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Homens que usam testosterona sem ter indicação médica para o tratamento têm quase duas vezes mais risco de sofrer um evento cardiovascular grave —como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), parada cardíaca ou morte— do que aqueles que…
G1 — Brasil · 2026-07-31T06:02:42.000Z
Homens que usam testosterona sem ter indicação médica para o tratamento têm quase duas vezes mais risco de sofrer um evento cardiovascular grave —como infarto, acidente vascular cerebral (AVC), parada cardíaca ou morte— do que aqueles que fazem a reposição por uma necessidade clínica real.
É o que mostra o maior estudo já conduzido para comparar diretamente esses dois grupos de usuários, publicado na revista científica eBioMedicine, do grupo Lancet. Ao longo de até dez anos de acompanhamento, o risco de morrer por qualquer causa quase dobrou entre quem tomou o hormônio sem precisar.
A reposição de testosterona tem uma indicação bem definida: o hipogonadismo, condição em que o organismo do homem produz o hormônio em quantidade insuficiente, seja por uma falha nos testículos, seja por um problema na hipófise —a glândula, no centro do cérebro, que comanda a produção hormonal.
Quando há sintomas e exames que confirmam o quadro, repor o hormônio é seguro: um grande ensaio clínico recente, o TRAVERSE, não encontrou aumento de eventos cardiovasculares em homens com hipogonadismo e alto risco cardíaco tratados com testosterona.
O alvo do novo estudo é outro: a parcela de homens que recebe o hormônio sem esse diagnóstico, e que, segundo os dados, corresponde a cerca de um terço de todos os usuários.
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Um em cada três sem diagnóstico
Dos 358.957 homens de 30 a 75 anos identificados na pesquisa, todos usuários de testosterona, 35,4% não tinham qualquer registro de hipogonadismo —nem exames alterados, nem sintomas que justificariam o tratamento.
Para comparar de forma justa quem tinha indicação e quem não tinha, os pesquisadores recorreram a uma técnica estatística que pareia os participantes por características semelhantes, como idade, peso, pressão arterial e doenças prévias, e formaram 113.554 duplas —mais de 227 mil homens— acompanhadas por até uma década.
No grupo sem indicação, além do risco 51% maior de eventos cardiovasculares graves e da mortalidade quase duplicada, houve mais casos de AVC isquêmico, parada cardíaca e insuficiência cardíaca. A associação se repetiu em diferentes grupos raciais e étnicos, com magnitude variável.
Uma pergunta que a ciência não pode testar diretamente
O desenho da pesquisa explica por que os resultados são levados a sério. O tipo de estudo considerado padrão-ouro —em que os participantes são sorteados para receber o tratamento ou um placebo— seria inviável neste caso.
"Seria antiético dar uma carga de testosterona a um homem com níveis normais do hormônio, diante das evidências que já temos de que o excesso faz mal", explica Fernando Valente, coordenador do Departamento de Educação em Diabetes da Sociedade Brasileira de Diabetes (SBD) e diretor do Departamento de Diabetes da Sociedade Brasileira de Endocrinologia e Metabologia (SBEM).
Por isso a investigação foi retrospectiva: em vez de sortear pessoas, os cientistas olharam para trás, para o histórico de quase 360 mil homens. Para reduzir o principal ponto fraco desse tipo de análise —a chance de os dois grupos serem diferentes desde o início—, aplicaram o pareamento estatístico.
Como reforço, incluíram um "controle negativo": mediram também a ocorrência de apendicite, um problema sem qualquer relação com a testosterona. Como esperado, não houve diferença entre os grupos nesse ponto, o que indica que o excesso de eventos cardiovasculares não é fruto de um viés geral, e sim algo específico do hormônio.
O que o hormônio em excesso provoca no corpo
A explicação para o risco maior está no que acontece quando a testosterona ultrapassa os níveis normais. Quem usa o hormônio sem necessidade costuma atingir concentrações suprafisiológicas —acima do que o corpo produziria sozinho— e passa a colher os efeitos desse excesso, segundo o cardiologista Elzo Mattar, diretor do Departamento de Hipertensão Arterial da Sociedade Brasileira de Cardiologia (SBC) e professor da Faculdade Estadual de Medicina de São José do Rio Preto (Famerp).
O primeiro é o estímulo à produção de glóbulos vermelhos.
"O anabolizante faz a medula óssea produzir mais células vermelhas. O sangue fica mais viscoso, e sangue mais grosso favorece a formação de trombos", afirma Mattar. Esse coágulo pode se formar em qualquer vaso —em uma veia da perna, nas artérias do coração ou no cérebro, provocando infarto ou AVC.
O excesso do hormônio também desencadeia um processo inflamatório que lesa a parede dos vasos, a chamada disfunção endotelial, que igualmente favorece a trombose e acelera o acúmulo de placas de gordura nas artérias.
Somam-se a isso o espessamento do músculo cardíaco, que pode levar à insuficiência cardíaca, e a elevação da pressão arterial —o uso indiscriminado de anabolizantes é uma das principais causas medicamentosas de hipertensão secundária.
Para Mattar, o conjunto desses fatores funciona como uma ameaça latente: "Viscosidade aumentada, inflamação, disfunção endotelial e alteração dos fatores de coagulação formam uma bomba-relógio para uma trombose a qualquer momento."
Por que interromper o uso não é simples
Quem começa a usar testosterona sem indicação e decide abandoná-la enfrenta um obstáculo a mais. Quando um homem com níveis normais passa a tomar o hormônio por fora, o corpo interpreta que há testosterona demais e desliga a própria produção.
"A testosterona aplicada inibe o estímulo da hipófise aos testículos. O corpo entende que não precisa mais produzir, e o testículo vai atrofiando", explica Valente.
Com o tempo, o órgão pode parar de funcionar normalmente, o que leva à infertilidade —em alguns casos reversível, dependendo da dose e da duração do uso— e deixa a pessoa dependente das aplicações para não sentir os sintomas da falta do hormônio.
"Se o homem está abaixo do nível fisiológico e eu o levo até ele, restabeleço uma normalidade. Se ele já está dentro da faixa e recebe testosterona, passa a ficar acima, e é aí que vêm os problemas”, diz Valente.
O avanço do uso sem indicação tem raízes que vão além do consultório. A testosterona aumenta a massa muscular e o número de glóbulos vermelhos, o que a tornou popular entre fisiculturistas e frequentadores de academia —muitas vezes em doses muito acima da fisiológica. Mas o fenômeno se espalhou.
Nas redes sociais, fóruns masculinos tratam o nível do hormônio como medida de virilidade, uma pressão que, segundo Valente, chega ao consultório. Ele reforça que a testosterona não faz parte do check-up de rotina e só deve ser dosada diante de uma queixa clínica: ninguém é menos homem por ter uma dosagem de 300 em vez de 600, afirma.
O médico observa ainda que o próprio estilo de vida contemporâneo —sedentarismo, obesidade e alimentação rica em ultraprocessados— vem reduzindo os níveis do hormônio na população masculina ao longo das últimas décadas.
O uso sem respaldo já não se restringe aos homens. Os dois especialistas relatam ver cada vez mais mulheres —muitas jovens, fora da menopausa— recebendo testosterona ou outros hormônios de ação androgênica, em geral por motivos estéticos e sem indicação que sustente a prática.
Para as mulheres, no entanto, ainda faltam estudos do porte deste para dimensionar o risco cardiovascular, uma lacuna que ambos consideram urgente diante do avanço do uso.
Para os homens, o novo trabalho se soma ao das diretrizes atuais: a reposição de testosterona é segura quando corrige uma deficiência real, mas passa a cobrar um preço do coração quando serve apenas para elevar o hormônio acima do que o corpo precisa.