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Como é a infância na cidade mais indígena do estado de São Paulo
G1 — Brasil · 2026-10-12T10:05:59.000Z
Como é a infância na cidade mais indígena do estado de São Paulo
Acordar, jogar online, ir para a escola, encontrar os amigos e participar das atividades da aldeia. Essa é a rotina da jovem Lívia Vitória Lipu, de 11 anos, e de dezenas de crianças moradoras da Aldeia Kopenoti, na Terra Indígena Araribá, em Avaí (SP), o município mais indígena do estado, segundo dados do Censo 2022, realizado pelo Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).
Segundo o levantamento, 15,1% da população de Avaí é considerada indígena. São 677 indígenas em uma população de 4.483 pessoas. Neste Dia das Crianças, a estudante compartilha com o g1 o cotidiano que une tradição, convívio comunitário e o sonho de se tornar médica no futuro.
Na rotina da aldeia, as crianças combinam o uso da tecnologia com a liberdade de crescer em meio à natureza característica da terra indígena. O local abriga dezenas de famílias, e o contato entre os pequenos moradores é diário.
Lívia Vitória Lipu na escola da Aldeia Kopenoti em Avaí (SP)
Ana Cláudia Arruda/g1
Lívia conta que ela e os amigos, nos fins de semana e dias mais quentes, costumam ir aos pontos de encontro preferidos: o rio que passa pela região e o museu com a história do local.
“Andamos na aldeia, sempre nos vemos, vamos para o rio e ao museu. Nós gostamos de nadar e de ver os livros antigos do museu”, contou Lívia.
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A tecnologia também faz parte do cotidiano e ajuda a organizar os encontros. Os passeios são combinados por mensagens de celular, e a garota aproveita o tempo livre para se divertir na internet com jogos e vídeos.
Lívia Vitória Lipu e os amigos da escola da Aldeia Kopenoti em Avaí (SP)
Ana Cláudia Arruda/g1
Já nos fins de semana, as famílias costumam levar as crianças para passear em Duartina e Bauru, onde aproveitam para fazer compras, ir ao shopping e ao cinema.
“A última vez que fomos ao cinema foi para assistir ao novo filme do Homem-Aranha”, lembra a menina.
Brincadeiras tradicionais e a língua ancestral
Crianças da Aldeia Kopenoti durante brincadeira tradicional
Ana Cláudia Arruda/g1
A dinâmica da rotina escolar na Aldeia Kopenoti combina disciplinas tradicionais, como Matemática e Língua Portuguesa, com o ensino da cultura e dos costumes locais. Os professores utilizam elementos da cultura indígena no conteúdo como ao ensinar numerais em Matemática, por exemplo, inserem também os termos no idioma Terena.
Lívia estuda no período da tarde e contou que, toda quinta-feira, tem aula com o professor de língua indígena. Além do idioma Terena, os estudantes aprendem sobre danças, jogos e brincadeiras tradicionais.
Ao acompanhar a rotina das crianças na aldeia, a equipe do g1 registrou o aprendizado de técnicas como o disparo com zarabatana e a corrida com tronco, atividades que unem o resgate histórico da comunidade ao ato de brincar (veja no vídeo acima). Mas Lívia revelou que a brincadeira favorita da turma é a da ‘Ema’.
Lívia Lipu treinando o disparo com zarabatana na Aldeia Kopenoti, em Avaí
Ana Cláudia Arruda/g1
"Fazemos uma roda e damos as mãos. Uma pessoa tem que ser a ema e vai para o meio, mas todo mundo tem que ficar em silêncio para não assustar a ema e fazer com que ela volte. Quando ela entra, temos que fechar a roda, e ela tem que tentar escapar. Quem pegar a ema passa a ser a ema", explicou Lívia.
Para a garota, aprender o idioma Terena na escola vai além das notas: é uma forma de conexão direta com as próprias raízes e com a família.
"A língua indígena é importante porque eu quero falar com a minha avó. Minha avó e minha bisavó falam a língua Terena, e eu queria aprender a falar também."
Infância na aldeia x infância na cidade
A experiência de crescer em uma comunidade indígena tem um ritmo diferente da cidade. Segundo o cacique Chicão Terena, de 52 anos, o principal diferencial está no convívio coletivo e no fortalecimento dos laços entre os moradores.
“A rotina das crianças aqui é o dia a dia na escola, em casa, na aldeia, vivendo a cultura, a tradição e o meio ambiente. Todo mundo acaba sendo família por conviver junto”, destaca o cacique.
Cacique Chicão Terena e crianças no museu da Aldeia Kopenoti, em Avaí (SP)
Ana Cláudia Arruda/G1
O líder indígena explicou ainda que as professoras da escola também são mães de alguns alunos, e essa proximidade fortalece a participação dos jovens na comunidade.
A professora Pâmela Pio dos Santos, de 29 anos, mãe de três alunos da escola, ressalta que a principal diferença entre a infância na aldeia e na cidade está na união e no contato com a natureza.
"A principal diferença é o convívio em comunidade, de estar sempre junto. Na cidade cada um fica na sua casa e eles só se encontram na escola. Aqui eles vivem em comunidade o tempo todo. As crianças na cidade vivem só na frente de telas. Aqui não: vivem ao ar livre e convivem com a família e a comunidade inteira", aponta a professora.
Crianças da Aldeia Kopenoti no pátio da escola
Ana Cláudia Arruda/g1
O sonho do jaleco branco
Mesmo com raízes na terra e na cultura de seu povo, Lívia faz planos para o futuro e sonha em seguir a medicina.
“Quero ser médica porque acho legal. Além de usar a roupa branca, que acho muito linda, sonho em trabalhar em hospitais”, revelou a garota.
Aldeia Kopenti em Avaí (SP)
Ana Cláudia Arruda/g1
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