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'Homem mais tatuado do Brasil' passa por cirurgia e tumor é retirado da bexiga
G1 — Brasil · 2026-10-10T03:00:01.000Z
'Homem mais tatuado do Brasil' passa por cirurgia e tumor é retirado da bexiga
Nos Estados Unidos, cerca de metade dos tumores de bexiga é descoberta ainda na camada mais interna do órgão, onde pode ser removida por dentro, sem corte na pele. O diagnóstico de Leandro de Souza, que chegou a ser apontado como o homem mais tatuado do Brasil, está no extremo oposto desse espectro.
A biópsia mostrou que o tumor atingiu o músculo da bexiga, estágio em que o tratamento muda de patamar e passa a incluir a retirada do órgão. Ele relatou que a tomografia não encontrou disseminação da doença e que fará de quatro a seis sessões de quimioterapia antes da cirurgia, prevista para 2027.
Um tumor que nasce no revestimento
O tipo mais comum começa nas células que revestem a parte interna da bexiga, chamadas de transição ou uroteliais, explica o oncologista Stephen Stefani, da Americas Health Foundation. A doença avança em camadas: surge na superfície e, com o tempo, pode alcançar a parede muscular, os linfonodos (gânglios) e outras partes do corpo.
O sinal mais frequente é sangue visível na urina, em geral sem dor e de forma intermitente, o que leva muita gente a adiar a ida ao médico, segundo a Sociedade Brasileira de Urologia.
A projeção do Instituto Nacional do Câncer (Inca) para o triênio 2026-2028 é de 13.110 novos casos por ano no Brasil, sendo 9.040 em homens e 4.070 em mulheres. Em 2024, a doença causou 5.483 mortes no país.
'Homem mais tatuado do Brasil' descobre tumor na bexiga
Cigarro está por trás de mais da metade dos casos
O tabagismo multiplica por pelo menos três o risco de desenvolver o tumor, e a Sociedade Brasileira de Urologia o associa a mais de 50% dos diagnósticos no país. A exposição profissional a corantes e a aminas aromáticas, substâncias usadas em indústrias de tintas, borracha, couro, têxtil e gráficas, também está entre os fatores estabelecidos. A idade pesa: nove em cada dez pacientes têm mais de 55 anos, segundo a Sociedade Americana de Câncer.
Stefani afirma que os corantes entram na lista de fatores de risco, mas diz que a tinta de tatuagem não costuma ser discutida nesse contexto e que precisaria revisar a literatura antes de apontar uma relação.
Os estudos disponíveis sobre pigmentos de tatuagem e câncer se baseiam, em grande parte, em estimativas teóricas e relatos de caso, e nenhum estabeleceu ligação com tumores de bexiga. O biomédico que identificou o tumor de Leandro disse que o médico consultado descartou relação com o processo de remoção das tatuagens.
Raspagem à retirada da bexiga
Quando o tumor está restrito à superfície, o urologista consegue removê-lo por dentro, com um instrumento introduzido pela uretra. Muitas vezes o tratamento é complementado com a aplicação, dentro da própria bexiga, de uma imunoterapia local feita com o bacilo de Calmette-Guérin (BCG), o mesmo microrganismo usado na vacina contra a tuberculose.
Se o câncer já invadiu o músculo, o cenário muda. As Diretrizes Brasileiras Conjuntas das Sociedades para o tratamento do câncer da bexiga, versão 2026, elaboradas pelas sociedades brasileiras de Urologia, de Oncologia Clínica, de Radioterapia e de Patologia, indicam a cistectomia radical, a retirada da bexiga, precedida de quimioterapia nos pacientes que a toleram.
A sequência se assemelha à descrita por Leandro. Para quem pode receber cisplatina, principal quimioterápico da doença, o documento classifica como preferencial somar imunoterapia à quimioterapia antes da cirurgia e mantê-la depois, esquema que recebeu a categoria mais alta de evidência.
O texto sinaliza que a aprovação desses medicamentos vale apenas no âmbito da Agência Nacional de Saúde Suplementar (ANS), ou seja, para os planos de saúde. Em casos selecionados, é possível tentar preservar o órgão com a retirada máxima do tumor seguida de quimioterapia e radioterapia combinadas.
A cirurgia retira a bexiga e, nos homens, a próstata, e exige uma nova forma de armazenar e eliminar a urina. Os urologistas costumam reconstruir um reservatório com um pedaço do intestino, a neobexiga, que, segundo Stefani, nunca reproduz a função original, mas permite ao paciente manter a vida social. Quando as condições clínicas não permitem, a urina é desviada para uma bolsa externa, procedimento chamado urostomia.
Imunoterapia mudou o ritmo do tratamento
Os remédios que ajudam o sistema de defesa a reconhecer e atacar o tumor ampliaram a taxa de resposta ao tratamento e fazem os pacientes viver mais e melhor, afirma Stefani.
Em um ensaio clínico com mais de mil pacientes, publicado em 2024 no New England Journal of Medicine, acrescentar imunoterapia à quimioterapia antes da cirurgia reduziu em um quarto o risco de morte.
Dois anos depois, 82% dos participantes desse grupo estavam vivos, contra 75% dos que receberam apenas quimioterapia. Na doença já disseminada, a combinação de imunoterapia com outro medicamento elevou a sobrevida mediana de cerca de 16 meses, com a quimioterapia isolada, para mais de 31 meses.
Estágio no diagnóstico pesa mais que qualquer fator
Nos Estados Unidos, entre pessoas diagnosticadas de 2015 a 2021, 98% dos tumores restritos ao revestimento da bexiga estavam vivos cinco anos depois. Entre os que haviam atingido a parede do órgão sem sair dele, o índice foi de 73%. Nos casos já espalhados para outras partes do corpo, caiu para 9%. São médias de grandes grupos e não permitem prever o desfecho de um paciente em particular.
Parar de fumar e reduzir a exposição a corantes e produtos químicos no trabalho estão entre as medidas de prevenção. Investigar sangue na urina assim que aparece, mesmo quando o sangramento some sozinho, aumenta a chance de achar a doença na fase em que ela ainda pode ser raspada por dentro.
Para Leandro, os próximos meses seguem o roteiro que a diretriz traça para tumores que ainda não se espalharam.