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Áudios revelam grupo de PMs financiados por garimpeiros ilegais da Terra Yanomami em Roraima: 'patrão manda PIX'

Áudios revelam grupo de PMs financiados por garimpeiros ilegais na Terra Yanomami

G1 — Brasil · 2026-07-29T09:00:09.000Z

Áudios revelam grupo de PMs financiados por garimpeiros ilegais na Terra Yanomami

Áudios inéditos revelam a atuação de um grupo criminoso de policiais militares que era financiado por garimpeiros ilegais que atuam na Terra Indígena Yanomami. Os agentes recebiam transferências financeiras de criminosos para executar desafetos e acompanhavam prisões de conhecidos de dentro do próprio quartel da Polícia Militar (PM).

Em nota, Polícia Militar informou que o Conselho de Disciplina instaurado contra os agentes garante o direito deles à ampla defesa. Enquanto isso, os policiais ficarão afastados das atividades e, ao final da apuração, poderão ser expulsos da corporação, "caso sejam constatadas incompatibilidades para o exercício da função".

A defesa do policial Everson Brasil negou a participação dele no assassinato e destacou que o laudo de balística já descartou o uso da arma do militar no crime. O agente também nega a acusação de monitoramento da vítima antes da execução. A defesa ressalta que o Conselho de Disciplina é apenas um procedimento administrativo padrão e não representa uma condenação antecipada.

O g1 tenta localizar a defesa os demais citados na reportagem.

As gravações fazem parte da investigação do Departamento de Inteligência (Deint), da Secretaria de Segurança Pública (Sesp) e da Delegacia-Geral de Homicídios (DGH). Os arquivos mostram um esquema no qual os militares prestavam suporte logístico e serviços de pistolagem para grupos na disputa pelo controle das áreas de garimpo. Ouça no vídeo acima.

Os arquivos detalham a relação financeira dos policiais com os garimpeiros. Em uma das conversas, Starley relata a Everson Brasil que as despesas do grupo eram custeadas pelo empresário e suspeito de tráfico de drogas Lidivan Santos dos Reis. O empresário, chamado de "Patrão" nos áudios, é apontado como chefe do garimpo e mandante do assassinato de José Roberto.

"Nós temos que fazer essa p* amanhã de um jeito ou de outro, porque pelo menos o patrão dele já manda o Pix para nós, a gente tora essa p* aí e já se alivia", afirma o sargento Starley na gravação, em referência à emboscada armada contra José Roberto.

As despesas do grupo incluíam combustível e manutenção de veículos, e o endividamento mantinha as ações do grupo ativas. Em outro áudio, Starley condiciona a data do assassinato ao pagamento de empréstimos feitos com colegas de farda do grupo criminoso.

"Eu já vou passar o dinheiro do Anemésio que estou devendo (...). Aí amanhã eu vou vir fazer aquela situação 'mais' o [Everson] Brasil à noite, para ver se dá certo", planejou o sargento.

O esquema começou a ser desvendado três dias após o crime, quando o sargento Starley foi abordado dirigindo um veículo com as mesmas características do carro usado no homicídio. A extração de dados do celular dele revelaram todo o planejamento da execução.

As mensagens mostram Starley em busca de armas não rastreáveis e planejando usar a viúva de um ex-membro do grupo para atrair a vítima para uma emboscada. O sargento Anemésio também aparece nas conversas se oferecendo para a ação. "Arrumou o 3º homem? Não me cabe aí na missão? Quanto pra cada?", questionou. Starley responde de forma direta: "É 50 mil o serviço".

Oficiais da PM determinaram o afastamento de Anemésio, Starley e Everson das funções. A polícia também solicitou uma junta médica para avaliar a condição física e psicológica de cada um. Anemésio já cumpre pena no controle prisional da instituição por outras razões.

Apesar disso, Starley responde em liberdade. A reportagem apurou que ele chegou a trabalhar no monitoramento de câmeras na Secretaria de Segurança Pública (Sesp). Atualmente, segundo o a PM, ele está afastado do serviço policial operacional. Os policiais prestaram depoimento a conselhos disciplinares recentemente.

Sargentos Anemésio da Cunha e Starley Vieira negociam execução de ex-comparsa do grupo financiado pelo garimpo em Roraima.

Infiltração nos quartéis

Além do suporte armado, o grupo usava a estrutura da PM para acompanhar os passos da Justiça contra aliados. Segundo a investigação, o sargento Starley usava o Comando de Policiamento da Capital (CPC) como base para monitorar mandados de prisão contra militares.

O alvo de um desses monitoramentos foi o capitão Helton John Silva de Souza, de 48 anos, preso em 10 de maio de 2024 por suspeita de envolvimento no assassinato de um casal de agricultores no interior de Roraima.

Em um dos áudios, Starley detalha a presença do capitão no quartel, antes de a ordem de prisão se tornar pública.

"O capitão Helton estava aqui por volta de 11h. Ficou por aqui esperando o advogado dele. Quando ele foi embora, caiu na mídia que foi decretada a prisão (...) agora ele não tem pra onde correr não, vão segurar ele", lamentou Starley em mensagem de voz a um comparsa. "Ele estava aqui no CPC agora a pouco falando com a gente", completa.

Apesar de ser citado nesta mensagem, nos documentos aos quais o g1 teve acesso, não há qualquer evidência de relações entre o capitão Helton John e o grupo de PMs investigados.

Infográfico mostra ligação entre mandante do crime e PMs investigados por assassinato; grupo ainda contava com informantes.

Mandante e a conexão no garimpo

O garimpeiro Lidivan Santos dos Reis encomendou a morte de José Roberto ao grupo após descobrir sobre as delações à polícia. O mandante comandava a extração ilegal de ouro na área conhecida como "Garimpo do Pupunha" e possui histórico de prisões com armas pesadas.

Para concretizar o crime, o garimpeiro contou com o ex-policial militar Gilson Viana Gomes, conhecido como Mutum. Ele morreu em dezembro de 2024 dentro de uma região de garimpo ilegal na Terra Yanomami.

Mutum, que possuía acusações de envolvimento em pelo menos 12 assassinatos em Roraima, repassou as informações sobre a rotina de José Roberto aos atiradores, enquanto o dinheiro era transferido diretamente por Lidivan Santos dos Reis (o 'Patrão') para custear o crime.

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