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Brinquedos de madeira resistem ao mundo digital, geram renda e conquistam novas gerações: 'Resgatar a cultura', diz artesã

Brinquedos de madeira resistem ao mundo digital, geram renda e conquistam novas gerações

G1 — Brasil · 2026-10-12T09:58:55.000Z

Brinquedos de madeira resistem ao mundo digital, geram renda e conquistam novas gerações

Enquanto telas disputam a atenção das crianças com luzes, sons e conexões instantâneas, os brinquedos de madeira seguem firmes, carregando nas formas simples a força da tradição. Feitos pelas mãos de artesãos e pequenos empresários que transformam matéria-prima em sustento, eles atravessam gerações, garantem renda para famílias de Sorocaba (SP) e mostram que, mesmo na era digital, a imaginação ainda encontra espaço para correr livre sobre rodas de madeira e memórias afetivas.

Ligia Buglia e o marido Bruno são parte da trupe que leva a brincadeira com a madeira muito a sério. Eles produzem brinquedos artesanais criativos e educativos feitos em pinus de reflorestamento, segundo ela, "com cuidado, afeto e responsabilidade ambiental", na Vila Leão.

"Então, eu e meu marido começamos a produzir brinquedos para os nossos filhos, também para estimulá-los no aprendizado. E desde então, já faz oito anos, não paramos mais de produzir brinquedos. Aqui, a gente produz de forma artesanal, como fazíamos com os nossos filhos, e hoje fazemos para os filhos de outras famílias", diz Ligia.

"É muito importante resgatar a cultura do brincar entre as crianças, já que hoje a gente compete muito com telas e outras informações atrativas."

Brinquedos de madeira resistem ao mundo digital, geram renda e conquistam novas gerações em Sorocaba (SP)

Dos filhos aos empreendedorismo

Ligia conta que tem dois filhos, hoje com 10 e 13 anos. "Mas começamos quando meu mais velho tinha cinco anos e precisava de alguns estímulos especiais para a terapia. Começamos produzindo para ele, depois para a terapeuta dele, depois para a clínica e não paramos mais", conta.

Com parceiros responsáveis por etapas específicas da produção, como o corte da madeira, e o auxílio de um funcionário, o casal transformou um desafio familiar em profissão.

"Trabalhar com artesanato é uma coisa que a gente nunca tinha imaginado na nossa vida. Eu venho da área de comunicação, meu marido da área administrativa, e a gente caiu de paraquedas nessa de fazer brinquedos, de trabalhar com madeira. E hoje em dia a gente não se enxerga sem isso. É uma satisfação, principalmente, ver as crianças brincando, sorrindo e explorando de formas diferentes."

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Para Ligia, os brinquedos artesanais ajudam a estimular a criatividade e a autonomia das crianças.

"A infância é um momento tão mágico, onde a gente brinca, se diverte, faz amigos e descobre um mundo imenso e aprende muito com isso. E hoje em dia, a gente observando os nossos filhos, percebeu que tava faltando um pouco do brincar sozinho, do brincar livre, de brinquedos que não brincavam sozinhos", afirma.

Carrinho de rolimã: despertando a nostalgia

Mas nem sempre a roda é de madeira. Em alguns casos, ela é de aço. Os carrinhos de rolimã, clássicos de décadas atrás em muitas cidades brasileiras, continuam despertando nostalgia e diversão. Em Sorocaba, eles também se transformaram na principal fonte de renda da família de Claudio Cristiano Mendes.

Trabalho com carrinho de rolimã vira atividade de família em Sorocaba (SP)

"Eu tive carrinho de rolimã quando era criança. Fiz carrinho de rolimã, depois a gente cresce e acaba esquecendo. Há uns 12 anos, encontrei quatro rolamentos guardados no porão de casa, que eu tinha comprado para fazer um carrinho para os meus filhos e nunca tinha usado. Resolvi montar um. Depois meu filho pediu outro para andar junto. Aí vieram os amigos, começaram a pedir também e alguns já queriam pagar para eu fazer", lembra.

Na época, Claudio trabalhava no setor de telefonia, onde permaneceu por 22 anos. O que começou como hobby foi ganhando proporções maiores.

"Eu comecei a fazer em 2014. Em 2016 já participava de eventos com a prefeitura de Sorocaba. Antigamente os carrinhos eram bem rústicos. Hoje eles mudaram bastante, têm mais acessórios. E eu faço isso porque é uma paixão."

Sustento da família 'descendo a ladeira'

Com o aumento da procura, a atividade deixou de ser apenas complementar. "De 2021 para cá, eu vivo só do carrinho de rolimã. A gente vende pela internet e participa de eventos em cidades como Campinas, Vinhedo, Ribeirão Grande, Sorocaba e Salto."

Além da fabricação, Claudio também trabalha com locação dos veículos para eventos. "Hoje eu tenho cerca de 50 carrinhos para aluguel nos fins de semana e mantenho entre 15 e 20 carrinhos prontos para venda."

Na produção, a madeira continua sendo a principal matéria-prima. "A tábua é de pinus, mas os eixos da frente e de trás são de cambará, que é uma madeira mais dura para aguentar o uso. O pinus é mais leve, mais fácil de trabalhar e deixa o carrinho mais leve também."

O empreendedor diz que jamais imaginou que a brincadeira se transformaria em negócio. "O carrinho de rolimã começou numa brincadeira. Foi crescendo, crescendo e virou comércio. Hoje é o que sustenta a nossa família, é o que paga as nossas contas."

Arte e diversão nos tronquinhos

Troncos de madeira são usados na fabricação de brinquedos em Sorocaba (SP)

A Beatriz Miguez mantém uma loja de brinquedos na Rua Barão de Cotegipe, na Vila Independência, em Sorocaba, onde também produz peças artesanais de madeira ao lado do companheiro, Fernando Barroso. O casal atua no segmento desde 2023 e, no ano seguinte, passou a desenvolver os chamados "brinquedos de tronquinhos", feitos a partir de materiais reaproveitados de podas de árvores.

"Fazemos vários brinquedos, que chamamos de brinquedos de tronquinhos, feitos com material de poda de árvore, galhos e troncos", conta Beatriz. Entre as criações estão piões, carrinhos, torres de encaixe, alinhavos, bonecos confeccionados com gravetos e o tradicional pé de toco.

A proposta vai além da produção artesanal. Desde que iniciaram o projeto, Beatriz e Fernando também promovem oficinas de construção de brinquedos em escolas, unidades do Sesc e outros espaços culturais. A ideia é mostrar às crianças que é possível transformar elementos simples da natureza em objetos de diversão, estimulando a criatividade e a imaginação.

Em um período em que celulares, videogames e outras tecnologias ocupam cada vez mais espaço na rotina infantil, os brinquedos de madeira surgem como uma alternativa que resgata brincadeiras tradicionais.

"Realizamos oficinas de construção de brinquedos em vários locais, como Sescs e escolas", afirma a artesã.

Além das peças produzidas pelo casal, a loja reúne trabalhos de outros artesãos. O espaço oferece bonecos de pano, brinquedos de crochê, fantasias e artigos de madeira feitos manualmente. Segundo Beatriz, a intenção é valorizar a produção artesanal e manter viva uma tradição que atravessa gerações, mostrando que, mesmo em um mundo cada vez mais digital, os brinquedos feitos à mão continuam encantando crianças e adultos.

Troncos de madeira são usados na fabricação de brinquedos em Sorocaba (SP)

Primeiros carrinhos de rolimã feitos por Claudio Cristiano Mendes, em Sorocaba (SP)

Brinquedos de madeira resistem ao mundo digital, geram renda e conquistam novas gerações em Sorocaba (SP)

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