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Argentina é o país mais racista do mundo? Entenda por que esse debate ganhou força após a Copa
G1 — Brasil · 2026-08-06T12:10:04.000Z
Argentina é o país mais racista do mundo? Entenda por que esse debate ganhou força após a Copa
Durante séculos, o racismo permaneceu à margem do debate público na Argentina, que construiu a ideia de uma nação com raízes apenas europeias. Bastou a Copa do Mundo transformar episódios muitas vezes tratados como "piadas de torcida" em um escândalo internacional para que o tema passasse a ocupar programas de televisão, redes sociais e conversas cotidianas.
Esse processo também ampliou o espaço para grupos antirracistas, que já existiam há muito tempo no país, terem mais voz.
"A Copa evidenciou uma questão que antes estava invisibilizada", afirma Miriam Gomes, professora, ativista e líder do movimento afro-argentino.
A antropóloga e pesquisadora do Conicet, Natalia Gavazzo, comemora que a Argentina tenha sido colocada "de frente ao espelho" com os ataques porque, segundo ela, o racismo nunca foi debatido no país como ocorre agora.
"As pessoas estão falando disso na fila do mercado, nas ruas e até em casa. Depois da Copa, começaram a chegar essas críticas e muita gente achou que tinha que se defender, mas ao mesmo tempo esses movimentos antirracistas do país passaram a ser mais escutados e acho que agora temos uma oportunidade de entender nossa própria história", diz.
Uma das perguntas que passou a circular nessa onda nas redes foi: seria a Argentina o país mais racista do mundo?
A professora Miriam é categórica: o país é racista, mas não o mais racista do mundo.
"De maneira nenhuma. Aqui não existiram leis de Apartheid, como na África do Sul, ou as leis Jim Crow, como nos Estados Unidos, mas existiu segregação, há preconceitos, estereótipos e também um racismo estrutural e institucional".
A ativista Chana Mamani e a professora Miriam Gomes
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Mito da 'Argentina branca europeia' e o 'sumiço' da população negra
Para entender a história da Argentina é preciso avançar sobre como foi criado o mito de uma Argentina branca e europeia, fomentado por séculos.
"Foi um projeto implementado na segunda metade do século XIX. Uma geração de pensadores, políticos, sociólogos e educadores se deram a tarefa de pensar o país, ou seja, desenhar que país queríamos ser", diz Miriam.
A antropóloga Natália também explica que foi criada a ideia de que na Argentina as raças foram se mesclando e formaram uma só. "Foi criado um pensamento que hierarquizou as raças como superiores e inferiores, e nossa população indígena foi considerada como bárbara. O racismo cresceu no país e foi criada uma série de medidas para estimular a imigração europeia até a metade do século XX, que fez com que a nossa população mudasse demograficamente".
A entrada massiva de imigrantes europeus, segundo Miriam, fez diminuir, em termos relativos, a proporção de povos originários e da população negra no país. O cenário foi usado para criar uma narrativa nacional e simbólica de que a Argentina foi construída apenas por essa imigração europeia. Porém, grupos étnicos não desapareceram do país.
"Falam como se fôssemos dinossauros que foram extintos", conta Miriam. “Se você perguntar a qualquer pessoa na Argentina o que aconteceu com pessoas negras, vão dizer que desaparecemos nas guerras ou nas epidemias de doenças. E tudo isso é uma falácia”.
A Argentina também demorou mais de 100 anos para colocar uma pergunta sobre raça no censo nacional, com a ideia enraizada de que não havia variedade de etnias no país.
Miriam afirma que apenas nos anos 2000, em pleno século XXI, foi possível levar adiante um primeiro piloto, que ensaiaria essa classificação da população. Em 2010, a questão foi oficialmente incluída na contagem demográfica, mas com um resultado que não condizia ainda com a realidade.
"Havia uma dificuldade até das pessoas se identificarem com suas raças. Também havia pessoas negras que eram caracterizadas na Argentina com o termo 'trigueño', que significa literalmente ‘cor de trigo’, mas era uma armadilha para a real identificação de negros. Sabíamos que éramos mais e o resultado [desse censo] foi que apenas 150 mil pessoas se reconheciam como afrodescendentes".
Em 2022, o censo do Indec, o Instituto de Estatística da Argentina, fez novamente a pergunta em todos os domicílios do país. Os dados mostraram um aumento expressivo no número de pessoas que passaram a se autodeclarar de outras raças. Ao todo, a pesquisa registrou 302.936 afrodescendentes e 1.306.730 indígenas.
"Os números duplicaram. Mesmo ainda sendo baixo, é um salto quantitativo muito importante", completa Miriam.
Sem reconhecer oficialmente sua diversidade étnico-racial durante mais de um século, a Argentina também dificultou o debate público sobre racismo e a formulação de políticas públicas. E essa ideia está também dentro do discurso dos dirigentes do país.
Em 2024, a vice-presidente argentina, Victoria Villarruel, foi duramente criticada porque defendeu a seleção argentina que, em uma live feita pelo jogador Enzo Fernández, estava cantando uma música criada pela torcida com frases racistas contra jogadores franceses. Em um trecho a música diz o seguinte: "A mãe deles é nigeriana, o pai deles é camaronês, mas no passaporte: francês".
O discurso não faz parte apenas da ala conservadora de governos argentinos.
Em 2021, o então presidente peronista Alberto Fernández criou uma polêmica enorme ao afirmar durante uma coletiva com o governo espanhol que: "Os mexicanos vieram dos índios (sic), os brasileiros da selva, mas nós, os argentinos, chegamos de barcos, e eram barcos que vieram de lá, da Europa". Em 1996, outro ex-presidente Carlos Menem afirmou: "Não temos negros na Argentina, esse problema quem tem é o Brasil".
"Dupla ou tripla falácia, primeiro porque diz que somos um problema e que não existimos, e que, em todo caso, estamos apenas no Brasil", diz Miriam.
A ativista fala sobre o questionário que responde muitas vezes em seu próprio país quando as pessoas tentam entender de onde ela veio, mesmo tendo nascido na Argentina.
"Existe o que chamamos de 'estrangeirização' porque perguntam se eu sou do Brasil ou do Uruguai. E segue o interrogatório até eu dizer: 'meus avós vieram de Cabo Verde', e então as pessoas se tranquilizam dizendo: 'bom, aí está'. É como se eu fosse menos argentina do que os descendentes de italianos, por exemplo", afirma.
Além do ativismo afro-argentino, outra luta antirracista vem tomando voz: a dos povos originários.
Chana Mamani se apresenta como parte da população aimará, de origem boliviana, cidadã argentina e co-fundadora do coletivo Identidad Marrón da Argentina. "É uma organização civil que aborda temas de racismo para visibilizar e obviamente tratar de modificar o racismo que existe na região", afirma.
O termo 'marrom' usado por décadas como pejorativo foi ressignificado por movimentos sociais e hoje virou símbolo de orgulho das raízes indígenas e populares.
A luta pela identidade de uma Argentina mais diversa também é ressoada na música urbana do país. Entre a nova geração, o maior expoente é Camilo Joaquín Villarruel, mais conhecido como Milo J. O artista foi buscar na ancestralidade argentina as batidas para misturar com o trap moderno e criar o álbum "La Vida Era Más Corta".
Milo J no clipe "Bajo De La Piel"
As músicas do jovem de apenas 19 anos nascido em Morón, na periferia de Buenos Aires, são consideradas um manifesto.
Em uma entrevista concedida à Billboard Argentina, Milo J afirmou: "Eu sou marrom, meu álbum é marrom, e marrom é a cor secundária da Argentina".
Mamani também fala da construção histórica e política argentina que consolidou uma identidade no país apenas baseada nessa imigração europeia.
"Há algo ao longo da história que foi criado no imaginário coletivo e, de alguma forma, invisibilizando e negando a existência neste caso dos povos indígenas e afrodescendentes. Estamos falando sobre isso agora", afirma.
A ativista vê um caminho importante para debater o tema que pode gerar uma transformação.
A antropóloga Natalia Gavazzo também comemora o momento de debate mais profundo sobre a diversidade que existe na Argentina.
"Celebro essa campanha porque isso nos obriga a nos escutar, a debater algo que agora estamos conseguindo colocar em palavras. Quem sabe isso servirá para que a gente entenda que a Argentina não é apenas branca, mas também formada por povos indígenas, herança ancestral, marrom e tantas outras raças que permanecem ocultas para quem visita apenas Buenos Aires ou a Recoleta. Nossa história é muito mais rica e diversa", afirma.
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