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Nossa série especial mostra cidades que investiram na prevenção de desastres ambientais
G1 — Brasil · 2026-07-29T23:23:35.000Z
Nossa série especial mostra cidades que investiram na prevenção de desastres ambientais
Uma cidade que cresceu em torno de um rio, como tantas outras no Brasil, decidiu mudar de rumo após sucessivas tragédias.
Muçum, no Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, nunca mais foi a mesma depois de enfrentar três enchentes em um intervalo de apenas oito meses, entre setembro e novembro de 2023 e maio de 2024.
"As três últimas eu perdi tudo, tudo, tudo. Saímos eu e ele com a roupa do corpo", relembra a dona de casa Teresa da Silva de Almeida, de 75 anos.
A pior enchente ocorreu em 2024, durante a maior tragédia climática da história do Rio Grande do Sul.
"Começou a entrar água na cozinha, começou a desabar a garagem, desabar a outra garagem. Aí começou a desabar a cozinha e no fim foi a casa toda. Desmanchou. E daí a gente caiu dentro do rio", contam os agricultores Raul e Janete Zilio.
Cerca de 80% da área urbana de Muçum ficou debaixo d'água. Ao todo, 350 construções foram condenadas. A enchente também destruiu o cemitério da cidade, que tinha cerca de 3 mil jazigos.
No auge da cheia, o Rio Taquari subiu 26 metros, um nível nunca registrado anteriormente. A força da água destruiu uma rodovia inteira. A única estrutura autorizada a ser reconstruída no mesmo local foi uma ponte.
Imagens de satélite registraram a dimensão da devastação.
Cidade proibiu reconstrução em área atingida
Após a tragédia, a prefeitura adotou uma medida considerada incomum no país: proibiu novas construções na área mais impactada pelas enchentes.
"Decisão nossa: vamos tirar essas famílias da água. Fica melhor para o município e para as pessoas também", afirma o prefeito Amarildo Baldasso (PSD).
A cidade que proibiu a reconstrução após enchentes.
A área mais atingida será transformada em um parque ecológico de 200 mil metros quadrados, com solo permeável e espaços de lazer.
A expectativa é que, em uma futura enchente — considerada inevitável pelos especialistas —, os prejuízos sejam muito menores.
Todas as construções localizadas na região mais afetada já foram demolidas, com exceção de um prédio de quatro andares que ainda será derrubado. As famílias aguardam a construção de novas moradias em locais distantes do rio.
"Eu só vou descansar minha cabeça quando eu entrar na casa onde não vai água", diz a aposentada Cleci Maria.
Alguns moradores já conseguiram se mudar.
Há cinco meses, a dona de casa Sérgia Fernandes passou a viver em um condomínio construído longe do Rio Taquari.
"Onde eu morava não tinha mais como reconstruir, era tudo área de risco. Não tinha como fazer mais nada ali. Valeu a pena? Muito!", afirma.
Empresas também receberam incentivos para mudar de endereço.
"Temos 15 anos para pagar o terreno num valor bom porque, queira ou não queira, a valorização nos lugares seguros da cidade foi muito alta", diz o empresário Cleber Pasqualetto.
Além de Muçum, outros seis municípios da região discutem transformar em lei a proibição de reconstruir em áreas devastadas pelas enchentes.
Brasil ainda investe mais em reconstrução do que em prevenção
A estratégia adotada por Muçum ainda está longe de ser regra no país.
Segundo um relatório do Tribunal de Contas da União (TCU), o Brasil gastou, nos últimos 15 anos, três vezes mais com reconstrução do que com prevenção de desastres.
Entre 2012 e 2026, foram destinados R$ 34,36 bilhões para ações de resposta e recuperação, contra R$ 9,62 bilhões para prevenção.
"A preocupação maior sempre é sair de um socorro para outro. O planejamento da prevenção requer ações muito mais estruturantes, de médio e longo prazo", afirma Fábio Augusto de Amorim, auditor do TCU.
Especialistas defendem adaptação às mudanças climáticas
Diante da intensificação dos eventos extremos, especialistas apontam a adaptação como uma das principais estratégias para reduzir impactos.
"Adaptar é você poder evitar que exista o impacto da mudança climática, o impacto direto, e que a gente tenha o menor tipo de prejuízo possível para as pessoas", afirma Tasso Azevedo.
O climatologista Carlos Nobre destaca que milhões de brasileiros vivem em áreas vulneráveis a enchentes e deslizamentos.
"Os estudos mostram que não pode manter essa população", afirma.
Dados do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden) indicam que mais de 10 milhões de brasileiros vivem em áreas de risco.
Segundo Regina Alvala, diretora do órgão, a preparação das cidades se tornou indispensável.
"Cada vez mais se faz fundamental que as cidades se preparem, os estados se preparem, a União se prepare para dar conta de um planeta mais aquecido, com eventos extremos mais frequentes e intensos", diz.
Petrópolis enfrenta desafio diferente
Se em Muçum a estratégia foi retirar moradores das áreas mais vulneráveis, em Petrópolis, na Região Serrana do Rio de Janeiro, a situação é mais complexa.
Nos últimos 15 anos, a cidade registrou 430 mortes provocadas por deslizamentos e enchentes. O número de desabrigados e desalojados ultrapassou 28 mil pessoas.
Mesmo assim, cerca de um quarto da população ainda vive em áreas de risco. São aproximadamente 72 mil moradores.
O prefeito Hingo Hammes (PP) afirma que o problema não é apenas financeiro.
"Não é um problema só de dinheiro. É um problema de geografia também e do histórico", afirma.
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Moradora da cidade desde a infância, Michelle de Souza convive diariamente com a insegurança.
"É uma situação que a gente fica temerosa, porque a gente tem que conviver com tudo isso", diz.
Ela resume a preocupação de milhares de brasileiros que vivem em áreas vulneráveis.
"A gente não sabe o que a natureza tem preparado para a gente."