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Desmame precoce pode aumentar risco de obesidade e doenças crônicas, indicam estudos
G1 — Brasil · 2026-08-07T07:01:33.000Z
Desmame precoce pode aumentar risco de obesidade e doenças crônicas, indicam estudos
Menos de 50% das crianças em todo o mundo hoje são amamentadas exclusivamente ao seio até o sexto mês de vida, de acordo com a Organização Mundial da Saúde. Isso não é uma boa notícia.
O leite materno é muito mais que alimento. Ele oferece benefícios para o bebê, como nutrição completa e equilibrada, com composição dinâmica adaptada às necessidades de cada fase do seu crescimento.
Ele oferece componentes essenciais para a proteção imunológica: reduz riscos de infecções respiratórias, diarreias e alergias. E mais: a amamentação reforça o vínculo afetivo entre mãe e filho. Promove benefícios para a mãe, como a redução do risco de câncer de mama e de ovário, e auxilia na recuperação pós-parto.
Neste começo de agosto de 2026, estamos celebrando a Semana Mundial de Aleitamento Materno (SMAM), uma iniciativa da Unicef e da OMS. O objetivo é promover, proteger e apoiar o aleitamento materno no mundo inteiro.
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Fortaleça o que funciona
A cada ano, a campanha tem um slogan específico. E aborda diferentes aspectos, desde o apoio no local de trabalho até o papel dos profissionais de saúde e da família no sucesso da amamentação. Em 2026, o tema oficial é “Amamentação para um começo de vida sustentável: Fortaleça o que funciona”.
Vale destacar que a OMS recomenda que o aleitamento materno exclusivo aconteça até os seis meses de vida e a manutenção da amamentação, com alimentos complementares, ocorra até os dois anos ou mais.
Nesse mesmo contexto, no Brasil temos a campanha Agosto Dourado. É o mês dedicado à conscientização e ao incentivo ao aleitamento materno.
A cor dourada representa o “padrão ouro” de qualidade do leite humano. Ele é considerado o alimento mais completo para o desenvolvimento saudável, a imunidade e a proteção de recém-nascidos nos primeiros meses de vida contra diversas doenças.
Durante todo o mês, são realizadas ações de conscientização, palestras, rodas de conversa e mobilizações em unidades de saúde, hospitais, escolas e outros espaços públicos.
Desafios e como podemos superá-los?
Apesar dos benefícios comprovados, muitas mulheres enfrentam dificuldades para amamentar, como por exemplo, falta de apoio familiar, retorno precoce ao trabalho, desinformação e ausência de políticas públicas.
Por isso, a semana de Aleitamento Materno e o Agosto Dourado reforçam a importância do apoio da família e da comunidade à mãe que amamenta. Também é fundamental a existência de ambientes de trabalho com licença-maternidade adequada e salas de apoio à amamentação.
Os profissionais de saúde capacitados para orientar e acolher também são outro aspecto importante. E não menos importante é o combate à desinformação e à promoção de fórmulas infantis.
Insultos durante a amamentação
Há quase três décadas, nós do Laboratório de Fisiologia Endócrina do Instituto de Biologia Roberto Alcantara Gomes da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ) temos uma equipe de professores e alunos que realiza pesquisa experimental sobre doenças crônicas associadas ao desenvolvimento.
Enfocamos principalmente naquelas relacionadas a insultos ocorridos durante as fases de gestação e lactação, principalmente nas doenças endócrinas como a obesidade e o diabetes.
Os primeiros 1000 dias de vida do indivíduo, período que contempla a concepção até os dois anos de idade da criança, é um período de grande desenvolvimento do nosso organismo.
Há evidências de que alterações da dieta da mãe ou do ambiente no qual ela está exposta nesta janela crítica afeta a saúde da criança, com repercussões a longo prazo.
Um exemplo é a desnutrição que não apenas compromete o desenvolvimento infantil, mas também aumenta o risco de desenvolver doenças metabólicas na vida adulta.
Neste contexto, o leite materno tem papel chave na promoção de saúde infantil.
A amamentação exclusiva durante os seis primeiros meses de vida fornece nutrientes importantes para o seu crescimento, mas também componentes bioativos essenciais para a proteção imunológica do bebê.
Assim, o desmame precoce, definido como a interrupção do aleitamento materno exclusivo, aumenta o risco de mortalidade e morbidade infantil. Além disso, há risco de sobrepeso e obesidade ao longo da vida do indivíduo.
Desequilíbrio hormonal pelo desmame precoce
Frente a essas evidências epidemiológicas, nosso grupo de pesquisa tem investigado, em animais, os mecanismos envolvidos neste maior risco de doenças metabólicas.
De fato, o desmame precoce desequilibra os hormônios, afeta o controle da ingestão alimentar e do gasto energético, que justifica o perfil obeso. Estes nossos achados reforçam a importância de estimular a amamentação, seguindo as orientações da OMS.
Alterações nutricionais e ambientais que interferem na saúde da mãe durante a lactação modificam a composição do leite materno e, consequentemente, alteram o desenvolvimento da criança.
Em revisão da literatura baseada em estudos com modelo experimental sintetizamos o impacto de uma oferta adequada de leite materno à luz do conceito de “Origens Desenvolvimentistas da Saúde e da Doença” (DOHaD, na sigla em inglês), proposto por pesquisadores das áreas de epidemiologia e ciência básica de todo o mundo.
Nosso grupo já mostrou em [artigo científico publicado] em periódico internacional que fatores maternos durante a lactação como estresse, desnutrição, uso de drogas e exposição a contaminantes ambientais, como o cigarro, o bisfenol A, entre outros, são capazes de afetar a composição do leite materno.
E esses fatores aumentam o risco de desenvolver obesidade, disfunções metabólicas, doenças cardiovasculares e transtornos neurocomportamentais.
As informações científicas atuais sobre a importância do período de aleitamento materno para o desenvolvimento saudável do indivíduo, e sobre os fatores maternos durante a lactação que podem afetar a saúde a longo prazo do indivíduo estão compilados em um livro que publicamos.
“Amamentação molda o resto da nossa vida: doenças que surgem com o desenvolvimento” tem o objetivo de gerar conhecimento sobre a origem de doenças crônicas não transmissíveis e orientar o desenvolvimento de políticas públicas para enfrentar e prevenir os problemas decorrentes desse fenômeno.
Além de estimular a amamentação e o estilo de vida saudável materno durante esse período, a obra fornece embasamento para quem quer ter um ponto de partida para conhecer o tema com mais profundidade.
Estimular o aleitamento é um ato de incentivo à saúde, inclusive reduzindo despesas em saúde pública.
No entanto, além do estímulo, é importante o suporte e a orientação adequados à essas mães, incentivando a adoção de um estilo de vida saudável durante a amamentação. O leite materno é vida!
Patrícia Cristina Lisboa recebe financiamento da FAPERJ, do CNPq e da CAPES
Egberto Gaspar Moura recebe financiamento da Faperj, CNPq e Capes.
Luana Lopes de Souza recebe financiamento da Faperj.
Rosiane Aparecida Miranda recebe financiamento da Faperj.