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4 perguntas para entender a nova crise migratória em Ceuta, enclave espanhol na África

Milhares de imigrantes tentam entrar na Espanha saindo do Marrocos

G1 — Mundo · 2026-08-01T05:00:10.000Z

Milhares de imigrantes tentam entrar na Espanha saindo do Marrocos

Milhares de migrantes cruzaram nos últimos dias a fronteira entre o Marrocos e o enclave espanhol de Ceuta, no norte da África. O movimento gerou fortes reações, tanto na Espanha quanto na União Europeia, aumentando ainda mais as tensões diplomáticas entre Madri e Rabat.

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Autoridades espanholas calculam que cerca de 60 mil pessoas conseguiram chegar ao território, por via terrestre ou marítima.

Vídeos e imagens mostrando milhares de pessoas nadando em direção à cidade de Ceuta viralizaram na quinta-feira (30) e a imprensa local noticiou que a movimentação na fronteira prosseguiu ao longo da noite.

As autoridades confirmaram a morte de pelo menos 57 pessoas que tentavam chegar ao território, que se encontra há séculos sob o controle espanhol.

Após um recente aumento das tentativas de cruzamento da fronteira, as autoridades locais solicitaram ajuda ao governo central em Madri, que destacou suas forças armadas para reforçar a segurança em Ceuta e na sua cidade-irmã de Melilla.

As autoridades afirmam que pelo menos 7 mil pessoas que entraram irregularmente no território nas últimas 24 horas são menores de idade.

Aqui explicamos em sete pontos o essencial sobre esta nova crise migratória.

1. Qual é a situação na fronteira?

Migrantes entram em Ceuta, enclave espanhol no norte da África, vindos do Marrocos.

Antonio Sempere / AP

Ceuta e Melilla são duas cidades autônomas que pertencem à Espanha há mais de cinco séculos. O Marrocos reivindica as cidades como parte do seu território desde que conquistou sua independência, em 1956.

O direito internacional não considera as cidades como colônias. E a Organização das Nações Unidas (ONU) não inclui Ceuta e Melilla na sua lista de territórios pendentes de descolonização, o que, na prática, respalda seu status como parte da Espanha.

Os dois enclaves constituem as únicas fronteiras terrestres entre a União Europeia e a África. Eles são protegidos por sistemas de duas barreiras, além de forte presença policial e militar.

Depois da entrada dos migrantes vindos do Marrocos, o governo espanhol deslocou soldados do exército em Ceuta para reforçar a segurança local. As autoridades indicam que, em Melilla, também foram registrados 300 a 400 cruzamentos de fronteira na noite de quinta-feira (30).

Vídeos gravados naquele dia mostram uma avalanche de pessoas correndo pela praia de Tarajal, em Ceuta, e nas vizinhanças. A maioria parecia ser composta por homens jovens.

As duas cidades se transformaram há anos em um dos principais pontos de entrada de muitos migrantes africanos para a Europa, em busca de melhores oportunidades financeiras e qualidade de vida.

A situação é especialmente delicada em Ceuta. Sua população é de cerca de 83,6 mil habitantes, segundo os últimos números oficiais. Por isso, a chegada de até 60 mil pessoas representa um impacto significativo.

O caos persiste nas ruas de Ceuta desde quinta-feira, segundo a imprensa local.

"Ninguém sai na rua. Eles têm medo", declarou ao jornal espanhol ABC o segurança de um hospital muito próximo à fronteira.

"Este evento de agora é mais forte e agressivo do que já havíamos presenciado antes."

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Dhara Pereira e Lara Bernardino/Arte g1

2. Qual foi a reação da Espanha?

Após o destacamento de tropas militares e o aumento do apoio naval, o primeiro-ministro espanhol, Pedro Sánchez, se deslocou para Ceuta nesta sexta-feira (31).

Falando do enclave espanhol, ele chamou o ocorrido na quinta de "ataque, uma violação da integridade territorial da Espanha".

Sánchez culpou as máfias por "enganar muitos jovens" e anunciou a instalação de boias para criar uma barreira de contenção.

Por outro lado, o prefeito da Cidade Autônoma de Ceuta, Juan Jesús Vivas, alertou na quinta-feira (30) sobre a gravidade da crise migratória. Ele afirmou que a situação atingiu um nível de "absoluta emergência humanitária e social".

Vivas pediu ao governo central em Madri que seja declarada "emergência nacional", frente ao aumento da chegada de migrantes da África.

Mas o Executivo espanhol defende que não pode ativar este dispositivo porque as normas estatais de proteção civil não contemplam os fluxos migratórios como risco, segundo o Sistema Nacional de Proteção Civil, nem existem planos específicos para sua administração.

Sánchez afirmou em várias ocasiões que seu governo está trabalhando para gerenciar a crise. E, durante sua visita a Ceuta, ele declarou que seu governo utilizará "todos os recursos do Estado" para garantir a segurança da cidade autônoma.

A reação do primeiro-ministro também gerou críticas por parte da oposição.

O líder do Partido Popular, Alberto Núñez Feijóo, acusou Sánchez de agir com "fraqueza". Já o porta-voz no Congresso espanhol da Esquerda Republicana da Catalunha (ERC), Gabriel Rufián, responsabilizou o Marrocos, acusando Rabat de "chantagear" a Espanha e a Europa.

Por outro lado, o líder do partido Vox, Santiago Abascal, qualificou a crise migratória como uma "invasão".

3. Por que está acontecendo neste momento?

Milhares de imigrantes de Marrocos chegam à Espanha

Na Espanha, alguns atribuíram o recente aumento da migração a uma sentença do Supremo Tribunal Espanhol, que determinou, três semanas atrás, que os migrantes interceptados no mar quando tentam chegar a Ceuta ou Melilla não podem ser devolvidos imediatamente ao Marrocos.

Na quinta-feira (30), o Ministério do Interior acusou as redes de tráfico de pessoas de "instrumentalizar" esta resolução judicial para "incentivar o fluxo de imigrantes sem documentos" para Ceuta.

O Ministério também anunciou um acordo com o Marrocos para reforçar a coordenação entre os dois países e agilizar o retorno dos migrantes que entraram de forma irregular "o mais breve possível".

Outras vozes também criticaram o governo de Sánchez, tanto na Espanha quanto no exterior.

Na quinta-feira (30), a Casa Branca atribuiu a situação em Ceuta às "políticas globalistas de extrema esquerda" da Espanha.

"O presidente Trump vem alertando a Europa há tempos sobre as consequências de continuar implementando políticas globalistas de extrema esquerda, como facilitar a migração em massa", declarou à agência de notícias espanhola EFE a porta-voz da Casa Branca, Ana Kelly.

"A Espanha e outros países que adotaram esta filosofia destrutiva deveriam retificá-la de imediato ou correrão o risco do seu próprio desaparecimento."

4. O que diz o Marrocos?

Migrantes correm e comemoram ao atravessar a pé para o enclave norte-africano de Ceuta, vindos do Marrocos

FARO TV via REUTERS

A embaixadora do Marrocos na Espanha, Karima Benyaich, afirmou na quinta-feira (30) que a situação não é a desejada pelo Marrocos e pediu aos cidadãos marroquinos que cruzaram a fronteira para a cidade autônoma que regressem ao país.

"O governo do Marrocos solicita e deseja que aqueles concidadãos que atravessaram a fronteira retornem ao nosso país", declarou ela, durante um ato celebrado em Madri por motivo do 27° aniversário da coroação do rei marroquino, Mohamed 6°.

"Não é algo que nos agrade; queremos sempre uma imigração ordenada e segura para todos", destacou a embaixadora.

Nesta sexta-feira (31), a Espanha e o Marrocos reforçaram a barreira fronteiriça do enclave espanhol. Aparentemente, eles impediram em grande parte os cruzamentos em massa.

As autoridades espanholas afirmaram que milhares de migrantes regressaram voluntariamente ao Marrocos, mas a situação em Ceuta permanece delicada, frente ao grande número de cruzamentos da fronteira e ao desafio humanitário enfrentado pelo pequeno território.

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