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Pesquisa fez transplante de coco para curar alergia a amendoim
G1 — Brasil · 2026-08-06T11:33:35.000Z
Pesquisa fez transplante de coco para curar alergia a amendoim
Seis pessoas com alergia grave a amendoim passaram a tolerar a oleaginosa depois de receber um transplante de bactérias intestinais, segundo um estudo publicado nesta quarta-feira (5) na revista científica Science Translational Medicine.
A pesquisa, feita com com 15 participantes, é a primeira evidência de que esse tipo de transplante — a transferência de bactérias coletadas de fezes de doadores saudáveis — pode funcionar como tratamento para alergia alimentar em humanos.
Como era a alergia antes do tratamento
Antes de entrar no estudo, os 15 participantes reagiam a quantidades mínimas da proteína do amendoim: não conseguiam consumir mais de 100 miligramas sem desenvolver uma reação. Isso é o equivalente a menos de meio amendoim.
Quatro meses após o transplante, a reação mudou para seis deles:
Um participante passou a tolerar 300 miligramas da proteína, e outros cinco chegaram a 600 miligramas ou mais — cerca de dois amendoins e meio.
Médicos apontam que o efeito, quando aparece, tende a se manter por um período prolongado, o que dá peso clínico ao resultado.
Hoje, a única opção para esses pacientes é evitar totalmente o alimento e carregar adrenalina injetável para o caso de exposição acidental.
Intolerância ou alergia alimentar?
Como foi feito o transplante
A hipótese por trás do estudo vem de observações anteriores: pesquisas já haviam relacionado alergias alimentares a níveis baixos de determinadas bactérias no intestino, e testes em camundongos mostraram que tratar os animais com um conjunto diversificado de espécies bacterianas mantinha as alergias sob controle.
A partir daí, os pesquisadores testaram transplantes fecais de pessoas sem alergia alimentar — que carregam uma variedade maior de bactérias intestinais — como forma de modular o sistema imunológico de quem tem a alergia.
No ensaio clínico, os 15 participantes tomaram um comprimido sem cheiro e sem sabor contendo bactérias intestinais de voluntários saudáveis e sem alergia a amendoim. A maioria recebeu 36 comprimidos em um único dia, sem efeitos colaterais graves. Cinco participantes também tomaram antibióticos por quatro dias antes do transplante.
Nove dos 15 participantes não apresentaram melhora. Os autores levantam três explicações possíveis, ainda não confirmadas:
as bactérias podem não ter se fixado no intestino desses pacientes;
o sexo pode ter influência, já que cinco das seis pessoas que responderam eram homens;
e a maioria de quem não respondeu também não recebeu antibiótico antes do transplante.
O papel de uma bactéria específica
Para entender melhor o mecanismo, os pesquisadores transplantaram bactérias intestinais das fezes dos próprios participantes em camundongos e testaram a reação dos animais a uma proteína diferente, a do ovo.
As bactérias de quem respondeu bem ao tratamento em humanos também protegeram os camundongos contra o desenvolvimento de alergia à proteína do ovo, enquanto os animais que receberam bactérias de participantes que continuaram muito sensíveis ao amendoim desenvolveram alergia ao ovo.
Como o alérgeno testado nos camundongos foi diferente do amendoim, o coautor do estudo Talal Chatila, imunologista da Harvard Medical School, em Boston, avalia que o tratamento deve funcionar para mais tipos de alergia alimentar, e não apenas para a de amendoim.
A equipe também identificou uma espécie bacteriana específica que protegeu os camundongos contra a alergia, a Bacteroides ovatus. Chatila descreve encontrar uma bactéria capaz de tornar o sistema imunológico menos reativo como o principal objetivo perseguido nesse campo de pesquisa.
Próxima fase dos testes
Apesar dos resultados, os próprios pesquisadores frisam que o transplante de bactérias intestinais para tratar alergia alimentar ainda está longe de chegar aos consultórios.
Os autores estão perto de concluir o recrutamento para um segundo ensaio clínico, maior, que deve indicar quais outras bactérias produzem efeito positivo e quais pacientes tendem a se beneficiar do tratamento.
Nessa nova fase, os participantes receberão uma dose cerca de 12 vezes maior do coquetel bacteriano, distribuída ao longo de um mês — e não mais concentrada em um único dia, como no primeiro estudo.