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Lula e Milei, Bolsonaro e Fernández: como fica a relação de Brasil e Argentina com presidentes que se atacam

Lula chama falas de Milei de 'patacoada' e se refere ao argentino como ‘aquela coisa’

G1 — Brasil · 2026-08-01T03:00:30.000Z

Lula chama falas de Milei de 'patacoada' e se refere ao argentino como ‘aquela coisa’

O presidente Luiz Inácio Lula da Silva (PT) e o presidente da Argentina, Javier Milei, trocam farpas e críticas desde o início do governo do argentino. Os diferentes espectros políticos dos governantes brasileiro e argentino provocaram momentos de tensão diplomática desde 2019.

Na eleição presidencial argentina daquele ano, o então presidente do Brasil, Jair Bolsonaro (PL), declarou apoio ao candidato conservador Mauricio Macri, que disputava a reeleição. Alberto Fernández foi eleito.

Após a vitória de Alberto Fernández, Bolsonaro evitou cumprimentá-lo e fez críticas públicas ao governo argentino. Além disso, não foi à posse de Fernández nem enviou representante, quebrando uma tradição diplomática entre Brasil e Argentina.

Apesar das relações estremecidas, as divergências entre os presidentes não tem impedido Brasil e Argentina de continuar uma parceria estratégica. Os países avançaram em pautas de interesse comum no comércio, em especial no Mercosul, e em outras áreas.

Interesses de Estado prevalecem

Especialistas afirmam que a integração econômica entre os dois países faz com que eventuais crises políticas entre os presidentes não necessariamente se transformem em rupturas nas relações de Estado.

A professora de Relações Internacionais da ESPM, Denilde Holzhacker, destaca que a convocação do embaixador brasileiro na Argentina, para prestar esclarecimentos e discutir a relação entre os dois países, faz parte dos ritos diplomáticos tradicionais.

Pablo Quirno, embaixador argentino no Brasil, também já afirmou em entrevistas que os países não pretendem levar as questões políticas para o plano institucional e prático.

Segundo a professora Holzhacker, a repercussão do episódio pode variar conforme a resposta do governo argentino ao gesto brasileiro.

"Existe uma estratégia do Milei, e até do Trump, de fazer acusações que só inflamam o discurso", afirmou.

Apesar da demonstração de insatisfação, a especialista avalia que temas estratégicos, como as relações comerciais e o Mercosul, não são afetados pela relação conturbada dos presidentes, já que negociações e acordos de cooperação seguem uma lógica de interesse entre os países.

A professora explica que o governo brasileiro adota uma estratégia de responder às críticas sem ampliar os conflitos, mas busca contestar declarações consideradas ofensivas.

No episódio mais recente de tensão com Milei, Lula chegou a declarar: “Quem é esse cara?”, em resposta a uma pergunta sobre Milei. O presidente brasileiro também já afirmou que o argentino fez “uma patacoada” e que não respondeu para preservar sua posição de chefe de Estado.

"A própria Argentina já tinha questionado o papel do Mercosul. Mas, até pela proximidade com o Trump, o próprio Milei sabe das dificuldades que teria para acessar o mercado europeu sem o acordo. É uma guerra de narrativa, para as redes sociais, mas do ponto de vista prática não tem tantos efeitos", avalia a professora.

O professor Antônio Jorge Ramalho, de Relações Internacionais da UnB, avalia que o presidente argentino busca protagonismo nas redes sociais, "falando para a sua bolha".

"[Milei] ultrapassou os limites do respeito às instituições e ao povo brasileiro", afirmou.

Lula e Milei durante encontro do Mercosul

Luis ROBAYO / AFP

Convenção de Flávio, Durigan chama Milei de 'palhaço'

A relação entre Brasil e Argentina ganhou destaque na última semana por causa de declarações polêmicas de Javier Milei na convenção do Partido Liberal que confirmou a candidatura de Flávio Bolsonaro à eleição.

Milei fez críticas a Lula e o chamou de "presidiário". Também valorizou a chamada "onda azul" na América do Sul – termo usado para falar do avanço de governos e candidatos de direita e centro-direita na região – e chamou o ministro Alexandre de Moraes, do Supremo Tribunal Federal (STF), de "lixo careca".

O ministro da Fazenda, Dario Durigan, reagiu às declarações e chamou o presidente argentino de “palhaço” e argumentou que a Argentina apresenta indicadores mais desfavoráveis, como risco-país, dívida pública e inflação mais elevados que o Brasil.

Depois da repercussão, o ministro disse que a declaração foi uma iniciativa pessoal e não representava uma posição oficial do governo, mas justificou a resposta afirmando que Milei havia criticado a política econômica brasileira e autoridades do país.

Já o ministro da Secretaria-Geral da Presidência, Guilherme Boulos (PSOL), classificou Milei como uma “caricatura patética” e disse que o presidente argentino é um “puxa-saco” de Donald Trump, presidente dos Estados Unidos, argumentando que suas declarações não são levadas a sério.

As manifestações de Durigan e Boulos, no entanto, foram alvo de críticas reservadas de integrantes do Palácio do Planalto e do Itamaraty, que avaliaram que as respostas adotaram um tom semelhante ao utilizado por Milei e se afastaram da linha diplomática defendida pelo governo brasileiro.

A tensão entre os atuais presidentes começou ainda durante a campanha eleitoral que elegeu Milei. Político ultraliberal, o argentino já fazia críticas ao Lula e ao governo do PT durante a campanha. Na ocasião, Lula apoiou publicamente o candidato, Sergio Massa.

Durante a posse de Milei, Lula enviou o ministro Mauro Vieira para representar o Brasil. Contudo, os presidentes passaram meses trocando críticas públicas.

Entretanto, apesar do tom político, no campo diplomático, a relação entre Brasil e Argentina seguiu como de praxe, com negociações mantidas em áreas como comércio, energia e infraestrutura e no âmbito do Mercosul.

As diferenças políticas entre Lula e Milei fizeram dos dois presidentes rivais declarados. Às vésperas das eleições brasileiras, a relação voltou a enfrentar um momento de tensão após o argentino declarar apoio a Flávio Bolsonaro e criticar o governo brasileiro durante a convenção que lançou o candidato do PL.

As críticas não pararam na convenção. Milei usou as redes sociais para fazer postagens diversas com críticas a Lula.

O episódio levou o Itamaraty a convocar o embaixador brasileiro na Argentina, Júlio Bitelli, de volta a Brasília. Esta foi uma reação mais formal do governo brasileiro diante das declarações de Milei.

Crise Bolsonaro e Fernández

O Mercosul também esteve no centro das divergências. Em 2021, ao assumir a presidência do bloco, Bolsonaro criticou a gestão de Fernández, afirmando que não atendeu às expectativas.

A flexibilização das regras do Mercosul era uma das principais pautas do debate à época. Bolsonaro defendeu a redução da Tarifa Externa Comum e a maior flexibilização das regras para que os países-membros negociassem acordos comerciais de modo individual.

Apesar dos momentos de tensão, os dois presidentes encerraram os mandatos em um tom mais conciliador.

Após um encontro improvisado na IX Cúpula das Américas, em 2022, Alberto Fernández disse, em entrevista exclusiva ao jornal O Globo, que “Brasil e Argentina não podem estar brigados, acima de qualquer diferença política”, em referência à relevância econômica e estratégica da relação bilateral histórica entre os países.

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