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Com sobrevoos do Acre, cientistas encontram quase 400 novos geoglifos na Amazônia
G1 — Brasil · 2026-07-31T08:03:30.000Z
Com sobrevoos do Acre, cientistas encontram quase 400 novos geoglifos na Amazônia
Cientistas encontraram 396 geoglifos escondidos nas florestas do sul da Amazônia após uma série de sobrevoos que incluiu trajetos a partir de Rio Branco. A pesquisa usou uma tecnologia de mapeamento 3D a laser capaz de registrar o relevo abaixo da vegetação e revelou estruturas que não apareciam em imagens de satélite.
O levantamento abrangeu cerca de 4,8 mil quilômetros quadrados em uma área que inclui o Acre, o sul do Amazonas e regiões da Bolívia e do Peru. O estudo foi publicado nessa quarta-feira (29) na revista científica Nature e reuniu pesquisadores brasileiros e finlandeses.
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Ao g1, o botânico Evandro Ferreira, da Universidade Federal do Acre (Ufac), que coordenou a equipe brasileira do estudo, explicou que apenas 9% das estruturas identificadas já eram conhecidas em áreas abertas.
Pesquisa identificou quase 400 novos geoglifos na Amazônia
“A pesquisa encontrou novos geoglifos. Antes do levantamento, apenas 36 estruturas do tipo eram conhecidas na região. Com as novas descobertas, o número de geoglifos mapeados chegou a 432 nessa região mapeada”, contou.
⏩ Os geoglifos são grandes construções feitas com valas e estruturas de terra, geralmente organizadas em formas geométricas.
Os cientistas usaram aviões com aparelhos de lidar, uma tecnologia de radar a laser para mapeamento das áreas em três dimensões. Durante os sobrevoos, o equipamento registra informações sobre a vegetação e também alcança o solo.
Depois, os dados são processados em computador. Com isso, os pesquisadores conseguem retirar virtualmente a cobertura vegetal e observar apenas a topografia do terreno, o que permite identificar marcas e estruturas escondidas pela floresta.
Levantamento abrangeu uma área que inclui o Acre, o sul do Amazonas e regiões da Bolívia e do Peru
“Contratamos uma empresa para fazer o serviço com esses equipamentos, que são muito caros. Parte dos sobrevoos saiu de Manoel Urbano, no Acre, em direção a Catuiri, no Amazonas, e seguiu até Lábrea. Também fizemos dez linhas de sobrevoo partindo de Rio Branco, passando por Boca do Acre até chegar a Lábrea. Cada uma dessas linhas cobria uma faixa de aproximadamente 10 quilômetros de largura”, explicou Evandro.
Antes do uso da tecnologia, a maior parte dos geoglifos era identificada em áreas desmatadas. Sem a cobertura vegetal, as formas das antigas construções ficavam expostas e podiam ser observadas por imagens aéreas e de satélite.
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De acordo com Evandro, a pesquisa teve como ponto de partida um estudo publicado em 2023 por um grupo liderado por um pesquisador do Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (Inpe). O trabalho utilizou o lidar em sobrevoos pela Amazônia e apontou que milhares de geoglifos ainda poderiam estar escondidos sob a floresta.
Além disso, o grupo de pesquisadores também publicou, naquele ano, um levantamento que identificou cerca de 1,2 mil geoglifos em áreas já desmatadas.
A partir desses resultados, os pesquisadores decidiram ampliar a investigação com o uso da nova tecnologia no sul da Amazônia.
Área pesquisada tem cerca de 185 mil quilômetros quadrados e pode abrigar até 30 mil geoglifos
Estudo aponta novas descobertas
A quantidade de geoglifos identificada durante os sobrevoos permitiu aos pesquisadores estimar o potencial de novas descobertas em uma área mais ampla do sul da Amazônia.
A região analisada se estende por parte do Acre e do sul do Amazonas, alcança o Norte de Rondônia e inclui áreas da Bolívia e do Peru. A delimitação considera a presença de geoglifos e outros dados obtidos em pesquisas arqueológicas.
De acordo com coordenador, a área tem cerca de 185 mil quilômetros quadrados e pode abrigar até 30 mil geoglifos. A estimativa foi feita com base na quantidade de estruturas encontradas durante o levantamento.
Geoglifos na Amazônia
“Esse foi o grande achado. Você tem uma quantidade muito grande de geoglifos que, se a floresta for retirada, vai aparecer”, afirmou.
A projeção supera a estimativa apresentada em um estudo publicado em 2023, que apontou a possibilidade de cerca de 10 mil geoglifos ainda desconhecidos em toda a Amazônia.
Evandro Ferreira destacou que a nova estimativa considera apenas uma área de 185 mil quilômetros quadrados, enquanto a Amazônia ocupa mais de 4 milhões de quilômetros quadrados.
Ocupação distante dos rios
Além de ampliar a quantidade estimada de geoglifos, o estudo traz novas informações sobre a forma como os povos antigos ocuparam a Amazônia.
Tradicionalmente, pesquisas arqueológicas associaram a presença humana na região às margens dos grandes rios. De acordo com Evandro, a proximidade com os cursos d’água facilitava o acesso à água, a pesca e outras atividades de subsistência.
''Os geoglifos identificados na área estudada ficam em regiões entre os rios, conhecidas como interflúvios. Esses locais estão mais distantes e apresentam dificuldades para o acesso à água, a caça e o desenvolvimento da agricultura. Então isso prova que o homem conseguiu não apenas ocupar a Amazônia vivendo nas margens dos rios, mas também nos interflúvios”, afirmou.
O pesquisador destacou ainda que a região enfrentava períodos de seca intensa. Por isso, os povos que viviam nesses locais precisavam conhecer as condições da floresta e desenvolver estratégias para garantir alimento e sobrevivência.
Pesquisa contou com participação de cientistas brasileiros e finladeses
Os pesquisadores associam os geoglifos à civilização Aquiry, que ocupou parte do sul da Amazônia antes da chegada dos europeus.
Segundo Ferreira, os primeiros geoglifos começaram a ser construídos entre 600 e 400 anos antes de Cristo. As estruturas mais recentes datam de cerca do ano 900 depois de Cristo, o que indica aproximadamente 1,5 mil anos de ocupação e construção dessas obras na região.
A estimativa sobre o tamanho da população considera a quantidade de pessoas necessária para construir e manter os geoglifos. Para o pesquisador, cada estrutura exigiria o trabalho de pelo menos 300 pessoas e uma organização capaz de garantir a alimentação e a sobrevivência dos grupos durante as obras.
“Provavelmente, algumas se dedicavam exclusivamente a abrir os geoglifos, outras à caça e à pesca para alimentar quem estava trabalhando e outras à agricultura, porque precisavam plantar milho, mandioca, amendoim e outras plantas para que essas pessoas pudessem comer e sobreviver. Então, era uma coisa muito complexa”, explicou.
Com base na quantidade e na idade dos geoglifos, os pesquisadores estimaram que, entre os anos 100 e 300 depois de Cristo, a população associada às estruturas poderia variar entre 1,25 milhão e 3 milhões de pessoas.
Evandro ressaltou que a estimativa não representa a quantidade de pessoas que viviam na região ao mesmo tempo, mas considera a ocupação e a construção dos geoglifos ao longo desse período.
“É uma situação impressionante, mas, claro, não eram 3 milhões de pessoas vivendo no mesmo ano. Foi ao longo desse período”, afirmou.
Descobertas e debate sobre preservação
A pesquisa também levanta discussões sobre a preservação dos geoglifos diante da expansão da agricultura mecanizada no sul da Amazônia.
As estruturas são protegidas por lei por representarem parte da história e do patrimônio cultural da região. Segundo o pesquisador, danos provocados por atividades agrícolas podem resultar em responsabilização.
A área analisada inclui municípios acreanos onde a agricultura mecanizada avançou nos últimos anos, como Capixaba e Acrelândia, além de regiões próximas a Boca do Acre, no Amazonas.
Para o pesquisador, a retirada da floresta pode revelar novas estruturas, mas também aumentar os conflitos entre a preservação do patrimônio arqueológico e o uso econômico das terras.
Segundo o coordenador, a identificação de novas estruturas pode limitar o uso de algumas áreas e influenciar a expansão da agricultura mecanizada na região.
“Se o desmatamento se intensificar, novos geoglifos surgirão. Quem quer mecanizar vai encontrar muitos geoglifos, e aí tem toda essa questão de que não pode mexer”, concluiu.