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Ilustração da dinâmica da aeronave em queda
G1 — Brasil · 2026-08-05T14:47:25.000Z
Ilustração da dinâmica da aeronave em queda
A equipe do Fantástico teve acesso com exclusividade ao laudo da Polícia Federal (PF) sobre a queda do avião da Voepass, que matou 62 pessoas, em Vinhedo, no interior de São Paulo, em 2024. A investigação reconstruiu os últimos voos da aeronave e concluiu que havia uma sequência de falhas no sistema de degelo, conhecida pela tripulação e repetida em voos anteriores, sem que isso impedisse o avião de continuar operando.
Antes mesmo da tragédia, o problema já havia se manifestado. No voo que antecedeu o acidente, entre Guarulhos e Cascavel, o comandante comenta sobre o gelo acumulado na aeronave.
O Fantástico está preparando uma reportagem sobre esse tema para o próximo domingo (9).
Conversa dos tripulantes na cabine da aeronave:
Piloto: "O lá o gelo... o gelo foi embora agora, finalmente. Escutei um barulho aqui, foi o gelo que voou."
Depois do pouso, aliviado, ele diz ao copiloto:
Copiloto: "Muito bom, comandante".
Piloto: "Chegamos vivos".
Pouco tempo depois, a mesma aeronave decola novamente para o voo que terminaria em tragédia.
Ainda na subida, surge o primeiro alerta crítico.
Piloto: "É o 'Airframe' que deu 'fault'... pode tirar, pode tirar... pelo menos a gente já sabe que tá..."
Poucos segundos depois, enquanto os alertas continuam aparecendo, o comandante faz uma comparação que chama a atenção.
Copiloto: "Olha a situação, se bem que não tá reportado isso aí, mas pra gente não pegar gelo teria que ir no 110, né?"
Piloto: "Foi só eu falar. O avião escutou. Esse avião parece aquele Fusquinha, Herbie lá... Herbie, filme bem antigo."
Na sequência, o copiloto demonstra preocupação com a rota.
Agora no g1
Segundo a PF, naquele momento o alerta AIRFRAME FAULT indicava falha no sistema pneumático de degelo da aeronave. O procedimento previsto pelo fabricante determinava que a tripulação deixasse imediatamente a região de formação de gelo. Mas os dados do gravador de voo mostram que isso não aconteceu.
Quase uma hora depois, quando o avião já se aproximava de São Paulo, a situação se agrava.
O copiloto observa:
Copiloto: "Bastante gelo."
Em seguida, tenta acionar novamente o sistema de degelo.
Copiloto: "Ligar o airframe."
A resposta do comandante é direta.
Piloto - "Essa bosta não tá funcionando, né?"
Alarme de estol – 48 segundos.
Alerta de proximidade do solo.
TAWS: “Pull-up... Pull-up”.
Esse alerta sonoro significa que o sistema da aeronave (o TAWS/GPWS – Terrain Awareness and Warning System) passou a emitir o aviso para que os pilotos interrompessem imediatamente a descida e elevassem o nariz da aeronave, porque havia risco iminente de colisão com o solo. O comando de voz "Pull up" é um dos alertas mais críticos da aviação. Ele não está relacionado ao gelo ou ao estol, mas sim à proximidade perigosa do terreno.
Estol (do inglês stall) é a perda de sustentação de uma aeronave, causada pelo aumento excessivo do ângulo de ataque ou pela redução drástica da velocidade.
Os computadores da aeronave começam a emitir uma cascata de alertas: Performance Degradada, Increase Speed e, logo depois, o alarme de estol. Em menos de um minuto, o avião perde sustentação, entra em estol e depois em parafuso até atingir o solo.
O Cenipa (Centro de Investigação e Prevenção de Acidentes Aeronáuticos) faz uma investigação sem apontar culpados, com objetivo de evitar que novos acidentes aconteçam. A PF faz perícia criminal visando eventual responsabilização penal, buscando indícios de crime e possíveis culpados.
Gravador de voo - Flight Recorder
O relatório da Polícia Federal aponta que os pilotos deixaram de executar, no momento correto, procedimentos previstos pelo fabricante para uma falha no sistema de degelo, para degradação de performance, para condições severas de gelo e para recuperação de estol. Havia um intervalo de aproximadamente 20 segundos entre o alerta INcrease Speed e o início do parafuso, tempo em que ainda existia possibilidade de intervenção da tripulação.
Ao analisar os computadores de bordo, os peritos descobriram que a mensagem AIRFRAME FAULT havia sido registrada no voo do acidente e em outros 3 voos anteriores. Em todos eles, as tripulações repetiram diversas vezes o mesmo procedimento: desligavam e ligavam o sistema de degelo numa tentativa de restaurar seu funcionamento. No voo anterior ao acidente, o PTB 2282, o alerta foi registrado oito vezes e o sistema passou por pelo menos cinco tentativas de reset.
Para a Polícia Federal, isso demonstra que o comandante já tinha conhecimento de que o sistema apresentava falhas intermitentes. Ainda assim, aceitou decolar novamente em uma rota onde havia previsão oficial de formação de gelo. O laudo afirma que, se essas falhas tivessem sido registradas formalmente pelas tripulações anteriores, a aeronave não poderia ter sido despachada para operar nessas condições, porque a Lista de Equipamentos Mínimos proíbe esse tipo de operação com o sistema de degelo inoperante. “Quando as tripulações dos voos anteriores deixaram de registrar falhas do sistema de degelo, permitiram que discrepâncias repetitivas e críticas permanecessem ocultas, contribuindo para que o sistema de degelo pneumaticamente comandado continuasse operando com intermitência não sanadas”, diz o relatório.
Outro desvio apontado pela investigação envolve o despacho operacional da aeronave. Embora não tenha relação direta com a causa do acidente, o avião foi liberado para decolar mesmo apresentando uma falha no limpador de para-brisa, situação que contrariava a Lista de Equipamentos Mínimos diante da previsão de chuva no destino. Segundo a Polícia Federal, houve desvio tanto do Despachante Operacional de Voo quanto do comandante.
Ao final de quase 200 páginas, a conclusão da Polícia Federal é: a tragédia foi resultado da combinação entre falhas recorrentes no sistema de degelo, operação em uma área de formação severa de gelo, falhas na execução dos procedimentos previstos pelo fabricante e sucessivas barreiras de segurança que deixaram de funcionar antes do voo que terminou com a morte de 62 pessoas.
Na próxima quinta-feira, a Polícia Federal deve concluir o inquérito sobre a queda do avião da Voepass e apontar os responsáveis pelo acidente. O Fantástico apurou que haverá indiciamentos, este é o primeiro acidente aéreo da história da aviação brasileira a resultar na responsabilização criminal dos investigados em grandes voos comerciais.