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Vendaval no RJ: especialistas explicam por que rajadas de ventos fortes estão mais difíceis de prever

Vendaval no RJ: especialistas explicam por que rajadas de ventos fortes estão mais difíceis de prever

G1 — Brasil · 2026-07-30T23:13:09.000Z

Vendaval no RJ: especialistas explicam por que rajadas de ventos fortes estão mais difíceis de prever

O vendaval que atingiu o Rio de Janeiro na quarta-feira (29) surpreendeu moradores e autoridades. Rajadas de vento superiores a 100 km/h provocaram mortes, derrubaram árvores, destelharam casas e causaram transtornos em diferentes pontos do estado.

Mas por que um fenômeno tão intenso não foi previsto com antecedência? E por que não houve um alerta antes do início da ventania?

Meteorologistas e pesquisadores ouvidos pelo RJ2 explicam que eventos extremos, especialmente os associados a rajadas de vento muito fortes, são mais difíceis de prever com precisão. Segundo os especialistas, além de modelos meteorológicos mais sofisticados, é necessário ampliar a rede de radares e contar com equipes treinadas para interpretar rapidamente os dados e transformar as informações em alertas.

A ventania registrada na quarta-feira é classificada pelos especialistas como um fenômeno climático extremo.

"É um fenômeno raro, especialmente nesta época do ano, mas fundamentalmente pelos impactos que ele causou. Provocou mortes, derrubou árvores e destelhou casas. Então é um fenômeno extremo, sem dúvida", afirmou Marcelo Seluchi, coordenador-geral do Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Segundo os meteorologistas, o fenômeno foi provocado por uma frente de rajada, associada ao encontro e à interação entre massas de ar com características diferentes. A formação de uma linha de cisalhamento do vento contribuiu para a intensificação das rajadas.

Os especialistas ouvidos pelo RJ2 também apontam uma possível relação do episódio com condições atmosféricas associadas ao El Niño.

A intensidade do fenômeno e o período do ano em que ocorreu também surpreenderam a Prefeitura do Rio.

O alerta da Defesa Civil municipal foi enviado às 16h40, quando a ventania já havia começado.

Em entrevista ao RJ1, o prefeito Eduardo Cavaliere afirmou que as previsões disponíveis até então indicavam ventos fortes, mas em uma intensidade bem menor do que a registrada.

Segundo ele, informações de 11 estações meteorológicas apontavam para ventos de até 60 km/h ou 70 km/h. Na prática, as rajadas ultrapassaram os 100 km/h.

"O que aconteceu ontem foi: essa previsão desses institutos de meteorologia, das 11 estações, falavam em ventos fortes, de até 60, 70 quilômetros por hora. E a gente teve um verdadeiro vendaval. Um temporal de mais de 100 km/h, que acho que surpreendeu inclusive os meteorologistas", afirmou Cavaliere.

Por que é tão difícil prever ventos extremos?

A previsão de chuvas intensas costuma contar com uma série de informações obtidas por satélites, estações meteorológicas e radares. Para ventos muito fortes, porém, a precisão depende de uma observação mais detalhada da atmosfera e da capacidade de acompanhar a evolução do fenômeno em tempo real.

Em países com redes meteorológicas mais estruturadas, radares são conectados a sistemas de computação de alto desempenho. Os dados são processados e interpretados por equipes especializadas, que conseguem identificar mudanças nas condições atmosféricas e emitir alertas com maior antecedência.

No Brasil, os especialistas apontam que ainda há limitações importantes nessa estrutura.

O Brasil possui aproximadamente 40 radares meteorológicos, segundo Marcelo Seluchi. No estado do Rio de Janeiro, são três.

Para o coordenador do Cemaden, seria necessário ampliar significativamente essa rede. Segundo ele, o ideal seria que o país tivesse pelo menos o dobro do número atual de radares.

Mas não basta instalar os equipamentos. "Isso custa bastante caro. Não é apenas uma questão de custos, senão que você precisa de toda uma logística, de um conjunto de profissionais para fazer manutenção e para operar e interpretar esses radares", explicou Seluchi.

Os radares produzem uma grande quantidade de dados que precisa ser analisada por profissionais capacitados. A velocidade entre a identificação de um fenômeno e a emissão de um alerta pode ser decisiva quando se trata de eventos que se desenvolvem rapidamente.

Novo supercomputador do Inpe ajuda nas previsões

Supercomputador do Inep

O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe) também vem ampliando a capacidade de processamento dos dados meteorológicos.

O Jaci, novo supercomputador do instituto, começou a operar no fim de 2025. O equipamento custou R$ 30 milhões e tem capacidade de processamento seis vezes maior que a do seu antecessor, o Tupã.

A máquina permite melhorar a qualidade das previsões meteorológicas, mas, segundo os especialistas, equipamentos de processamento não resolvem sozinhos o problema da previsão de ventos extremos.

É preciso combinar os modelos computacionais com uma rede maior de observação e profissionais especializados.

Para Gilberto Câmara, ex-diretor do Inpe, o país precisa tratar a melhoria da previsão meteorológica como um investimento de longo prazo.

"É uma questão de decisão de investimento a longo prazo. Esse é o tipo de investimento que não se dá a curto prazo. Você tem que investir em alguns anos, treinar equipes, formar gente, formar grupos de pesquisa, formar grupos de atenção e resposta", afirmou.

Segundo Câmara, o aumento da frequência e da intensidade de eventos extremos exige uma mudança na preparação do país.

"As mudanças climáticas chegaram para valer. Nós temos que investir muito a sério para que esses eventos que vão se repetir no futuro não tenham o mesmo efeito indesejável que tivemos recentemente", disse.

Meteorologista antecipou chegada do fenômeno ao Rio

Giovanni Dolif alertou sobre vendaval

Enquanto os modelos disponíveis não indicavam ventos tão intensos na cidade do Rio, o meteorologista Giovanni Dolif acompanhou a evolução do fenômeno por meio de instrumentos de uma rede privada de monitoramento no litoral.

Desde domingo, segundo ele, as previsões já mostravam a possibilidade de formação de uma linha de cisalhamento — uma região de encontro entre ventos com diferentes direções e velocidades — avançando pelo litoral do Sudeste.

Na manhã de quarta-feira, Dolif passou a acompanhar as medições dos anemômetros instalados no litoral de São Paulo.

Por volta do meio-dia, ele identificou rajadas próximas dos 100 km/h na região da Laje de Santos e, cerca de meia hora depois, em Santos.

A partir da observação do deslocamento da linha de vento e da experiência com episódios semelhantes, o meteorologista avaliou que o fenômeno poderia avançar pelo litoral até o Rio de Janeiro.

"Mesmo com as previsões não indicando ventos muito fortes na cidade do Rio de Janeiro, como só com a previsão dessa linha chegar no Rio, vendo a intensidade, com a experiência de que essas linhas de São Paulo geralmente chegam no Rio de Janeiro, eu fiz essa previsão de que aqueles ventos fortes, aliás muito fortes, chegariam também até a cidade do Rio de Janeiro", afirmou.

Dolif publicou um alerta nas redes sociais antes da chegada da ventania ao Rio.

Evento sobre El Niño precisou ser cancelado

O vendaval chegou a interromper um evento que estava programado justamente para discutir os efeitos do El Niño e das mudanças climáticas.

Pesquisadores participariam de um encontro na Praça São Salvador, na Zona Sul do Rio, na quarta-feira. O evento, no entanto, precisou ser cancelado por causa das condições meteorológicas.

O episódio acabou se tornando, na prática, um exemplo dos desafios que os pesquisadores discutiam: como melhorar a capacidade de observar, prever e responder a eventos climáticos extremos.

Para os especialistas, episódios como o vendaval de quarta-feira reforçam a necessidade de ampliar a infraestrutura de monitoramento meteorológico, investir em tecnologia e formar equipes capazes de interpretar os dados e emitir alertas com rapidez.

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