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De criação de cavalos a patrimônio ambiental: como terreno do Exército virou disputa judicial em Valinhos

Fazenda Remonta, em Valinhos

G1 — Campinas e Região · 2026-07-31T21:38:29.000Z

Fazenda Remonta, em Valinhos

Um terreno de 162 hectares do Exército em Valinhos (SP), conhecido como Fazenda Remonta, foi leiloado nesta sexta-feira (31) para construção de um empreendimento imobiliário. A compradora foi a empresa Alphaville Desenvolvimento Imobiliário, que apresentou lance de R$ 494,4 milhões.

Porém, mesmo com a arrematação, a área não poderá ser transferida ao vencedor por enquanto. A Justiça Federal e o Tribunal de Contas da União (TCU) impuseram restrições após entidades questionarem os possíveis impactos ambientais.

Formada pelo Exército em 1938 para criação de cavalos, a Fazenda Remonta passou a ter regras ambientais mais rígidas a partir de 2023. Em 2026, a Prefeitura de Valinhos reconheceu a Gleba B como patrimônio ambiental e proibiu intervenções no local.

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Mesmo assim, a Fundação Habitacional do Exército (FHE) levou o terreno a leilão, com lance mínimo de R$ 90 milhões. No sábado (25), a Associação Protetora da Diversidade das Espécies (Proesp) entrou com uma ação civil pública para tentar interromper o processo.

A Justiça e o TCU permitiram a realização do leilão e a definição de um vencedor, mas proibiram a transferência da posse e da propriedade do terreno. Na prática, o processo pôde receber propostas, mas a venda não poderá ser concluída por enquanto.

O TCU, inclusive, questiona a falta de justificativa para a venda da área e aponta que não foram analisadas alternativas de uso público, considerando sua importância ambiental e hídrica — entenda o histórico e a disputa judicial abaixo.

A proposta da Alphaville agora será analisada pela Comissão de Contratação para verificar se atende às exigências do edital.

O g1 procurou o Exército para comentar as decisões, mas não recebeu retorno até a última atualização desta reportagem.

👀 Veja o que esta reportagem explica:

História do terreno

O que as entidades alegam

O que a Justiça definiu

O que o TCU definiu

História do terreno

Vista aérea da Fazenda Remonta, em Valinhos (SP)

Prefeitura de Valinhos

A Fazenda Remonta tem história ligada ao Exército desde 1938, quando foi criada para a criação de cavalos destinados às tropas. Nos últimos anos, regras mais rígidas de proteção ambiental passaram a limitar o uso da área.

Dezembro de 2023: o Plano Diretor de Valinhos classificou a fazenda como área de conservação e estratégica para o combate às enchentes. A medida restringiu a ocupação urbana no local.

Janeiro de 2025: a Prefeitura suspendeu regras que permitiam projetos imobiliários e determinou estudos sobre a importância da área para os recursos hídricos e o controle das chuvas.

Junho de 2026: uma lei municipal reconheceu a Gleba B como Patrimônio Material Ambiental e proibiu a retirada de vegetação nativa e o aterramento de recursos hídricos.

Mesmo com essas restrições, a FHE publicou, em 2026, um edital para leiloar a área. O documento prevê a possibilidade de uso do terreno para um empreendimento imobiliário e estabeleceu um lance mínimo de R$ 90 milhões.

As normas municipais citadas no processo restringem a ocupação e as intervenções na área. A Proesp, porém, também questiona a realização do próprio leilão. A Justiça ainda vai analisar essa discussão.

O que as entidades alegam

A Proesp apresentou a ação com o apoio dos conselhos municipais de meio ambiente de Valinhos e Campinas (SP). As entidades afirmam que a construção de um loteamento poderia aumentar o risco de enchentes e questionam a realização do leilão diante das regras de proteção da área.

Para as instituições, os 162 hectares da Gleba B não devem ser vistos apenas como um terreno com potencial para gerar receita. A área também seria importante para a preservação ambiental e a prevenção de enchentes.

As entidades ainda destacaram que o terreno fica entre a Estação Ecológica de Valinhos e a Floresta Estadual Serra d’Água e funciona como uma “barreira natural” para a água da chuva.

Elas também afirmaram que a área abriga nascentes, contribui para a recarga de aquíferos e forma um corredor entre áreas de preservação. Isso favoreceria a circulação de animais como a onça-parda e o lobo-guará.

O que a Justiça definiu

Na quarta-feira (29), o juiz José Luiz Paludetto, da 2ª Vara Federal de Campinas, atendeu parcialmente a um pedido de urgência feito pela Proesp. A decisão é liminar.

A associação havia pedido a suspensão completa do leilão e de todos os atos relacionados à venda. O juiz, porém, manteve o processo por considerar que, naquele momento, não havia motivos suficientes para cancelá-lo.

Com isso, os interessados puderam apresentar propostas e um vencedor pôde ser definido.

Por outro lado, a Justiça proibiu a transferência definitiva do imóvel. A posse e a propriedade da área não poderão ser transferidas até uma nova decisão sobre as questões ambientais discutidas no processo.

Na prática, a Justiça permitiu a realização do leilão, mas impediu a conclusão da venda. A área não poderá mudar de proprietário antes da análise dos questionamentos ambientais e jurídicos apresentados na ação.

A União e a Fundação Habitacional do Exército também foram obrigadas a informar os interessados sobre a existência da ação judicial e da restrição. A medida buscou garantir que os possíveis compradores conhecessem a disputa antes de participar do leilão.

O que o TCU definiu

Sede do Tribunal de cotnas da União (TCU), em Brasília.

Nesta quinta-feira (30), o ministro-relator Jorge Oliveira, do TCU, adotou uma decisão semelhante à da 2ª Vara Federal de Campinas e proibiu a assinatura de qualquer contrato ou escritura decorrente do leilão até uma decisão final.

O Tribunal levantou dúvidas sobre a segurança do sistema de lances por videoconferência e sobre as regras para definir o valor mínimo do imóvel. Além disso, foram apontadas possíveis irregularidades no edital do certame.

O ministro pediu esclarecimentos à Fundação Habitacional do Exército (FHE). Entre os questionamentos estão:

O fato de o imóvel ainda estar registrado em nome da União;

Possíveis erros no cálculo das Áreas de Preservação Permanente (APP);

A falta de atualização do edital após o tombamento da área como patrimônio ambiental;

Um critério de desempate que favorecia empresas de Valinhos ou de São Paulo.

Militares do Exercito Brasileiro.

A Justiça irá ouvir a União e a Fundação Habitacional do Exército. O Ministério Público Federal (MPF) terá 15 dias para se manifestar sobre o caso.

Deverão ser analisados os possíveis impactos ambientais da ocupação da área, com informações de órgãos especializados e das prefeituras de Valinhos e Campinas.

Na ação, a Proesp pediu uma perícia para avaliar, entre outros pontos, o risco de enchentes e a importância da área para a fauna e os recursos hídricos.

Depois dessas etapas, o juiz poderá analisar os argumentos das partes com profundidade e decidir se mantém ou derruba as restrições ao imóvel.

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