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Morre Juarez Machado, artista que levou a arte brasileira para o mundo
G1 — Brasil · 2026-10-10T08:00:00.000Z
Morre Juarez Machado, artista que levou a arte brasileira para o mundo
Foi em Curitiba que Juarez Machado vendeu o primeiro quadro, fez a primeira exposição individual e começou oficialmente a carreira artística.
O artista morreu nesta terça-feira (6), em Vassouras, no interior do Rio de Janeiro. Nascido em Joinville (SC), ao longo de mais de 60 anos de carreira, foi pintor, escultor, desenhista, ilustrador e cartunista. O multiartista teve reconhecimento internacional, com exposições espalhadas pelo mundo.
Foi em uma delas, em Paris, que o cineasta Jean-Pierre Jeunet conheceu as telas de Juarez Machado. Nelas, encontrou as cores que buscava para usar no filme que estava produzindo, no início dos anos 2000: "O Fabuloso Destino de Amélie Poulain".
Jeunet fotografou quadros, livros e outros trabalhos de Juarez para mostrar à equipe de filmagem. Com isso, o artista brasileiro se tornou inspiração para a paleta de cores do filme, que veio a se tornar um clássico. Dois quadros de Juarez Machado aparecem na obra, posicionados ao lado da cama no quarto da protagonista.
Os dois quadros nas laterais da cama da personagem Amelie Poulain são de Juarez Machado
O jornalista José Carlos Fernandes, que entrevistou Juarez mais de uma vez, conta que Juarez repetia que viveu na França por muito tempo sem que se sentisse considerado um artista. Por isso, o reconhecimento que veio com o filme o emocionou.
Ser inspiração estética para o longa representou uma virada nessa percepção, porque, como destaca Fernandes, "é comum que, na pesquisa para paleta de filmes, para enquadramentos, eles busquem artistas clássicos, que têm uma maturidade já na paleta de cores".
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Da Cocaco para o mundo
Primeira exposição individual de Juarez Machado foi em Curitiba
Foi nos anos 60 que a Galeria Cocaco, em Curitiba, acolheu a primeira exposição de Juarez. O espaço foi aberto em 1957 e se tornou "point" para intelectuais, artistas e jovens da época, que traziam inquietações ligadas ao modernismo, conforme José Carlos Fernandes, autor do livro "Um lugar chamado Cocaco".
Juarez começou a visitar a Cocaco junto com outros colegas artistas e, com o tempo, se tornou frequentador assíduo. Eugenia Petriu, proprietária da galeria, lembra que a presença do artista na galeria não atraía apenas os interessados em arte, mas também as jovens da cidade.
"Elas não entendiam de obras de arte coisíssima nenhuma, mas iam lá para ver o Juarez Machado. Ele me deu uma 'dor de cabeça', porque de repente vinham grupos de meninas para olhar as obras de arte, mas elas não entendiam nem perguntavam nada, elas iam para ver Juarez. Não sei se ele sabia disso", conta Petriu, brincando.
Descrito por pessoas que o conheceram como um "gentleman", Juarez se tornou um dos grandes sucessos da galeria.
"Teve uma exposição que a gente fez que tinha gente até do outro lado da rua. Foram muitas pessoas. Ele era muito querido por todos e estava sempre com os amigos inseparáveis", descreve, se referindo aos também artistas Fernando Calderari e João Osório Brzezinski.
A galerista lembra também que Juarez estava sempre rabiscando. Na época, sua principal linguagem ainda era o desenho e ele não tinha se aventurado tanto pelas pinturas a óleo.
Anos depois, em 1971, a galeria fez uma nova exposição, com desenhos de humor do artista, ainda expoente. "Foi um sucesso, casa cheia, coquetel, etc... Infelizmente não vendemos nada. O público só sentiu o humor, mas não a força gráfica do trabalho", relembra.
Juarez também foi um dos primeiros artistas a integrar o elenco da Simões de Assis, hoje uma das principais galerias da América Latina dedicadas à arte moderna e contemporânea. Foi após uma temporada do artista na França que o proprietário da galeria, Waldir Simões de Assis Filho, fez o convite.
Da Europa, Juarez trouxe uma série de pinturas que representavam o que o galerista descreve como "mulheres sensuais e misteriosas, vestidas de negro, sentadas às mesas de bares, envolvidas por uma atmosfera de magia, nostalgia e certa ambiguidade entre o real e o imaginário".
"Lembro-me muito bem daquele encontro, porque aquelas pinturas revelavam algo surpreendente: uma linguagem própria, uma personalidade e uma capacidade de criar um universo reconhecível. Havia naquelas mulheres, ao mesmo tempo, sensualidade, humor, mistério e uma certa solidão. Era uma pintura muito particular, que não se confundia com a de nenhum outro artista", detalha o galerista.
Obra "Chateaux Bourdeaux", de Juarez Machado
Segundo Waldir, Juarez tinha a capacidade de "observar o cotidiano, transformá-lo em imagem e, ao mesmo tempo, construir um universo próprio, imediatamente reconhecível". A parceria comercial entre os dois se tornou também uma amizade. "Ele era uma companhia extremamente agradável. Espirituoso, dono de um humor muito particular e, ao mesmo tempo, de uma grande sabedoria", descreve.
A artista Teca Martins, que o conheceu Juarez quando ambos eram estudantes da Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap), também se lembra do humor e da criatividade como características marcantes do artista.
"O Juarez é uma pessoa interessantíssima, amigo, parceiro e de uma potencialidade criativa muito grande", descreve Teca, que fez a ponte na venda de uma das primeiras obras de Juarez, comprada por uma tia dela.
Segundo Teca, Juarez construiu uma linguagem tão própria que se tornou fácil identificar qualquer trabalho dele. "A característica maior é o traço, é a liberdade que ele tem no trabalho dele. Mas o que eu mais gostava do Juarez era o humor. Os desenhos de humor dele eram fantásticos. Ele tinha uma vivacidade", lembra.
Muito celebrado por pares e pelo público ainda em vida, Juarez comemorou seus 80 anos em 2022, no Museu Oscar Niemeyer (MON).
Com curadoria de Edson Machado, irmão do artista, "Juarez Machado – Volta ao Mundo em 80 Anos" reuniu 166 obras, contemplando desde o início da carreira do pintor na capital paranaense até a fase internacional, com a mudança para Paris. O artista, que na época já vivia fora do Paraná, visitou a exposição meses depois da abertura.
"Calçada de Copacabana" e "Sem título", obras de Juarez Machado que foram expostas no Museu Oscar Niemeyer
Ao anunciar o falecimento do artista, o Instituto Internacional Juarez Machado (IIJM), destacou que ele "construiu uma trajetória singular nas artes, reconhecida no Brasil e no exterior".
Juarez foi pioneiro do desenho de humor na televisão brasileira. Nos anos 70, marcou história no Fantástico, da Rede Globo, no qual teve um quadro em que atuava como mímico e interagia com os próprios desenhos.
O humor de Juarez Machado
Segundo o Instituto, o artista demonstrava talento desde a infância. Foi aos 3 anos que fez o primeiro desenho "registrado": um tanque de guerra desenhado na página de um jornal que noticiava a Segunda Guerra Mundial.
O original foi guardado pela mãe dele e faz parte do acervo do artista, no Instituto Internacional Juarez Machado, em Joinville.
Na adolescência, trabalhou como ilustrador de um laboratório farmacêutico. Já em Curitiba, entre 1961 e 1965, estudou na Escola de Música e Belas Artes do Paraná (Embap). No mesmo período, fez a primeira exposição individual na Galeria Cocaco.
Anos depois, montou um ateliê no Rio de Janeiro, participando ativamente da cena artística da cidade.
Foi chargista dos principais jornais do país. Durante a ditadura cívico-militar, Juarez burlava a censura com contribuições ácidas a veículos como "O Cruzeiro", "Fatos e Fotos", "Desfile", "Ele e Ela" e "O Pasquim", além do "Jornal do Brasil".
Nos anos 70, compôs a equipe que trabalhou na criação do Fantástico. Atuando como cenógrafo do programa, produzia cenários e efeitos para vídeos musicais de artistas. Nos anos 80, se mudou para Paris, onde montou um ateliê internacional.
Em Joinville, inaugurou, em 2014, o Instituto Internacional Juarez Machado, instituição sem fins lucrativos que se dedica à difusão da arte no Norte catarinense.
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