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Zelensky critica acordo entre Trump e Putin sobre diesel russo: 'Investimento na guerra'

Vladimir Putin, Donald Trump e Volodymyr Zelensky.

G1 — Brasil · 2026-10-10T12:31:54.000Z

Vladimir Putin, Donald Trump e Volodymyr Zelensky.

Sputnik/Gavriil Grigorov/Pool via REUTERS, Reuters e Genya Savilov/AFP

O presidente da Ucrânia, Volodymyr Zelensky, criticou duramente o acordo entre Washington e Moscou anunciado na sexta-feira (9) sobre o fornecimento de diesel russo para os mercados dos EUA e globais a fim de ajudar a reduzir os preços dos combustíveis.

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Ao anunciar o pacto, o presidente dos Estados Unidos, Donald Trump –cujo Partido Republicano enfrenta a insatisfação dos eleitores com os preços dos combustíveis antes das eleições de meio de mandato no próximo mês– disse que o líder russo, Vladimir Putin, concordou em fornecer "imediatamente" mais de 300 mil toneladas de diesel, seguidas de outras 500 mil em novembro e 1 milhão de toneladas logo depois.

Outras 3 milhões de toneladas poderiam ser entregues em um curto período, dependendo da capacidade operacional das refinarias russas. O Kremlin confirmou o acordo, afirmando que a Rússia estava preparada para fornecer petróleo e derivados a qualquer mercado.

Horas após o anúncio de Trump, Zelensky disse que o acordo ajudaria a Rússia no conflito e seria um "investimento na guerra" (leia mais abaixo). O líder ucraniano voltou a citar o acordo entre EUA e Rússia neste sábado (10). Ele disse que Moscou "disse obrigado" pela retirada das sanções com um ataque aéreo que deixou mortos e feridos em Zaporizhzhia.

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Zelensky condena acordo como "investimento na guerra"

Após o anúncio, Zelensky alertou que qualquer flexibilização das restrições às exportações de energia russas ajudaria Moscou a financiar sua guerra contra a Ucrânia.

"Permitir que a Rússia venda derivados de petróleo é um investimento na guerra, que deve ser encerrada, e não prolongada", escreveu Zelensky no Telegram na noite desta sexta-feira, advertindo que o Kremlin responderia com mais "terror e atos vis" contra seu país.

Zelensky intensificou suas críticas em entrevista ao portal de notícias americano Axios, classificando o acordo como "injusto e desonesto". Ele ficou particularmente irritado pelo fato de os enviados de Trump, Steve Witkoff e Jared Kushner, estarem negociando com autoridades ucranianas em Miami sobre um possível fim da guerra ao mesmo tempo em que o acordo com Putin estava sendo articulado. O ucraniano afirmou que o acordo sobre o diesel não teria sido mencionado durante essas conversas.

Questionado sobre as críticas de Zelensky, Trump se limitou a defender o acordo. "Precisamos de petróleo para o mundo, e isto é diesel – que é do que precisamos –, então estamos muito satisfeitos em obtê-lo", disse o americano.

Zelensky reiterou a disposição da Ucrânia em interromper seus ataques a refinarias russas, caso Moscou concordasse em cessar os bombardeios a instalações de energia ucranianas. "Estamos propondo exatamente esse tipo de acordo aos EUA e acreditamos que a força do país é suficiente para alcançar tal compromisso", sublinhou.

Após o anúncio de Trump, o Departamento do Tesouro dos EUA emitiu uma isenção temporária das sanções contra a Rússia, permitindo a venda, o fornecimento, o descarregamento e a importação de diesel russo até 7 de abril de 2027.

Zelensky também criticou o alívio temporário das sanções, dizendo que qualquer flexibilização pode ser vista como um sinal de "fraqueza evidente". A isenção, segundo afirmou, fará Moscou levar Washington "ainda menos a sério".

Alta dos combustíveis pressiona Trump às vésperas das eleições

O acordo representa uma mudança drástica na política dos EUA – que desde o início da guerra da Rússia contra a Ucrânia, haviam proibido a importação de petróleo russo – e ocorre em um momento em que a economia e os consumidores americanos sofrem devido à alta global dos preços do petróleo, causada pela guerra entre os EUA e o Irã.

O preço do diesel bateu recordes nos EUA e na Europa nas últimas semanas, impulsionando a inflação sobre uma ampla gama de bens de consumo.

Isso significa custos de transporte mais elevados para uma longa lista de produtos, uma vez que o combustível é utilizado nas redes de transporte de carga e entrega. Algumas empresas já repassaram esses custos mais altos aos consumidores por meio de taxas adicionais em compras online e encomendas postais.

Esse impacto atinge os consumidores particularmente no que diz respeito aos preços dos alimentos. Produtos perecíveis, como carnes e hortifrútis, sofrem as consequências mais imediatas do diesel caro, pois exigem transporte e reposição frequentes ou são colhidos com maquinário agrícola movido pelo combustível.

A situação aumentou a pressão sobre Trump e o Partido Republicano antes das eleições legislativas de meio de mandato, marcadas para 3 de novembro.

Os índices de aprovação de Trump em relação à economia atingiram um novo patamar mínimo. Segundo uma pesquisa da AP-NORC divulgada na semana passada, apenas 26% dos adultos americanos aprovavam a condução da economia por Trump – uma queda em relação aos 32% registrados em julho. Além disso, apenas 17% aprovavam sua gestão em relação ao custo de vida.

Especialistas minimizam impacto do acordo

Especialistas em política energética afirmam que é pouco provável que o acordo entre Putin e Trump tenha impacto significativo nos preços nas bombas de combustível ou em outros setores, seja nos EUA ou globalmente.

"É como reorganizar as cadeiras no convés do Titanic", disse Michael Lynch, pesquisador sênior da Energy Policy Research Foundation, uma instituição de pesquisa apartidária focada em energia e economia.

"Se recebermos diesel da Rússia, isso significa, basicamente, que os clientes atuais deles ficarão sem o produto e terão de buscar fornecedores em outros lugares; isso manterá o preço praticamente onde está agora", observou Lynch.

Além disso, não há garantias de que a medida possa aliviar os custos nas bombas de combustível para caminhoneiros, pecuaristas e agricultores americanos. "Na melhor das hipóteses, pode-se esperar uma pequena queda nos preços locais, em áreas como Nova York-Nova Jersey ou talvez Filadélfia", disse o especialista. "Isso significa apenas que o petróleo será redistribuído, sem alterar realmente o preço em nível global ou em todo o território dos EUA."

Se a Rússia – que em julho proibiu as exportações de diesel devido a ataques de drones ucranianos às suas refinarias – acreditar que pode retomar as exportações, isso ajudará a estabilizar os preços globais do diesel, afirmou Daniel Sternoff, pesquisador sênior do Centro de Política Energética Global da Universidade de Columbia.

No entanto, é provável que os preços permaneçam elevados de modo geral, já que grande parte da capacidade de refino do Oriente Médio não está disponível para o mercado mundial devido às perturbações no Estreito de Ormuz causadas pelo conflito entre os EUA e o Irã.

"Os volumes de produtos refinados, como o diesel, ainda estão em pouco mais da metade dos níveis anteriores à guerra", disse Sternoff. "Portanto, mesmo que os russos realmente avancem com o envio de um pouco mais de diesel para os mercados globais, isso pode aliviar levemente a pressão sobre os preços, mas não os reduzirá de forma significativa.”

Clayton Seigle, estrategista do setor de energia e especialista do Centro de Estudos Estratégicos e Internacionais (CSIS), avalia que o acordo provavelmente não terá grande impacto nos preços para os consumidores de diesel nos EUA, mas poderá beneficiar a Rússia.

Isso ocorre porque Moscou está tentando escoar seus estoques de diesel de especificação de verão para dar lugar aos tipos mais densos, adequados para o inverno e para condições árticas, de que necessitará nos próximos meses, observou.

"Não acredito que isso será suficiente para reduzir substancialmente os preços nos Estados Unidos ou na Europa, mas certamente alivia a pressão sobre a receita de Moscou”, afirmou.

Acordo sobre diesel ofusca negociações de paz em Miami

A divulgação do acordo entre Trump e Putin ofuscou os esforços diplomáticos para pôr fim à guerra na Ucrania. No mesmo dia do anúncio, autoridades dos EUA, da Ucrânia e da Europa se reuniram em Miami para retomar as tentativas de encerrar o conflito, com Washington buscando uma saída para o impasse.

O enviado dos EUA, Steve Witkoff, escreveu em postagem no X, após a reunião, que as "discussões construtivas" abordaram "possíveis caminhos para reduzir a tensão e encerrar a guerra com a Rússia antes do inverno [no Hemisfério Norte], bem como para avançar nos esforços em prol de uma paz duradoura e sólida".

Witkoff afirmou que a reunião contou com a participação do E3 (grupo formado por Alemanha, França e Reino Unido), da Comissão Europeia, da Ucrânia e da Otan.

As discussões abrangeram resiliência energética, exportações de grãos, garantias de segurança e "arranjos de longo prazo para a segurança da Ucrânia e da Europa, visando prevenir conflitos futuros", disse Witkoff. Ele também destacou a troca de ideias "produtiva" sobre o apoio à reconstrução do pós-guerra e à prosperidade econômica da Ucrânia, incluindo a adesão à UE.

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