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Como uma 'explosão de fezes' transformou a Terra há 540 milhões de anos

Coprólito conhecido como “The Kraken”, encontrado na Carolina do Sul, nos Estados Unidos. O exemplar é do período Mioceno e, portanto, muito mais recente que os fósseis do Cambriano analisados no estudo.

G1 — Brasil · 2026-08-04T13:30:10.000Z

Coprólito conhecido como “The Kraken”, encontrado na Carolina do Sul, nos Estados Unidos. O exemplar é do período Mioceno e, portanto, muito mais recente que os fósseis do Cambriano analisados no estudo.

Uma grande mudança na forma como os primeiros animais se alimentavam e digeriam comida pode ter ajudado a transformar os oceanos da Terra há cerca de 540 milhões de anos.

Segundo uma nova revisão científica, o aumento na quantidade e na variedade de fezes produzidas naquele período contribuiu para espalhar nutrientes pelo mar e abriu espaço para o surgimento de ecossistemas mais complexos.

Foi nessa época que muitos dos principais grupos de animais começaram a aparecer e a vida marinha passou por uma rápida diversificação, no episódio conhecido como explosão cambriana.

À medida que os animais desenvolveram sistemas digestivos mais elaborados e passaram a consumir diferentes tipos de alimento, também começaram a produzir resíduos maiores e mais variados.

Essas fezes transportavam matéria orgânica da superfície para regiões mais profundas do oceano. Na prática, funcionavam como pequenos pacotes de alimento que afundavam pela água e abasteciam outros organismos.

“Isso aumentou a quantidade de alimento disponível e também ajudou a levar nutrientes importantes para regiões mais profundas do oceano, criando novos espaços para a vida”, explicou ao g1 Russell Bicknell, pesquisador da Universidade Flinders, na Austrália, e um dos autores do trabalho.

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Ilustração da explosão cambriana, período marcado pela rápida diversificação dos animais marinhos há cerca de 540 milhões de anos.

O que os fósseis mostram

A revisão reúne evidências encontradas em mais de 35 depósitos de fósseis ao redor do mundo. Entre elas estão coprólitos — como são chamadas as fezes fossilizadas — que vão de partículas microscópicas a exemplares de alguns centímetros.

Alguns desses resíduos preservam conchas e fragmentos de animais, indicando que as relações de alimentação já estavam se tornando mais variadas.

Os cientistas também encontraram sinais de predação e restos de presas preservados dentro do sistema digestivo de outros fósseis.

Segundo Bicknell, esse último tipo de registro está entre as evidências mais fortes de que a alimentação e a digestão se tornaram mais complexas durante o Cambriano.

Os próprios sistemas digestivos também mudaram. Alguns artrópodes primitivos passaram a apresentar estruturas especializadas, capazes de processar uma variedade maior de alimentos.

Com fezes maiores, uma quantidade maior de matéria orgânica conseguia afundar e circular pelo oceano.

Isso acelerava o transporte de carbono e nutrientes entre a superfície, as regiões mais profundas e o fundo do mar.

Pesquisadores analisaram coleções de coprólitos preservadas em museus de diferentes partes do mundo. Os exemplares fazem parte do material examinado no estudo sobre a chamada “revolução fecal” do Cambriano.

R. Bicknell/Universidade Flinders

Os autores, contudo, não defendem que as fezes sejam a única explicação para a explosão cambriana.

Outros fatores, como o aumento da quantidade de oxigênio, mudanças ambientais e o avanço da predação, também tiveram importância.

O estudo acrescenta uma nova explicação para essa transformação: o transporte de nutrientes pelas fezes dos animais pode ter ajudado a acelerar a diversificação da vida nos oceanos.

“Isso nos dá outro ângulo para considerar. Podemos entender a aceleração desse transporte de matéria pelas fezes como uma importante força impulsionadora”, afirmou Bicknell.

Para os pesquisadores, esse processo ajudou a formar a base dos ecossistemas marinhos atuais, nos quais fezes, restos de organismos e outras partículas continuam levando alimento e nutrientes para diferentes regiões do oceano.

“Foi o começo dos ecossistemas marinhos modernos”, disse o cientista. O artigo foi publicado na revista científica "Trends in Ecology & Evolution".

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