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Militante do MST, youtuber comunista, vereadores de direita e senadores de oposição: entenda as renovações no Legislativo em PE

Cientista político fala sobre mudanças na Alepe e na Câmara Federal de Pernambuco em 2027

G1 — Brasil · 2026-10-08T06:00:00.000Z

Cientista político fala sobre mudanças na Alepe e na Câmara Federal de Pernambuco em 2027

A disputa equilibrada pelo governo de Pernambuco, que terminou com a reeleição da governadora Raquel Lyra (PSD) no 1º turno, e o acirramento na eleição presidencial, que foi para o 2º turno, impactaram o redesenho das novas configurações da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe) e na Câmara Federal (veja vídeo acima).

Os pernambucanos trocaram 18 dos 49 deputados estaduais e 12 dos 25 deputados federais do estado na Câmara dos Deputados. Com isso, o índice de renovação é de 37% na Alepe e de 48% na bancada do estado no Congresso. Na eleição anterior, em 2022, a taxa de renovação no Legislativo estadual foi de 51% enquanto a da bancada pernambucana na Câmara foi de 48%, igual à deste ano.

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Para o cientista político e advogado Felipe Ferreira Lima, a estrutura dos candidatos com mandato continua exercendo grande influência na permanência ou não dos parlamentares nos cargos.

"A força do deputado incumbente, que é o deputado que tem mandato, prevaleceu, foi determinante, independentemente de se esse deputado estava com Raquel Lyra ou com João Campos", afirmou.

Na Assembleia Legislativa, responsável pela criação de leis estaduais e por fiscalizar a gestão estadual, a base da governadora reeleita ficou mais forte. Pelo menos 29 deputados eleitos declararam apoio à reeleição de Raquel Lyra ou são de partidos aliados. A nova legislatura se inicia em fevereiro de 2027.

Para o cientista político Adriano Oliveira, esse novo arranjo deve distensionar a conturbada relação entre o governo e a Alepe que marcou todo o primeiro mandato da governadora reeleita.

"O partido da governadora conquistou nove cadeiras, e isso faz com que ela alcance e adquira condições a partir do diálogo com outros partidos que a apoiam a conquistar a presidência da Assembleia, e com isso ter tranquilidade durante o seu governo", avaliou.

Plenário da Assembleia Legislativa de Pernambuco (Alepe)

Roberto Soares/Alepe Divulgação

Entre os novos nomes para a Câmara dos Deputados, lideranças em ascensão compartilham nitidez em relação ao seu posicionamento político e fazem sucesso nas redes sociais.

Eleito para o primeiro cargo eletivo de sua vida, o historiador e youtuber Jones Manoel (PSOL) foi o segundo deputado federal mais votado de Pernambuco, com cerca de 250 mil votos. Ele teve 12 mil votos a menos que o deputado federal Pedro Campos (PSB), irmão do ex-prefeito do Recife João Campos e filho do ex-governador Eduardo Campos.

Popular na internet, o influenciador possui mais de 2 milhões de seguidores no Instagram. Ele disputou o governo de Pernambuco pelo PCB em 2022, quando ficou em sexto lugar com 0,69% dos votos válidos.

O desempenho na primeira eleição chamou atenção. Atrás apenas das cinco candidaturas favoritas, de famílias tradicionais na política, o youtuber teve mais que o dobro de votos do PSOL, legenda com mais recursos e tempo de propaganda no rádio e na TV, o que o PCB não tinha.

Após as eleições de 2022, Jones Manoel entrou em conflito com a direção nacional do PCB e deixou o partido, ingressando no PSOL. Com a vitória em 2026, ele se tornou o primeiro deputado federal eleito pela sigla em Pernambuco e no Nordeste.

Jones se apresenta como comunista revolucionário e faz o resgate de temas como comunismo, socialismo e personalidades políticas do período da União Soviética. Crítico da política econômica do governo Lula (PT), cresceu nas redes sociais com tom ácido contra o sistema capitalista e o neoliberalismo.

Jones Manoel, em imagem de arquivo

Militante do MST

Outro nome em ascensão pela esquerda, a deputada estadual Rosa Amorim (PT) foi eleita em sua primeira tentativa de chegar à Câmara dos Deputados e se torna a primeira integrante do Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) a ser eleita federal por Pernambuco.

Natural de Caruaru, no Agreste do estado, cresceu no Assentamento Normandia, um dos mais maiores assentamentos da região. Ela é filha de um dos dirigentes nacionais do MST, Jaime Amorim.

Além da ligação com o MST, Rosa Amorim também atua no campo das políticas LGBTQIA+. Lésbica, ela se apresentou na campanha com o mote de ser a "primeira deputada sem terra e sapatão" e construiu laços com setores da cultura do estado.

A petista recebeu mais de 144 mil votos e superou nomes com mais tempo em atividade pelo partido, como os deputados Carlos Veras, que foi eleito para o terceiro mandato consecutivo, e a vereadora do Recife Liana Cirne, que está em seu segundo mandato na Câmara Municipal e disputou para federal pela segunda vez.

Vereadores de direita

Pela direita, nomes com intenso trânsito nas redes sociais também conquistaram as urnas na corrida pela Câmara Federal. O jornalista e vereador do Recife Eduardo Moura (Novo) conquistou uma vitória inédita para o partido e é o primeiro federal eleito pelo Novo em Pernambuco e no Nordeste. Em seu primeiro mandato na Câmara Municipal, Moura ganhou notoriedade como repórter em programas policiais e foi eleito vereador em 2024.

O deputado eleito se tornou um opositor da gestão do ex-prefeito João Campos e foi o autor, no início deste ano, do pedido de impeachment dele após a modificação do resultado de um concurso público para procurador municipal, caso que ficou conhecido como "fura-fila" e foi explorado na campanha pelo governo do estado.

Outro vereador pelo Recife também conseguiu, na primeira tentativa, ser eleito para deputado federal. Formado em Ciências da Computação, Thiago Medina (PL) ganhou fama por ser um crítico implacável dos movimentos sociais, especialmente feministas e antirracistas. Em agosto deste ano, ele se envolveu em um 'bate-boca' e ofendeu uma homenagem a uma entidade da Jurema, sendo acusado de racismo.

Nova forma de fazer política

Para Felipe Ferreira Lima, o que une esses candidatos, com visões de mundo tão diferentes, é uma nova forma e, especialmente, um outro espaço para fazer a discussão política capaz de mobilizar o eleitor.

"Jones Manoel, que já vinha trabalhando nas redes essa questão do extremo à esquerda, conseguiu muito bem difundir isso sozinho, não se tem nem estrutura de palanque. Ele construiu isso dentro dessa forma nova, digamos assim, de se fazer política de opinião independente de estrutura. O mesmo acontece com a Rosa Amorim, também no campo da esquerda, que trouxe o MST não aparentemente como uma figura de estrutura, mas como uma figura de movimento, de representação de movimento. Muito mais também independente de palanques governamentais ou de oposição. Na direita, acontece o mesmo. Temos Eduardo Moura e Thiago Medina, figuras que são também afáveis ao novo estilo de política, via redes sociais, à nova forma de comunicação, mas ligadas ao extremo da direita naquela forma que a direita já vem imprimindo, diga-se de passagem, antes até que a esquerda, nos movimentos de rede social, desde 2018", analisou.

Na contramão, políticos mais tradicionais ficaram pelo caminho na disputa pelas 25 vagas de deputado federal por Pernambuco, como o ex-deputado federal Daniel Coelho (PSD) e o ex-prefeito de Petrolina Miguel Coelho (União Brasil) que não conseguiram o mandato, mesmo com longo histórico de disputas majoritárias.

"Daniel Coelho, ao meu ver, falta identidade, ele mudou muito de identidade nessas últimas eleições e com isso ele está levando revés político, enquanto Miguel Coelho demorou a decidir o que queria para essa eleição. Primeiro, ele conversou com João Campos, depois foi para Raquel. Primeiro, ele quis o Senado e depois decidiu a Câmara Federal. Então, a indecisão fez com que ele tivesse esse desempenho pífio", disse o cientista político Adriano Oliveira.

Veja os deputados estaduais eleitos em Pernambuco em 2026

Veja os deputados federais eleitos em Pernambuco em 2026

Ineditismo no Senado

No Senado, das duas cadeiras em jogo, uma foi mantida com a reeleição de Humberto Costa (PT). A outra vaga, conquistada por Marília Arraes (PDT), é ocupada hoje por Fernando Dueire (MDB), que não tentou renovar o mandato. Ele foi suplente de Jarbas Vasconcelos (MDB), eleito em 2018. O ex-governador anunciou a aposentadoria e renunciou ao cargo em 2023.

Foi a primeira vez na história, desde a redemocratização em 1982, que, em uma disputa por duas vagas, os dois senadores são da chapa adversária de quem foi eleito para o governo do estado. Humberto e Marília apoiaram João Campos, segundo colocado para governador. Reeleita, Raquel Lyra viu os candidatos de sua chapa longe da vitória. Eduardo da Fonte (PP) ficou em quarto lugar e Túlio Gadelha (PDT), na sexta posição.

Nos últimos 44 anos de voto direito para eleições estaduais, apenas em 1994 um governador eleito não levou as duas vagas. Naquele ano, Carlos Wilson (PSDB) ficou com a primeira vaga e Roberto Freire (PPS), apoiado pelo governador eleito Miguel Arraes (PSB), com a segunda. Armando Monteiro Filho, que também era da chapa, terminou em terceiro lugar.

Relembre como foram as disputas pelo Senado em relação ao apoio dos governadores nas eleições com duas vagas:

1986: Miguel Arraes (PMDB) é eleito governador e faz a chapa completa com a eleição dos senadores Mansueto de Lavor (PMDB) e Antônio Farias (PMB);

1994: Miguel Arraes (PSB) é eleito governador e faz metade da chapa com a eleição do senador Roberto Freire (PPS) para a segunda vaga. A primeira fica com Carlos Wilson (PSDB), candidato de Gustavo Krause (PFL);

2002: Jarbas Vasconcelos é reeleito governador e faz a chapa completa com a eleição dos senadores Marco Maciel (PFL) e Sérgio Guerra (PSDB);

2010: Eduardo Campos (PSB) é reeleito governador e faz a chapa completa com a eleição dos senadores Armando Monteiro Neto (PTB) e Humberto Costa (PT);

2018: Paulo Câmara (PSB) é reeleito governador e faz a chapa completa com a eleição dos senadores Humberto Costa (PT) e Jarbas Vasconcelos (MDB);

2026: Raquel Lyra (PSD) é reeleita governadora sem nenhum senador eleito pela sua chapa, com a vitória dos senadores Humberto Costa (PT) e Marília Arraes (PDT), candidatos de João Campos (PSB);

Mudança no voto evangélico

As famílias evangélicas Collins, Tércio e Ferreira

Arte / g1

Outra característica das eleições de 2026 em Pernambuco foi a redução na votação de nomes grandes ligados a grupos evangélicos. Após serem os mais votados para a Assembleia Legislativa e Câmara Federal em 2022, os nomes foram ultrapassados por postulantes da esquerda.

Mais votado para federal em 2022 com 273 mil votos, André Ferreira (PL) saiu candidato este ano a deputado estadual, enquanto seu irmão, o ex-prefeito de Jaboatão dos Guararapes Anderson Ferreira (PL) retornou à Câmara, mas ocupando a terceira posição, com 185 mil votos, 32% a menos que na última eleição.

Também deputada federal e de um influente grupo religioso, Clarissa Tércio (PP) caiu do 2º lugar em 2022 para a 16ª posição. A votação dela passou de 240 mil para 110 mil votos, uma redução de 54%. O marido dela, Júnior Tércio (PP), que foi deputado estadual mais votado do último pleito com 183 mil votos perdeu quase 60% desses votos e ficou em 11º lugar, com 75 mil votos.

O caso mais emblemático, contudo, foi do Pastor Cleiton Collins (PP), que pela primeira vez desde 2002 não conseguiu uma vaga na Alepe, ficando na suplência, com 33 mil votos. No comparativo com 2022, quando ele obteve 50 mil votos, a queda foi de 34%. Collins foi o mais votado para estadual nas eleições de 2006, 2010 e 2014 e já chegou a receber 216 mil votos para o cargo, 85% a mais que hoje.

A esposa de Cleiton Collins, a ex-vereadora do Recife Missionária Michelle Collins (PP), não conquistou a vaga para a Câmara Federal. Também foi derrotado o deputado federal Pastor Eurico (PSDB), que estava em busca do quinto mandato consecutivo. Apesar da queda aparente desses grupos religiosos, há controvérsia sobre um declínio do "voto evangélico".

Na visão do cientista político Felipe Ferreira Lima, existe um maior número de candidaturas ligadas a correntes religiosas e conservadoras, o que muda a distribuição dos votos.

"O voto evangélico cresceu ao ponto de pulverizar suas candidaturas. Tivemos muitas candidaturas evangélicas, não só em Pernambuco, mas no Brasil todo. Então, existe dentro do voto evangélico uma diversificação de candidaturas. É como se eles próprios tiverem acordado e dito: 'olha, a gente tem um potencial maior para não eleger sempre os mesmos. Dá para a gente correr para eleger mais lideranças evangélicas'. E isso, naturalmente, dilui os votos", afirmou.

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