fatores ou de outros mecanismos. A pesquisa encontrou associações, e não uma relação de causa e efeito.
Há outras limitações. A amostra não representa todo o setor financeiro britânico, e 81% dos participantes eram mulheres porque o questionário foi distribuído por uma organização voltada a profissionais do sexo feminino.
Além disso, o estudo analisou apenas um setor, trabalhou com respostas autorrelatadas e apresentou aos participantes uma situação hipotética. Os pesquisadores também não conseguiram verificar se homens e mulheres imaginaram exatamente o mesmo tipo de falha ao responder às perguntas.
Portanto, os resultados também não demonstram que mulheres sejam efetivamente tratadas ou punidas de maneira diferente quando cometem um erro.
Ainda assim, os autores destacam que se sentir livre para reconhecer falhas pode ter consequências que vão além de um episódio isolado.
“Com o tempo, a liberdade para errar pode contribuir para lacunas em conhecimento, confiança e ascensão profissional, causadas pela desigualdade de oportunidades de aprendizado, e não pela falta de habilidade. Uma cultura de erro mais inclusiva beneficia a todos”, conclui Lordan.