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Marco Zero de João Pessoa: a controvérsia do ponto histórico e o reflexo negativo no turismo
G1 — Brasil · 2026-08-05T09:00:38.000Z
Marco Zero de João Pessoa: a controvérsia do ponto histórico e o reflexo negativo no turismo
Angélica Nunes/Jornal da Paraíba
João Pessoa completa 441 anos nesta quarta-feira (5), mas, mesmo tanto tempo depois de sua fundação, ainda não há um consenso sobre onde seria o Marco Zero da capital. Um ponto histórico chegou a ser definido por lei, ainda em 2019, mas, atualmente, está deteriorado e abriga uma controvérsia: o monumento, de fato, representa a origem da cidade?
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Essa situação traz consigo um problema: ao contrário de outras capitais do Nordeste, como Recife, em Pernambuco, e Salvador, na Bahia, que têm Marcos Zeros conhecidos, que atraem turistas, João Pessoa deixa de preencher uma lacuna que poderia ser aproveitada. Pelo menos é o que afrima parte do setor de turismo no estado.
O g1 conversou com um historiador para saber da controvérsia da localização do Marco Zero. Ele afirma que há outros pontos que se encaixariam melhor no que é possível chamar como ponto inicial na cidade, levando em consideração registros hitóricos.
A reportagem também teve acesso a lei que definiu o Marco Zero de João Pessoa e entrevistou pessoas do ramo de turismo na capital, que apontaram que a economia local poderia aproveitar bem mais o turismo na região tendo um símbolo de origem forte no município.
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O Marco Zero definido por lei
Um projeto de lei elaborado em 8 de maio em 2018, de autoria do vereador Humberto Pontes, instituiu Marco Zero da cidade de João Pessoa. Alguns meses depois, em dezembro daquele ano, após aprovação em plenário da Câmara Municipal, o projeto foi para sanção do então prefeito Luciano Cartaxo.
O prefeito à época vetou o projeto, alegando "vícios" na elaboração e que "não é possível fixar tecnicamente o local exato do surgimento da cidade". Foi afirmado ainda que a "propositura contraria o interesse público, considerando que a localização determinada no texto do projeto de lei ordinária não é certa".
Mesmo com este impasse, a matéria voltou para a Câmara Municipal, que derrubou o veto e oficializou o Marco Zero em João Pessoa, por força de lei, em 2019.
No texto de oficialização de publicação da lei, a Câmara definiu "o Marco Zero da cidade de João Pessoa localizado ao lado da Catedral Basílica Nossa Senhora das Neves localizada, na Praça Dom Ulrico, no bairro do Centro, em João Pessoa".
O ponto fixo atribuído ao Marco Zero da capital na praça, segundo o texto da lei, "é definido pela localização geodésica estudada e determinada pelo Poder Executivo através da Malha de Marcos Geodésicos da cidade de João Pessoa".
🔍 Essa marcação geodésica citada na lei é um conjunto de pontos no solo de João Pessoa com coordenadas exatas de posição e altura, criada em 1998, junto com o Mapa Urbano Básico da capital. Esses pontos ajudam em medições de terrenos, mapas e obras na cidade, por exemplo.
Ou seja, pelo texto da lei em vigor,o Marco Zero de João Pessoa fica localizado na Praça Dom Ulrico. Nesse local, há o Marco Geodésico e, ao lado dessa pedra, há um monumento de sinalização de que o local determinou coordenadas geográficas em 1921 e 1922.
Tanto o marco geodésico, quanto monumento de sinalização de coordenadas geográficas estão, atualmente, deteriorados, e não há outras alusões de que naquele local começou a cidade.
No próprio texto da lei, já em 2019, a situação de deterioração havia sido ressaltada. Veja trecho abaixo.
"A pedra que caracteriza o marco zero, datada de 1922, está quebrada e quase não se consegue ler as informações contidas no monumento. O mesmo ocorre com a placa de sinalização turística daquela área, que se encontra deteriorada pela ação de vândalos", diz o trecho.
Também no texto da lei, há a menção de que o local deveria ser "utilizado para atividades turísticas, culturais e artísticas", mas "foi depredado e atualmente serve apenas de estacionamento".
Marco Zero definido por lei fica na Praça Dom Ulrico, em João Pessoa, ao lado de igreja
TV Cabo Branco
Para o professor Ângelo Emílio da Silva, do Departamento de História da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), no entanto, nenhum dos dois monumentos podem ser considerados Marcos Zeros da cidade, apesar da região em que a Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves está ser uma das fortes candidatas para abrigar um Marco Zero.
"Lamentavelmente, as pessoas colocam o marco geodésico, uma coisa bem posterior, que tem outras finalidades em relação aos trabalhos do IBGE, como se fosse um marco de fundação. Não é, apesar, como eu disse, da proximidade física (da igreja). Inclusive ao lado, há um antigo monumento que está dessegurado, mutilado, que é um marco de pedra e que tinha um mármore na frente, existia, foi quebrado", ressaltou o professor.
Outros Marcos Zeros em João Pessoa
Varadouro e Rio Sanhauá ao fundo
TV Cabo Branco
O historiador explicou que, embora exista a lei que define o Marco Zero de João Pessoa na região da Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves — área que, segundo os registros históricos, corresponde ao núcleo inicial de formação do município —, há outros locais que aparecem como possíveis candidatos ao Marco Zero da cidade, levando em consideração registros históricos.
Para afirmar isso, o professor remonta ao ano de 1585, ano de fundação da cidade. Ele explica que naquele período, havia a chamada União Ibérica, em que as Coroas Portuguesas e Espanholas estavam sob um mesmo domínio.
Nesse contexto, após um acordo luso-espanhol com a tribo indígena dos Tabajaras, que estava no território antes da colonização, possibilitou que os colonos pudessem se estabelecer em torno do Varadouro.
"Se a gente for atrás de uma origem canônica, ela estaria entre o Varadouro e o topo da colina. Não há muitos registros remanescentes do século XVI. Nós temos o mau hábito de deixar os nossos arquivos se perderem, então não se sabe exatamente se foi produzido algum documento, à época, que estabelecesse isso", acrescentou.
O pesquisador afirmou que, no entanto, mesmo com o acordo luso-espanhol com os Tabajaras vinculado a região do Varadouro, outros Marcos Zeros podem ser apontados a depender da régua histórica utilizada para delimitar um ponto de origem. Ele cita, por exemplo, o momento inicial em que os próprios colonizadores chegaram na terra que mais tarde se tornaria João Pessoa, antes de qualquer acentamento. E, claro, os povos originários, que já viviam no lugar.
"Em primeiro lugar, existe uma diferença de visões. Se considerarmos o momento dos primeiros ensaios de povoamento, eles ocorreram próximos da Igreja de São Pedro Gonçalves, no Varadouro, e na região do Porto do Capim", ponderou.
Em um segundo momento, o pesquisador ressalta que se a régua para considerar um local Marco Zero for a estruturação de empreendimentos e órgãos oficiais, o ponto de origem muda novamente em João Pessoa.
"Se considerarmos um empreendimento oficial mais formalizado, ele acontece quando se demarca a Rua Nova, atual General Osório, e, a partir dela, começam a ser instaladas, de fato, as instituições de poder: a Paróquia de Nossa Senhora das Neves, alusiva ao dia 5 de agosto, e a Câmara Municipal. A Câmara é, do ponto de vista legal português, a estrutura que define a existência de um município", explicou.
Mesmo com esses outros pontos sendo viáveis como Marcos Zeros, há ainda uma outra questão: de que a história não é fixa, segundo o professor. Esses pontos de referências estão sujeitos à ação do tempo, porque a cidade se desenvolve e, mesmo após o início, outras histórias são escritas e, muitas vezes, reescritas, nos mesmos espaços urbanos.
"De certa maneira esses marcos andam. A perda dessas referências, somada ao crescimento urbano e à derrubada de vários desses elementos, faz com que hoje existam muitas lacunas. E essas lacunas levam, de fato, as controvérsias. Eu acredito que foram essas próprias controvérsias que acabaram criando uma falta de consenso sobre o tema, apesar de existir uma legislação pertinente a essa situação", ressaltou.
Partes do setor de turismo veêm pouco aproveitamento do Marco Zero
Catedral Basílica de Nossa Senhora das Neves, em João Pessoa
TV Cabo Branco/Reprodução
Com um Marco Zero oficial deteriorado pela ação do tempo e com uma controvérsia histórica em aberto sobre qual seria o local da origem da cidade, partes do setor de turismo em João Pessoa cobram uma atenção maior sobre a questão. O argumento é de que um "Marco Zero forte" fomentaria ainda mais o turismo na capital.
Essa é a impressão do empreendedor do ramo de turismo, Michael Bruno, que trabalha diretamente com excursões de pessoas de fora do estado para João Pessoa e outras cidades. Especificamente sobre o turismo histórico, ele disse que a ausência de um Marco Zero reconhecido faz falta.
"Absolutamente ninguém, quando chega pra fazer um passeio, ninguém pergunta onde que fica o Marco Zero da cidade. Até porque aqui é outra realidade, diferente de Recife, que o Marco Zero é muito visitado, é uma referência. Aqui a gente não tem essa referência da nossa própria história. É uma pena", ressaltou.
No lado econômico, o economista Cássio Besaria, mestre na área pela UFPB, disse que ter um Marco Zero reconhecido e atratível, semelhante ao de outras cidades capitais do Nordeste, poderia fomentar um maior aquecimento econômico e atrair mais dinheiro.
"O fluxo de visitantes trazido pelo Marco Zero pode impulsionar o comércio, a gastronomia, os equipamentos culturais e até mesmo os serviços turísticos do entorno, podendo aumentar o tempo de permanência dos turistas e os seus gastos na região. Para João Pessoa, um Marco Zero bem definido, preservado e reconhecido poderia contribuir para fortalecer a identidade do centro histórico, ampliar sua atratividade turística e potencializar os impactos econômicos sobre os empreendimentos locais", ressaltou.
Já na ponta da linha, para quem sente os negócios diretamente, Michael Bruno, mesmo com a controvérsia sobre o Marco Zero na cidade e com um atual ponto de origem deteriorado, é possível criar um Marco Zero para valorizar a riqueza histórica da cidade e, por consequência, aumentar o retorno da economia do turismo. Ele argumenta que além do poder público, a população também deveria tomar consciência disso para tentar uma mudança.
"Existe um abandono, existe falta de interesse do setor público, da própria população. E temos uma grande problemática, ou João Pessoa começa a se reinventar, com atrativos turísticos, que visem valorizar nossa identidade histórica, ou então a nossa história se perderá com o tempo. Não existirão marcos históricos, não existirá mais nada, apenas escombros, ruínas e nenhuma memória", afirmou.
O que diz a prefeitura
Em nota enviada para a Rádio CBN, o secretário Thiago Lucena, da Secretaria de Preservação, Revitalização e Inovação do Centro Histórico de João Pessoa (Inovacentro), disse que a discussão sobre o Marco Zero "precisa sair da polêmica e ser conduzida com seriedade, participação popular e fundamento histórico".
O secretário afirmou que a pasta está "propondo a criação de um processo público, técnico e participativo" e que está "convidando representantes de instituições como UFPB, IPHAN, IPHAEP, Instituto Histórico e Geográfico da Paraiba, Comitê de Fomento ao Centro Histórico e Arquidiocese".
Ele afirmou que a "proposta prevê consulta pública, recebimento de estudos, documentos, fotografias, mapas e relatos históricos, além de audiência pública e elaboração de um dossiê técnico final".
Com isso, o secretário disse também que a "comissão apresentará uma recomendação fundamentada sobre a manutenção ou eventual alteração da lei atual". Segundo ele, a secretaria quer "construir uma definição segura, transparente e reconhecida pela população, que fortaleça a memória, a identidade e o turismo do Centro Histórico.
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