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Advogada de Buzzi contesta denúncias de assédio sexual e diz que registros de entrada no STJ contradizem acusações

🚨⚠️AVISO: esta reportagem contém relatos de assédio e importunação sexual, cuja leitura pode causar desconforto.

G1 — Brasil · 2026-07-28T17:12:48.000Z

🚨⚠️AVISO: esta reportagem contém relatos de assédio e importunação sexual, cuja leitura pode causar desconforto.

Relembre decisão do STJ que afastou Marco Buzzi, ministro da Corte acusado de assédio e importunação sexual

Acusado de assédio e importunação sexual por duas mulheres, o ministro afastado Marco Buzzi, do Superior Tribunal de Justiça (STJ), será julgado pelo plenário da Corte na próxima quinta-feira (6). O STJ vai analisar um processo administrativo que pode resultar no afastamento definitivo de Buzzi do cargo.

Duas denúncias contra o magistrado estão em análise:

uma jovem de 18 anos afirma ter sido vítima de importunação sexual, durante um banho de mar, em janeiro de 2026, quando passava férias com a família na casa de Buzzi em Balneário Camboriú (SC); e

uma ex-funcionária de gabinete relatou episódios reiterados de assédio sexual e importunação cometidos enquanto trabalhava na equipe do magistrado no STJ.

Em paralelo, Buzzi é alvo de dois inquéritos criminais no Supremo Tribunal Federal (STF): um sob suspeita de importunação sexual, por causa desses mesmos fatos, e outro sob suspeita de envolvimento em um esquema de venda de sentenças.

Em sua primeira entrevista desde que o caso de assédio veio a público, a advogada de Buzzi, Maria Fernanda Saad Ávila, contesta as acusações e afirma que há contradições nos depoimentos das testemunhas de acusação.

Maria Fernanda tem visitado os gabinetes dos ministros do STJ nesta semana para apresentar os argumentos da defesa.

Uma das principais alegações é que Buzzi não ficou sozinho em seu gabinete com a ex-funcionária que o acusa. Sobre o episódio que teria ocorrido no litoral de Santa Catarina, a defesa afirma que o ministro tem dificuldades de locomoção e precisou de auxílio no mar.

Leia a entrevista com a advogada de Buzzi a seguir:

A advogada Maria Fernanda Saad Ávila, que defende o ministro afastado do STJ Marco Buzzi

g1 — As denúncias das duas mulheres já são conhecidas: uma jovem afirma ter sido tocada dentro do mar, em Santa Catarina, e uma ex-funcionária do gabinete relatou episódios de toques e insinuações. Houve algum contato entre o ministro e elas que possa ter gerado, na visão dele, algum desentendimento? Ou ele nega a existência de qualquer contato físico?

Maria Fernanda Saad Ávila — Ele nega a existência de qualquer contato da natureza que foi apresentada na denúncia. Em relação à primeira denunciante, houve um contato de auxílio para entrada e saída do mar de mãos dadas, e tão somente isso.

Por que ele precisava de auxílio para entrar no mar?

Ele tem dificuldades motoras. Quem já o viu sabe que ele usa bengala, além de uma palmilha por ter o encurtamento de uma perna. Especialmente na praia, em que ele não faz uso de nenhum desses dois auxílios, ele geralmente... É uma coisa que parte até das pessoas que estão caminhando com ele. A própria denunciante descreve outras idas ao mar, em dias anteriores, em que o auxiliou para entrar [no mar] por causa da dificuldade.

A denunciante diz que não houve apenas o auxílio, mas que ele a puxou para perto do corpo dele e tocou suas nádegas. O que ele diz sobre isso?

Ele nega essa afirmação e eu estou convicta quanto à inocência dele. Sobre essa descrição feita por ela, vale eu abordar a questão do laudo médico que tem saído na mídia. Foi juntado um laudo de disfunção erétil. E tem saído de uma forma como se fosse um trunfo da defesa, dizendo que não poderia ocorrer assédio por causa da disfunção erétil. Esse laudo cumpre uma função, que não é provar que não pode ter ocorrido uma situação de assédio, mas é provar que o que ela descreveu é impossível: ninguém pode ter sentido um pênis ereto de alguém que tem disfunção erétil.

Já a segunda denunciante relata sete situações em que o ministro teria tocado ou estapeado as nádegas dela e feito insinuações de cunho sexual.

Essas situações não ocorreram. Sobre os dois primeiros fatos descritos como tendo ocorrido no primeiro semestre de 2023, entre 8h e 10h, quando ela e o ministro estariam sozinhos [no gabinete], nós conseguimos fazer uma agenda diária, de 1º de janeiro até 31 de julho, em que pudemos comprovar que ou ela não estava no gabinete — porque ela se ausentou por quatro meses nesse semestre [por motivos de saúde] — ou ele não estava, por causa do recesso ou de viagens comprovadas. As provas que mais auxiliaram a defesa foram as catracas [que registram quem entrou no prédio do STJ].

A defesa está afirmando que não há possibilidade de os fatos terem ocorrido porque o ministro e a ex-funcionária terceirizada não ficaram juntos no gabinete?

Nos dois primeiros episódios, o da biblioteca e o da despensa, sim. [Veja detalhes e a dinâmica dos episódios aqui.]

E no episódio em que a ex-funcionária diz que levou um tapa nas nádegas enquanto andava? Ela diz que aquele foi o dia em que ela se sentiu mais ofendida.

Esse é o episódio do corredor, que ela situa em meados de 2024. Sobre esse fato, ela descreve que eles estavam sozinhos. No corredor da assessoria, ele teria se certificado de que não havia ninguém no gabinete e feito o que ela descreveu. A primeira constatação sobre isso, feita com as catracas, é que eles não estavam sozinhos no gabinete, muito menos na assessoria jurídica, que estava repleta de pessoas. Dessas pessoas, nenhuma viu ou ouviu nada.

Sobre esse caso específico, o que se tem de prova da acusação seriam duas testemunhas. Porém, essas testemunhas relatam outra situação em outro local. Uma dessas testemunhas relata que o ministro estava indo ou saindo do banheiro, cruzou com a denunciante no corredor, e ali ele teria feito algo inadequado. Então, a testemunha situa num local diferente do que a denunciante situa, e descreve uma dinâmica diferente. E há também uma outra testemunha de acusação que foi desacreditada, por contradições e falso testemunho.

Por que a senhora diz que houve falso testemunho?

Por duas questões: primeiro, essa testemunha diz que o ministro "geralmente" entrava entre 8h e 8h30 no gabinete, para fazer eco com o que se tem na denúncia — de que ele ficava sozinho com a denunciante de manhã. Quando começou a instrução do processo, nós conseguimos os registros do ministro chegando no tribunal, por meio do grupo de WhatsApp dos funcionários, em que avisavam "o ministro chegou, o ministro está subindo". Assim, conseguimos mostrar que ele chegava à tarde. Diante disso, a testemunha foi questionada e mudou: "Eu não disse que ele chegava todo dia [no período da manhã]". Mas a testemunha usou a expressão "geralmente", o que se supõe que seja algo constante. Depois, ela disse que não era a regra, era "excepcionalmente" que o ministro chegava às 8h.

Além disso, essa testemunha disse que, quando soube [do assédio], passou a chegar mais cedo para que a funcionária não ficasse sozinha no gabinete. Mas, quando pegamos as catracas dessa testemunha, vimos que o único período em que ela ingressa mais cedo, às 8h — em vez das 9h ou 10h, que era o horário dela —, foi justamente nos quatro meses em que a denunciante se ausentou [por motivos de saúde], para cobrir o horário dela. Não tem nenhum outro dia, além desse período, em que essa testemunha foi trabalhar mais cedo.

Dois funcionários do gabinete — um rapaz e uma senhora — confirmam que a ex-terceirizada relatava para eles ter tido problemas com o ministro ao mesmo tempo em que esses fatos aconteciam, entre 2023 e 2025. Por que razão dois funcionários confirmariam esses relatos da ex-funcionária se eles não fossem reais?

Não vou fazer um juízo de valor sobre por que eles fizeram isso, mas posso te responder que eles prestaram falso testemunho também em relação a isso. Essa senhora, que você menciona, disse que soube dos fatos em 2023 e que, logo que ela recebeu o relato, também passou a chegar mais cedo. Mas, na audiência de instrução, essa testemunha disse que passou a chegar mais cedo somente em 2025. Para mim, fica demonstrado que não foi contemporâneo que ela soube dos fatos.

E no caso do rapaz?

Esse rapaz é o mesmo que disse que mudou de horário quando soube [dos fatos] para que a funcionária não ficasse sozinha. E, com as catracas, ficou demonstrado que ele só mudou de horário no período em que ela se ausentou, em 2023. Nesse período, a funcionária saiu para fazer um procedimento [médico] no pé. Ela fica ausente em abril, maio, junho e julho. As catracas demonstram que ela não ingressa no STJ, apesar de a folha de ponto ter sido falsamente preenchida colocando-a dentro do gabinete nesses quatro meses. A verdade é que ela não ingressou.

Quem teria falsificado a folha de ponto e com qual finalidade?

Não sei com qual finalidade. O que se tem é uma ausência [da então funcionária] nos registros da catraca e uma presença na folha de ponto, que foi preenchida e assinada pela denunciante e pela chefia dela — que é uma das testemunhas de acusação. Isso foi feito ainda lá atrás [em 2023, antes do atual processo de assédio].

A defesa está explorando contradições e possíveis erros da denunciante e das testemunhas para sustentar que os episódios de assédio não existiram. Insisto em perguntar: haveria um complô contra o ministro? Por que razão as pessoas iriam combinar um depoimento para prejudicá-lo?

Também vou insistir na minha resposta de que não me sinto confortável de fazer ilações. O que posso afirmar, sem estar no campo do subjetivismo, é que essas provas que dizem ser contemporâneas não existiram. Tudo vem no final do ano de 2025.

Também há um encontro da mãe da primeira denunciante [a jovem da praia] com a principal testemunha de acusação da segunda denunciante [a ex-funcionária]. Esse encontro ocorreu no corredor do STJ, em frente ao gabinete, como mostra a câmera do tribunal. Além disso, já se sabia, nos bastidores, que existiria uma segunda denúncia logo quando a primeira ainda estava sendo feita, o que sugere comunicação [entre os envolvidos].

Em que fase está o processo e o que a defesa tem feito?

As alegações finais foram apresentadas pela acusação e pela defesa. Nós estamos agora apresentando memoriais para os ministros, indo aos gabinetes.

Veio a público na semana passada que o ministro Buzzi também é investigado no STF por suposta venda de sentenças. Uma filha dele já havia sido investigada.

Formalmente, não recebemos nenhuma informação de que ele esteja sendo investigado. Tudo o que sabemos é veiculado na mídia. O trabalho de familiares é feito por familiares, o ministro nem poderia atuar em causas de familiares seus. Portanto, ele não tem conhecimento. Essa é uma investigação já antiga e ele nunca foi, preteritamente, investigado ou chamado a prestar informações sobre isso.

Ministro do STJ Marco Buzzi

Luiz Silveira/Agência CNJ

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