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Pela primeira vez, IA cria vírus que não existiam na natureza; entenda o avanço e os riscos

Pela primeira vez, cientistas conseguiram fazer com que uma inteligência artificial desenhasse o genoma completo de um vírus — não apenas um gene isolado, mas o conjunto inteiro de instruções genéticas necessárias para que o organismo…

G1 — Brasil · 2026-08-06T19:38:04.000Z

Pela primeira vez, cientistas conseguiram fazer com que uma inteligência artificial desenhasse o genoma completo de um vírus — não apenas um gene isolado, mas o conjunto inteiro de instruções genéticas necessárias para que o organismo funcione, se reproduza e infecte um hospedeiro.

O estudo, publicado nesta quinta-feira (6) na prestigiada revista científica "Science", foi conduzido por pesquisadores do Arc Institute e da Universidade Stanford, nos Estados Unidos, e é considerado um marco na chamada biologia sintética.

A equipe usou um sistema de IA chamado Evo, que funciona de um jeito parecido com o ChatGPT e outros modelos de linguagem: em vez de aprender a prever a próxima palavra de uma frase, o Evo aprendeu a prever a sequência de "letras" do DNA — as bases A, C, G e T que formam o nosso código genético.

🧬 Para isso, ele foi alimentado com o material genético de milhões de bactérias, plantas, animais e vírus.

Depois de treinado, o sistema foi direcionado a criar genomas de bacteriófagos, um tipo de vírus que infecta exclusivamente bactérias e é inofensivo para humanos.

Como modelo, os cientistas usaram o ΦX174, um vírus pequeno e extremamente bem estudado, cujo genoma tem cerca de 5.400 letras, bem menos que as cerca de 500 mil letras do genoma da bactéria mais simples, e um universo de distância das 3 bilhões de letras do DNA humano.

🔎 ENTENDA: O DNA funciona como um grande manual de instruções: o que muda de um organismo para outro não são as “letras” disponíveis, mas a ordem em que elas aparecem. O genoma é o conjunto completo dessas instruções, incluindo os trechos que orientam quando e como cada parte deve ser usada.

A IA gerou centenas de milhares de propostas de genomas. Os pesquisadores selecionaram as mais promissoras, encomendaram a síntese de quase 300 delas em laboratório e as testaram contra bactérias E. coli.

O resultado: 16 desses vírus criados por computador se mostraram viáveis, ou seja, conseguiram se multiplicar e destruir as bactérias, assim como um vírus natural faria.

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É como se a IA tivesse aprendido a "gramática" da vida — as regras que fazem um gene funcionar corretamente ao lado do outro — sem nunca ter sido ensinada explicitamente sobre elas, apenas observando milhões de exemplos prontos.

O mais chamativo dos resultados, porém, foi outro: quando os cientistas expuseram os vírus artificiais a bactérias que haviam desenvolvido resistência ao vírus natural ΦX174, uma combinação dos vírus gerados pela IA conseguiu vencer essa resistência — algo que um coquetel de vírus naturais parecidos não foi capaz de fazer.

Isso sugere que, no futuro, a tecnologia pode ajudar a criar tratamentos contra infecções bacterianas que não respondem mais a antibióticos, um problema crescente na medicina.

"Os grupos que forem realizar esse tipo de trabalho de desenho de genomas completos devem consultar profissionais de segurança biológica ao longo de todo o projeto", disseram os autores no estudo.

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Essa ressalva não é à toa. Ao mesmo tempo em que comemoram o avanço, os próprios pesquisadores e outros especialistas apontam riscos.

Se uma IA consegue reconstruir as regras que permitem montar um vírus funcional a partir do zero, existe a preocupação de que, no futuro, uma tecnologia semelhante possa ser usada para desenhar patógenos mais perigosos, capazes de infectar pessoas, animais ou plantas.

Por isso, a equipe adotou uma série de precauções. O sistema não recebeu, durante o treinamento, nenhuma informação genética de vírus que infectam humanos, e sequências de vírus que atacam outros animais, plantas ou fungos também foram excluídas de propósito.

⚠️ Todo o trabalho foi feito no nível de segurança laboratorial recomendado para bacteriófagos, considerados de baixo risco.

Ainda assim, cientistas ligados à área de biossegurança afirmam que a governança sobre esse tipo de tecnologia — leis, protocolos e formas de fiscalizar o acesso a ferramentas de IA e à síntese de DNA — ainda não avançou no mesmo ritmo que a ciência.

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