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Planta nativa cresce perto de ninhal e dificulta reprodução de fragatas em Alcatrazes
G1 — Brasil · 2026-10-12T14:23:34.000Z
Planta nativa cresce perto de ninhal e dificulta reprodução de fragatas em Alcatrazes
Gabriel Pavan Sabino
Em setembro, o Terra da Gente participou de uma expedição embarcada ao Arquipélago de Alcatrazes, no litoral de São Paulo. Com autorização do ICMBio, nossa equipe desembarcou na Ilha de Alcatrazes, a principal do arquipélago, para fazer uma trilha e conhecer de perto parte da biodiversidade do local. Durante a subida, uma planta chamou a atenção por sua relação e os imapctos na reprodução das fragatas.
Com ramos compridos e espinhosos, ela crescia sobre árvores e arbustos, formando um emaranhado de folhas e galhos. Conhecida como limãozinho-bravo (Seguieria americana), a trepadeira é nativa do Brasil e ocorre naturalmente na própria ilha.
Mas por que uma planta que faz parte daquele ambiente precisa de manejo?
A resposta está na relação com uma das aves que vivem e se reproduzem em Alcatrazes. A Seguieria americana tem crescido de forma intensa nas proximidades do ninhal das fragatas (Fregata magnificens), cobrindo árvores utilizadas pelas aves para construir seus ninhos.
Conhecida como limãozinho-bravo (Seguieria americana), a trepadeira é nativa do Brasil e ocorre naturalmente na própria ilha
Gabriel Pavan Sabino
Com a vegetação mais fechada e os galhos entrelaçados, encontrar um local adequado para pousar e se reproduzir fica mais difícil.
O fenômeno é objeto de um estudo que investiga como a planta se tornou tão abundante em determinadas áreas da ilha e quais são as consequências dessa expansão para o ambiente.
A pesquisa tem como principal autor o biólogo e botânico Gabriel Pavan Sabino, doutorando no Programa de Pós-Graduação em Biologia Vegetal da Unicamp, e conta com a coorientação de Victor de Andrade Kamimura, biólogo e doutor em Ciências Biológicas, na área de Biologia Vegetal, pela Unesp.
A Seguieria tem crescido de forma intensa nas proximidades do ninhal das fragatas, cobrindo árvores utilizadas pelas aves para construir seus ninho
Gabriel Pavan Sabino
O trabalho também aponta que o manejo seletivo pode ajudar a recuperar espaços utilizados pelas fragatas, sem que seja necessário eliminar uma espécie nativa.
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Como uma planta nativa se tornou dominante?
Para entender o avanço da Seguieria americana em Alcatrazes, é preciso olhar para a história de ocupação humana da ilha. A região onde hoje está o ninhal fica na porção oeste do arquipélago, que passou por mudanças na vegetação ao longo do tempo.
Na década de 1910, a instalação de casas para faroleiros e a abertura de áreas para cultivos de subsistência, como cana-de-açúcar, banana e mandioca, modificaram o ambiente. A retirada da vegetação original pode ter aberto espaço e alterado as condições para o crescimento de determinadas espécies.
Estudos indicam que expansão da planta esteja associada com a superdominância e o histórico de perturbações humanas na região
Gabriel Pavan Sabino
Outro fator é a extração histórica de guano, material formado pelo acúmulo das fezes das aves e utilizado como fertilizante. Essa atividade retirou nutrientes do ambiente insular. Com o fim da exploração, esses nutrientes voltaram a se acumular no solo.
Segundo Gabriel Pavan Sabino, os dados não permitem apontar um único acontecimento como responsável pela expansão da planta. O que a pesquisa encontrou foi uma associação entre a superdominância e o histórico de perturbações humanas na região.
“Então, talvez seja mais preciso pensar em uma sequência de eventos e alterações, e não em um único gatilho histórico”, afirma.
O Arquipélago de Alcatrazes fica a cerca de 35 km a 40 km da costa de São Sebastião, no litoral norte de São Paulo
Gabriel Pavan Sabino
A pesquisa identificou que a Seguieria ocorre em densidades muito altas nas áreas com histórico de perturbação humana, enquanto aparece de forma esparsa em locais sem esse histórico recente.
Registros de expedições científicas realizadas entre 1920 e 2017 também ajudam a compreender o fenômeno. A espécie não foi registrada com a mesma abundância observada atualmente, o que sugere que a expansão intensa é relativamente recente.
Para Gabriel, o ponto central não é a origem da planta, mas a forma como ela passou a ocupar o ambiente.
“Usamos o termo ‘superdominância’ para diferenciar esse fenômeno da invasão por plantas exóticas. Estamos dizendo que, naquele contexto específico, uma espécie nativa tornou-se dominante a ponto de alterar a estrutura da comunidade e afetar outros grupos de espécies”, explica.
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Por que a trepadeira dificulta a reprodução das fragatas?
As fragatas são aves marinhas de grande porte, com envergadura superior a dois metros. Apesar do tamanho, têm pernas muito curtas, o que dificulta a locomoção em superfícies irregulares.
Por isso, dependem de locais adequados nas copas de árvores e arbustos para pousar, decolar e construir os ninhos. As partes superiores da vegetação, quando apresentam espaços mais abertos e relativamente planos, oferecem condições favoráveis para a reprodução.
Em Alcatrazes, porém, a Seguieria cresce como uma trepadeira espinhenta e pode cobrir completamente a copa de outras plantas. Seus ramos longos e entrelaçados transformam a estrutura da vegetação e reduzem os espaços disponíveis para as aves.
A Seguieria cresce como uma trepadeira espinhenta e reduz os espaços disponíveis para as aves se reproduzirem
Gabriel Pavan Sabino
“Na prática, é como se a planta transformasse uma árvore que funcionava como uma espécie de ‘plataforma’ em uma superfície muito mais irregular e difícil de utilizar”, explica Gabriel.
Entre as plantas utilizadas pelas fragatas para nidificação na ilha estão o feijão-bravo (Cynophalla flexuosa), a maria-mole (Guapira opposita) e a figueira (Ficus luschnathiana). No levantamento realizado pelos pesquisadores, foi encontrado apenas um ninho diretamente sobre a Seguieria.
O estudo identificou uma relação negativa entre a área ocupada pela trepadeira e a presença de ninhos. Em outras palavras, quanto maior a ocupação pela planta, menor tende a ser a presença de ninhos nas áreas analisadas.
As fragatas também influenciam o crescimento da planta
A relação entre a vegetação e as aves envolve outro elemento importante: os nutrientes transportados do oceano para a ilha.
As fragatas se alimentam no mar e levam parte dos nutrientes para o ambiente terrestre por meio do guano. Esse material fertiliza o solo e contribui para a dinâmica da vegetação.
Nas áreas sob os ninhos, os pesquisadores encontraram concentrações significativamente maiores de nutrientes, especialmente nitrogênio e fósforo. Esse enriquecimento pode ter contribuído para favorecer o crescimento da Seguieria em uma região que já havia passado por alterações humanas.
A fragata é uma grande ave marinha que forma um de seus maiores ninhais do Brasil no Arquipélago de Alcatrazes
Gabriel Pavan Sabino
Surge, assim, uma relação complexa. As fragatas enriquecem o solo com nutrientes, mas a vegetação favorecida por essas condições pode dificultar a construção de novos ninhos.
“Isso criou uma situação curiosa, em que as próprias fragatas, ao adubar o solo, poderiam estar favorecendo a planta que dificulta a construção de seus ninhos”, explica Gabriel.
Os possíveis impactos não se limitam à reprodução das aves. Uma eventual redução do ninhal poderia diminuir a transferência de nutrientes do oceano para a ilha e afetar outros processos ecológicos. Os pesquisadores ressaltam, entretanto, que esse efeito em cascata ainda precisa ser investigado.
Manejo seletivo recuperou espaço para os ninhos
Diante desse cenário, os pesquisadores testaram uma intervenção para avaliar se a retirada da trepadeira poderia recuperar as condições de nidificação.
O experimento foi realizado em uma figueira que estava completamente coberta pela Seguieria e não apresentava ninhos. A equipe removeu a trepadeira da copa para recuperar a estrutura original da árvore.
Equipe de campo na Ilha de Alcatrazes
Gabriel Pavan Sabino
O resultado indica que a retirada da planta pode favorecer a ocupação de árvores pelas fragatas. De acordo com Victor de Andrade Kamimura, doutor em Ciências Biológicas pela Unesp, o experimento trouxe um resultado promissor, mas ainda é preciso cautela, já que o teste foi realizado em apenas uma árvore.
“Depois de 25 semanas, registramos nove ninhos de fragatas nessa figueira. O resultado indica que a retirada da trepadeira pode recuperar condições adequadas para pouso, decolagem e nidificação, mas ainda precisamos de outros estudos para entender como esse manejo pode ser aplicado em uma área maior”, explica Victor.
A proposta não é eliminar a Seguieria da ilha, mas realizar intervenções pontuais onde a relação entre a superdominância da planta e a perda de locais de nidificação esteja bem estabelecida.
Retirada da trepadeira pode recuperar condições adequadas para pouso, decolagem e nidificação das fragatas
Gabriel Pavan Sabino
Também é necessário acompanhar as áreas manejadas para verificar como a vegetação se recupera e evitar que outras plantas, inclusive espécies exóticas presentes na ilha, ocupem o espaço aberto pela intervenção.
Por isso, o resultado obtido na figueira representa um primeiro indicativo de que o manejo pode funcionar, e não uma recomendação para retirar a trepadeira de todas as árvores.
Drones ajudaram a mapear a relação entre planta e ninhos
Além do experimento em campo, os pesquisadores utilizaram drones para analisar a distribuição da Seguieria e dos ninhos em uma área de aproximadamente meio hectare.
As imagens de alta resolução permitiram classificar diferentes tipos de cobertura vegetal, distinguindo áreas com e sem superdominância da trepadeira e locais ocupados por ninhos.
A classificação apresentou 88% de acurácia geral e revelou uma relação negativa entre a presença da planta em grande quantidade e a ocorrência de ninhos.
Objetivo dos pesquisadores é recuperar condições adequadas para a reprodução das fragatas sem retirar a Seguieria de seu ambiente natural
Gabriel Pavan Sabino
A tecnologia foi especialmente útil pelas características do arquipélago. Em um ambiente isolado, íngreme e sensível, o uso de drones permite observar áreas extensas sem a necessidade de acessar fisicamente todos os pontos, reduzindo as dificuldades de levantamento em campo.
O mapeamento também ajuda a direcionar possíveis ações de manejo para os locais em que elas podem trazer benefícios à reprodução das aves.
Conservar não significa eliminar uma espécie nativa
O caso de Alcatrazes mostra que o manejo ambiental exige uma análise das relações entre as espécies e das transformações pelas quais um ecossistema passou.
Uma planta nativa pode se tornar dominante em determinadas condições, mas isso não significa que deva ser tratada automaticamente como uma espécie invasora ou que precise ser eliminada.
“Conservação não pode funcionar apenas com uma divisão simples entre ‘espécies boas’ e ‘espécies ruins’”, afirma Gabriel.
A visita embarcada ao Arquipélago de Alcatrazes só pode ser feita com operadoras de turismo ou condutores credenciados pelo ICMBio
Gabriel Pavan Sabino
Para o biólogo, é necessário compreender por que a planta passou a ocupar tanto espaço e quais consequências essa mudança provoca. Quando há evidências de que perturbações humanas alteraram a dinâmica do ambiente e comprometeram outras funções ecológicas, o manejo seletivo pode ser uma alternativa.
No caso de Alcatrazes, o objetivo é recuperar condições adequadas para a reprodução das fragatas sem retirar a Seguieria de seu ambiente natural.
“O que o nosso estudo sugere não é erradicar a Seguieria. É recuperar uma condição em que ela volte a fazer parte da comunidade sem impedir que outras espécies e processos ecológicos também aconteçam”, conclui Gabriel.
A pesquisa reforça a importância de considerar o funcionamento do ecossistema como um todo, especialmente em ilhas, onde alterações localizadas podem repercutir sobre diferentes componentes da biodiversidade.
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