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Casarão da Serra da Mantiqueira de quase 300 anos preserva histórias do Brasil Colônia

Casarão da Serra da Mantiqueira de quase 300 anos preserva histórias do Brasil Colônia

G1 — Brasil · 2026-08-02T20:21:15.000Z

Casarão da Serra da Mantiqueira de quase 300 anos preserva histórias do Brasil Colônia

Construído em 1738, quando o Brasil ainda era colônia de Portugal, o casarão da Fazenda da Roseta, em Baependi (MG), atravessou quase três séculos sem deixar as mãos da mesma família. Cercado pelas montanhas, o local reúne história, natureza e turismo.

Depois de passar pelos períodos colonial, imperial e republicano, a propriedade, administrada pela sexta geração da família Maciel, se abriu para os visitantes após a descoberta de um desejo da mãe do proprietário, Paulo Maciel Júnior.

Casarão de quase 300 anos na Fazenda da Roseta, em Baependi, conserva características do Brasil colônia

Durante a organização de documentos antigos da família, entre os papéis, ele encontrou um manuscrito deixado pela mãe, que tinha o hábito de registrar os sonhos logo ao acordar.

"Ela escreveu que a fazenda deveria se transformar em um empreendimento turístico. Aquilo nos marcou muito. Entendemos que abrir as portas seria uma forma de manter a fazenda e a história vivas", conta.

O lugar tem vários elementos que despertam o interesse dos visitantes. Em 1993, a fazenda recebeu o reconhecimento da Organização das Nações Unidas para a Educação, a Ciência e a Cultura (Unesco) por integrar a Rede Internacional de Reservas da Biosfera, criada pelo Programa Homem e a Biosfera (MAB). O título é concedido a áreas protegidas consideradas estratégicas para a conservação dos principais ecossistemas do planeta.

Além de proteger a natureza, a reserva contribui para a produção de conhecimento e para a promoção de práticas que conciliam conservação e desenvolvimento sustentável.

A fazenda ainda abriga museus e construções históricas.

Patrimônio que resiste ao tempo

Casarão da época do Brasil colônia passou por várias reformas, mas ainda mantém características históricas em Baependi

A história da Fazenda da Roseta começou a partir de uma sesmaria, modelo de concessão de terras adotado pela Coroa Portuguesa durante o período colonial, quando a ocupação do Sul de Minas ainda avançava pelo interior do país. O nome faz referência ao antigo Ribeirão das Rosetas, citado no documento original da concessão.

Posteriormente, a área foi adquirida pela família Maciel. Ao longo dos séculos, a sede passou por transformações, mas preserva elementos históricos como os muros e calçamentos de pedra, a Gruta de Nossa Senhora de Lourdes e o antigo moinho de fubá, atualmente transformado em Museu do Trabalhador Rural.

Na década de 1940, o casarão passou por uma grande reforma que alterou parte das características coloniais para o estilo neocolonial. Em 2006, novas intervenções permitiram recuperar e adaptar parte da estrutura para receber visitantes.

Hoje, a Fazenda da Roseta reúne 16 edificações e estruturas históricas preservadas, formando um conjunto que ajuda a contar diferentes momentos da ocupação do Sul de Minas.

Sonho mudou o destino da fazenda

Fazenda da Roseta atrai turistas com suas características da época do Brasil colônia

Quando foi iniciada, a restauração de 2006 não tinha como objetivo criar um empreendimento turístico. Segundo o proprietário, a prioridade era impedir que o casarão continuasse se deteriorando.

Mas, a partir da descoberta dos escritos da mãe, a família decidiu investir na atividade turística como forma de ajudar a preservar o patrimônio.

Aberta aos visitantes desde 2013, a Fazenda da Roseta recebe cerca de 600 pessoas por ano e conta com 15 quartos, 40 leitos e uma equipe de quatro funcionários.

Quem visita a propriedade encontra espaços dedicados à memória rural, como o casarão transformado em museu, o Museu do Trabalhador Rural, o Museu dos Coches, uma biblioteca histórica e o Pouso do Tropeiro. O complexo possui reconhecimento do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram).

Turismo como ferramenta de preservação

Fazenda da Roseta, em Baependi, une preservação histórica, natureza e vida rural para atrair turistas

Manter um patrimônio de quase 300 anos exige investimentos permanentes. Segundo a família, a conservação da Fazenda da Roseta demanda cerca de R$ 350 mil por ano. Desde o início do processo de restauração, aproximadamente R$ 1,8 milhão foi investido na recuperação das edificações e estruturas históricas.

Hoje, a hospedagem, as visitas guiadas e as experiências oferecidas aos visitantes ajudam a financiar a conservação do patrimônio. Para Maciel Júnior, a grande missão é que esse conjunto histórico continue sendo cuidado e compartilhado com as próximas gerações.

"O maior desafio é conseguir sustentabilidade financeira para a manutenção. Muitas benfeitorias, como o engenho de cana, a máquina de café e o armazém, acabaram se perdendo por falta de manutenção. Dependemos do turismo e estamos sujeitos às crises econômicas do país e até ao clima. É preciso equilibrar a conservação do patrimônio com a sustentabilidade do negócio", afirma.

A motivação permanece ligada à possibilidade de manter viva a história da propriedade.

"Durante séculos, a fazenda produziu alimentos. Hoje produzimos experiências, conhecimento e memória. Quando uma pessoa visita a Roseta e entende a importância desse patrimônio, ela também passa a ajudar na sua preservação", diz o proprietário.

Patrimônio ajuda a contar a história do país

Fazenda da Roseta, em Baependi, une preservação histórica, natureza e vida rural para atrair turistas

Para a arquiteta e urbanista Daniela Bobsin, especialista em Conservação e Restauração do Patrimônio Cultural, construções desse período ajudam a compreender a formação histórica do Brasil e exigem cuidados permanentes para atravessar gerações.

"Esses imóveis preservam técnicas construtivas, modos de vida e parte da memória da ocupação do território brasileiro. A longevidade de um casarão como esse não depende apenas dos materiais utilizados na época, mas principalmente da manutenção contínua realizada ao longo dos anos."

A trajetória da Fazenda da Roseta acompanha a própria ocupação do Sul de Minas. Desenvolvida ao longo do antigo Caminho Velho da Estrada Real, a propriedade produziu açúcar, café, laticínios e manteiga ao longo dos séculos, refletindo diferentes momentos da economia e da formação da região.

Segundo a secretária municipal de Cultura e Turismo, Ana Cristina, Baependi reúne um importante conjunto de imóveis históricos preservados.

"Iniciativas como a da Fazenda da Roseta ajudam a manter viva essa memória e a aproximar moradores e visitantes da história do município", afirma.

Para a turismóloga Cássia Almeida, o turismo pode ser um aliado da preservação quando respeita as características originais dos imóveis históricos.

"O turismo bem planejado ajuda a financiar a preservação, fortalece a identidade cultural dos territórios e aproxima as pessoas de sua própria história. Quando um patrimônio é visitado e valorizado pela comunidade, ele ganha novas possibilidades de permanência", diz.

Depois de quase três séculos atravessando o tempo, o futuro da propriedade segue ligado à preservação desse legado e ao contato de novas gerações com a história da região. Como resume o proprietário, inspirado em um sonho registrado pela mãe há duas décadas:

"Durante séculos produzimos alimentos. Hoje produzimos sonhos."

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