ITATIBA1

Trump quer vender milissegundos de vantagem a investidores; entenda por que isso vale milhões

Donald Trump, presidente dos EUA, segura cópia impressa de uma de suas publicações na Truth Social, em 8 de julho de 2026

G1 — Mundo · 2026-08-04T08:03:06.000Z

Donald Trump, presidente dos EUA, segura cópia impressa de uma de suas publicações na Truth Social, em 8 de julho de 2026

A Truth Social, rede social criada por Donald Trump, começou a vender acesso antecipado às publicações do presidente dos Estados Unidos para investidores institucionais e empresas que utilizam sistemas automatizados para negociar ativos financeiros.

A iniciativa levanta uma questão para o mercado financeiro: quanto vale receber, alguns milissegundos antes dos demais, uma mensagem capaz de influenciar o preço de ações, moedas, juros e commodities?

🗒️ Tem alguma sugestão de reportagem? Envie para o g1

Segundo a Trump Media & Technology Group (TMTG), controladora da plataforma, o Truth API foi desenvolvido para entregar essas publicações em tempo real a organizações mais impactadas pelo custo de atrasos no acesso à informação.

🔎 A expectativa é que o serviço funcione 24 horas por dia, sete dias por semana, e inclua um arquivo de mensagens publicadas desde 2022. A ferramenta é oferecida por meio de uma API — sistema que permite que programas de computador recebam automaticamente as publicações da plataforma. Segundo a Reuters, a empresa chegou a discutir a cobrança de até US$ 100 mil por mês pelo acesso.

Agora no g1

No anúncio do Truth API, Kevin McGurn, CEO interino da Trump Media & Technology Group (TMTG), justificou a criação do serviço afirmando que "os mercados já reagem com base nas publicações do Truth Social".

Especialistas ouvidos pelo g1 afirmam que essa pequena vantagem de tempo pode favorecer investidores que utilizam programas de computador para negociar ativos automaticamente e levantar dúvidas sobre a igualdade de acesso a informações capazes de influenciar os preços.

Pedro Teberga, especialista em negócios digitais e professor da Faculdade Einstein, explica que, nesse intervalo, alguns investidores conseguem negociar antes que o restante do mercado tenha tempo de reagir à informação.

"Quando um grupo restrito recebe antes uma informação capaz de mexer nos preços, ele consegue comprar ou vender contra participantes que ainda operam com os preços anteriores à notícia", afirma.

Por que milissegundos fazem diferença?

Para investidores individuais, alguns milissegundos dificilmente fariam diferença. No universo da negociação automatizada, porém, esse intervalo pode ser suficiente para que sistemas identifiquem uma informação relevante e executem ordens de compra e venda antes que os preços se ajustem.

Essa lógica ajuda a explicar por que anúncios publicados por Trump na Truth Social costumam provocar reações rápidas nos mercados.

Marcos Praça, diretor de análise da ZERO Markets Brasil, afirma que o valor econômico dessa vantagem depende da relevância da mensagem, do volume negociado e da velocidade com que o mercado incorpora a informação. Segundo ele, um exemplo ajuda a dimensionar esse potencial:

💰 Imagine que uma publicação provoque uma variação de 0,5% no preço de um ativo. Se uma instituição conseguir negociar US$ 50 milhões antes que essa mudança seja refletida nos preços, o ganho bruto potencial seria de US$ 250 mil.

"A relevância não está apenas em saber antes, mas em conseguir transformar a informação automaticamente em ordens antes que o mercado reorganize os preços", afirma.

O especialista ressalta, porém, que esse cálculo não representa lucro garantido, já que há custos de execução, impacto das próprias ordens sobre os preços e até o risco de o sistema interpretar a mensagem de forma equivocada.

Quando Trump posta, o mercado reage

O que diferencia a Truth API das agências de notícias?

A principal diferença em relação a serviços como Bloomberg e Reuters, segundo os especialistas, não está na velocidade da entrega das informações, mas na origem delas.

"A comparação não se sustenta, e a diferença não está na velocidade, que sempre foi um produto comercializado no mercado financeiro", afirma Teberga.

Segundo ele, empresas como Bloomberg e Reuters vendem rapidez na distribuição de informações que observam, organizam ou reportam, mas não produzem as decisões capazes de movimentar os mercados.

Ele lembra que, quando uma empresa se aproximou dessa fronteira, houve reação das autoridades.

⚖️ Em 2013, a Thomson Reuters encerrou um serviço que antecipava em dois segundos um índice de confiança do consumidor após investigação do procurador-geral de Nova York.

"No caso da Truth API, quem produz a informação é a mesma pessoa que decide a política capaz de mover os preços", afirma.

Apesar disso, Marcelo Cabral, gestor de investimentos e sócio-fundador da Stratton Capital, gestora sediada em Nova York, faz uma ressalva: pelas informações divulgadas até o momento, o Truth API não oferece acesso antecipado às publicações, mas maior velocidade na distribuição de um conteúdo que já é público.

"O Truth API não poderá vender acesso antecipado aos posts de Donald Trump, pois isso seria ilegal. Segundo as notícias divulgadas, a empresa irá vender velocidade de entrega e formatação de informação que já é pública", afirma.

Quando a comunicação presidencial vira fator de mercado

O debate não se limita aos EUA. Como Trump costuma anunciar decisões de política econômica e comercial primeiro na Truth Social, publicações da plataforma também podem provocar reações imediatas em ativos de outros países, incluindo o Brasil.

Para Cabral, esse tipo de impacto é consequência de uma transformação mais ampla na forma como decisões de governo passaram a ser comunicadas.

Na avaliação dele, medidas de política econômica passaram a ser anunciadas primeiro nas redes sociais do presidente, antes dos canais oficiais do governo.

"O ponto mais interessante do debate não é a legalidade nem o caráter pouco democrático do Truth API, mas sim o padrão inusitado de comunicação, em que decisões importantíssimas de política econômica são divulgadas na rede social do presidente antes de serem anunciadas nos canais oficiais do governo."

É justamente nesse contexto que, segundo Praça, investidores brasileiros também podem ser afetados.

"Uma mensagem sobre tarifas contra o Brasil poderia provocar ordens simultâneas em dólar contra real, Ibovespa, ações de exportadoras, ativos brasileiros negociados em Nova York, juros futuros e instrumentos de proteção cambial", afirma.

Segundo ele, o risco aumenta porque parte relevante das negociações envolvendo ativos brasileiros ocorre em mercados internacionais e fora do horário de funcionamento da B3.

"O preço pode começar a se ajustar nos ADRs, no câmbio offshore, nos ETFs e nos mercados futuros antes da abertura do mercado brasileiro", diz.

Painel exibe informações sobre as ações da Truth Social e da Trump Media & Technology Group enquanto um homem observa o celular em frente ao Nasdaq MarketSite, em Nova York, em março de 2024.

Leia no Itatiba1 →