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Ex-PF questiona autonomia da corporação após nota de superintendentes: 'não precisou ser formalmente revogada'

Em meio à tensão com PF, André Mendonça se reúne com Ministério da Justiça e AGU

G1 — Política · 2026-08-07T03:00:44.000Z

Em meio à tensão com PF, André Mendonça se reúne com Ministério da Justiça e AGU

Ex-chefe da Polícia Federal (PF) no Amazonas, o policial aposentado Alexandre Saraiva questionou até onde vai a autonomia da corporação após a divulgação de uma nota assinada por 27 superintendentes em apoio à direção-geral da PF. Além do ineditismo, ele vê uma mudança de cultura.

Saraiva permaneceu 23 anos na corporação. Quando comandava a PF no Amazonas, ele apresentou uma notícia-crime contra o então ministro do Meio Ambiente, Ricardo Salles, e acabou substituído da função e enviado ao RJ. À época, ele comandava a investigação da maior apreensão de madeira do país.

Ele também prestou depoimento, em 2020, em inquérito que investigava se o então presidente Jair Bolsonaro (PL) tentou interferir na PF, após o pedido de demissão do ministro da Justiça daquele momento, o atual senador Sérgio Moro.

Alexandre Saraiva, ex-superintendente da PF no Amazonas, em imagem de 2020

Nesta quinta-feira (6), os 27 superintendentes regionais divulgaram uma nota conjunta em que defendem o diretor-geral da corporação, Andrei Rodrigues, e reafirmam o compromisso da instituição com a Constituição, a legalidade e o Estado Democrático de Direito.

Segundo Saraiva, a nota tem um teor inédito e se apresenta como um alinhamento dos chefes locais com a direção-geral. Ele critica a possibilidade de que o movimento tenha mais a ver com perspectivas futuras dentro da corporação do que propriamente com a defesa de operações e investigações.

"Quando posições passam a funcionar como indulgências profissionais e manifestações de alinhamento parecem credenciais úteis para alcançá-las, não são apenas algumas carreiras que mudam. Muda a cultura inteira. A nota de apoio não criou esse ambiente, apenas o tornou visível", afirma o ex-superintendente.

"A autonomia não precisou ser formalmente revogada. Bastou multiplicar metas, fluxos, validações e padrões até que qualquer iniciativa fora do roteiro administrativo se tornasse quase impossível", disse.

O texto divulgado pelos atuais chefes locais da PF surge em momento no qual integrantes da equipe do ministro André Mendonça, do Supremo Tribunal Federal (SFT), suspeitam que Rodrigues repasse ao governo Lula (PT) informações privilegiadas sobre investigações em andamento -- como no caso de Lulinha, filho do presidente.

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A análise de Saraiva é de que o documento, feito em um cenário de forte tensão institucional entre a PF e Mendonça, indica uma mudança de cultura dentro da corporação e alerta que a independência "não pode existir apenas nas notas oficiais ou ser invocada quando interessa à administração, mas precisa sobreviver justamente quando incomoda."

Saraiva analisa que a PF deixou de priorizar a precisão e passou a valorizar números e indicadores, o que teria levado à "inflação da linguagem" e à apresentação de ações ordinárias como operações extraordinárias.

"Não basta falar em autonomia institucional quando quem efetivamente conduz o trabalho pode ser afastado, substituído, esvaziado ou soterrado por controles administrativos sempre que sua atuação contraria expectativas", critica o policial aposentado.

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