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A cada hora, uma mulher busca ajuda para enfrentar o alcoolismo; procura cresce em canais de A.A.

A cada hora, uma mulher busca ajuda para enfrentar o alcoolismo; procura cresce em canais de A.A.

G1 — Brasil · 2026-08-05T07:01:19.000Z

A cada hora, uma mulher busca ajuda para enfrentar o alcoolismo; procura cresce em canais de A.A.

O consumo abusivo de álcool entre mulheres nunca foi tão alto no Brasil desde o início da série histórica. Ao mesmo tempo, cresce também a procura por apoio para interromper a dependência. Somente no primeiro semestre de 2026, os canais de ajuda do Colcha de Retalhos - uma iniciativa de mulheres alcoólicas de A.A. - registraram 4.862 atendimentos a mulheres de todas as regiões do país. Isso equivale ao equivalente a aproximadamente um atendimento por hora.

Os dados surgem em um contexto de aumento do consumo episódico pesado de bebidas alcoólicas. Segundo análise do Centro de Informações sobre Saúde e Álcool (CISA), baseada no Vigitel, 20,5% da população adulta brasileira relatou esse padrão de consumo em 2024, o maior percentual desde 2010. O avanço foi impulsionado principalmente pelas mulheres, entre as quais a prevalência passou de 10,4% para 15,9% no período.

Apesar da redução das mortes após o pico da pandemia de Covid-19, o alcoolismo continua provocando forte impacto na saúde pública. Em 2023, o Brasil registrou 7.696 mortes por transtorno por uso de álcool, cerca de 21 por dia, além de 40.907 internações relacionadas à doença.

Consumo cresce entre mulheres e reduz diferença histórica

A análise do CISA mostra que o crescimento do consumo episódico pesado foi sustentado quase exclusivamente pelo aumento entre as mulheres.

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Enquanto o percentual feminino passou de 10,4%, em 2010, para 15,9%, em 2024, entre os homens houve estabilidade, variando de 26,9% para 26%. Como consequência, a diferença entre os sexos caiu para o menor nível da série histórica. Entre jovens de 18 a 34 anos, essa distância é de apenas 4,2 pontos percentuais.

O levantamento também mostra que o Sudeste concentra a maior prevalência de consumo excessivo na população geral, enquanto Palmas, Teresina, Cuiabá e Vitória aparecem entre as capitais com maiores índices.

Ao mesmo tempo, houve queda da frequência do consumo diário entre quem bebe e aumento da proporção de pessoas que afirmam nunca consumir bebidas alcoólicas.

Cresce a procura por acolhimento feminino

Para acompanhar uma realidade marcada por especificidades da experiência feminina, a Colcha de Retalhos de Alcoólicos Anônimos ampliou uma rede de acolhimento voltada exclusivamente para mulheres.

No primeiro semestre deste ano, foram realizados 4.862 atendimentos. Março, abril e maio concentraram os maiores volumes de procura, com mais de 800 atendimentos por mês. Atualmente, a iniciativa mantém 80 reuniões femininas, presenciais pelo país e on-line, incluindo grupos voltados para mulheres negras, bariátricas e homoafetivas.

Segundo a organização, o atendimento é feito por mulheres voluntárias que acolhem quem procura ajuda e as convidam a participar das reuniões.

A maioria nunca procura tratamento

Embora o alcoolismo afete milhões de brasileiros, poucos chegam aos serviços de tratamento.

O Terceiro Levantamento Nacional de Álcool e Drogas (Lenad III) estima que 11,9% da população adulta preenche critérios para diagnóstico de transtorno por uso de álcool. Mesmo assim, 95,2% nunca buscaram tratamento para parar de beber, e menos de 5% afirmam já ter feito algum tratamento ao longo da vida.

Mortes caem, mas ainda superam período pré-pandemia

Em 2023, o Brasil registrou 7.696 mortes por transtorno por uso de álcool. Embora represente queda em relação aos anos anteriores, o número ainda permanece acima do registrado antes da pandemia e é 8,9% maior do que o observado em 2010.

Os homens responderam por mais de 90% dos óbitos. No entanto, o perfil das vítimas mudou: enquanto houve redução das mortes entre adultos mais jovens, o número de óbitos entre pessoas com 55 anos ou mais aumentou 59,7% entre 2010 e 2023.

Também cresceram as internações após a pandemia. Em 2023, foram 40.907 hospitalizações por transtorno por uso de álcool — cerca de quatro por hora. As mulheres passaram a representar uma parcela maior dessas internações, e os idosos também aumentaram sua participação entre os pacientes hospitalizados.

"Perdi meu casamento, minha vida financeira e minha dignidade"

B.B., de 48 anos, moradora de Brasília, começou a beber aos 15 anos. Filha de um pai alcoólatra, conta que durante muito tempo acreditou que bebia socialmente, até perceber que não conseguia controlar a quantidade de álcool que consumia.

Ela relata que passou 28 anos convivendo com a doença e que o alcoolismo provocou perdas sucessivas. "Perdi meu casamento, minha vida financeira, a confiança da família e minha dignidade", afirma. Entre apagões e brigas na rua, diz que chegou a perder a vontade de viver. Tentou parar de beber diversas vezes, mas sempre recaía.

O momento mais crítico ocorreu quando foi encontrada desacordada em seu apartamento, em coma alcoólico e convulsionando. Dois dias depois, conheceu Alcoólicos Anônimos por meio da linha de ajuda on-line. Ainda sofreu uma recaída no réveillon de 2023 para 2024, mas retornou às reuniões e decidiu seguir o programa de recuperação. Hoje, afirma dedicar parte da rotina ao tratamento, diz ter recuperado o vínculo com os filhos e a família e considera a irmandade sua "filosofia de vida".

"A bebida ajudou a esconder quem eu era"

Beta, de 48 anos, se apresenta como "uma mulher cis, lésbica, negra alcoólica". Ela conta que percebeu ainda na infância que se sentia atraída por meninas, mas cresceu cercada por dúvidas, medo da rejeição e falta de acolhimento. Ao mesmo tempo em que sua orientação sexual era alvo de questionamentos, lembra que o contato com o álcool era naturalizado desde cedo: experimentava espuma de cerveja aos seis anos e, aos 13, já era autorizada a beber.

Na faculdade, relata que ir ao bar fazia parte da rotina e que a bebida funcionava como uma forma de diminuir o medo de se aproximar das mulheres pelas quais sentia atração. O que começou como diversão, porém, tornou-se um tormento. Ela foi casada por 14 anos e afirma que a esposa sofreu com seu alcoolismo, especialmente durante as internações.

Depois de entrar e sair algumas vezes de Alcoólicos Anônimos, Beta retornou por meio das reuniões on-line e passou a frequentar encontros voltados para mulheres homoafetivas. Segundo ela, esses espaços lhe deram identificação, acolhimento e a possibilidade de falar sobre sua orientação sexual e sua dependência sem medo de julgamentos. "Não estamos dispersas, mas somos diversas", escreve em seu relato.

Hoje, diz sentir orgulho de quem é e afirma que essas reuniões foram fundamentais para que permanecesse em recuperação.

"Escondia a bebida dos meus filhos"

A história de Kika, de 51 anos, começou a mudar após a separação. Ela conta que passou a beber com mais frequência em encontros com amigas e durante os relacionamentos, até que o álcool entrou também na rotina dentro de casa como uma forma de aliviar o estresse provocado pelo trabalho, pelas responsabilidades com as três filhas, pelas contas e pela violência psicológica praticada pelo ex-marido. Durante a pandemia, diz que o consumo se intensificou e perdeu completamente o controle.

Ela relata que escondia bebidas dos filhos e familiares, protagonizava escândalos, acordava sem lembrar onde estava e chegou a colocar a própria segurança em risco.

Embora prometesse repetidamente às filhas que deixaria de beber, afirma que ainda não aceitava que era alcoólatra. Mesmo após procurar um psiquiatra e iniciar medicação, continuava consumindo álcool junto com o tratamento.

Segundo Kika, o ponto de virada ocorreu quando o pai de suas filhas entrou na Justiça pedindo a guarda unilateral por considerar que o alcoolismo colocava as crianças em risco. Pouco depois, recebeu o convite para participar de uma reunião feminina on-line de Alcoólicos Anônimos. Ela conta que, ao ouvir outras mulheres, percebeu que suas histórias eram parecidas com a dela e decidiu permanecer no grupo.

Um ano após abandonar o álcool, diz que passou a dormir melhor, retomou a prática de exercícios físicos, melhorou a alimentação e aprendeu a lidar de forma diferente com as próprias emoções.

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