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Infarto renal, hepatite e UTI: mulheres relatam problemas dos implantes hormonais
G1 — Brasil · 2026-08-07T11:18:44.000Z
Infarto renal, hepatite e UTI: mulheres relatam problemas dos implantes hormonais
A Agência Nacional de Vigilância Sanitária (Anvisa) emitiu nesta sexta-feira (7) um alerta sobre a reposição de testosterona em mulheres. Segundo a agência, o número de notificações de eventos adversos nos últimos anos vem subindo, o que acende um alerta.
O comunicado responde a um discurso que circula nas redes sociais, em que médicos e especialistas afirmam que mulheres têm déficit natural do hormônio e que sua reposição seria obrigatória — principalmente na menopausa, para conter os efeitos do envelhecimento. Segundo a agência, essa afirmação é falsa.
Em maio deste ano, o g1 revelou um esquema em que médicos e farmácias de manipulação vêm lucrando com a venda de hormônios anabolizantes, prometendo cura a mulheres por meio de pellets. Em consultórios e no Instagram, profissionais que se autodenominam especialistas oferecem às pacientes mais disposição, libido e qualidade de vida, além de tratamento para menopausa, síndrome dos ovários policísticos e endometriose.
O hormônio mais usado nesses implantes é a testosterona que, na prática, funciona como anabolizante. Embora esteja naturalmente presente no organismo feminino, ela circula em concentrações muito menores do que nos homens — o que torna sua reposição uma decisão clínica pontual, não uma correção de rotina.
A única indicação reconhecida para o uso terapêutico da testosterona em mulheres é restrita: o transtorno do desejo sexual hipoativo, diagnosticado somente após avaliação criteriosa que exclua outras causas. Mesmo nesses casos, as diretrizes médicas recomendam a versão manipulada em gel, em doses de 1 a 5 mg — não o implante subcutâneo, que é o formato mais divulgado nas redes sociais e não tem respaldo científico.
Médicos exploram brecha e seguem vendendo implantes anabolizantes para fins estéticos
O uso anabolizante desses implantes é proibido pela Anvisa. Ainda assim, brechas na fiscalização mantêm esse mercado em circulação. Médicos contornam a proibição vendendo os pellets como tratamento para doenças como menopausa, ovários policísticos e endometriose — sem qualquer evidência de que funcionem para isso.
A reportagem do g1 reuniu denúncias de mulheres que tiveram efeitos colaterais após o uso dos implantes, de danos estéticos a quadros graves, incluindo problemas cardíacos e renais.
O que diz o alerta da Anvisa
Dados de farmacovigilância reunidos pela Anvisa sobre medicamentos da classe dos anabolizantes apontam aumento nas notificações de eventos adversos nos últimos anos, com pico em 2024. Testosterona e somatropina — hormônios controlados, regularizados no país e com indicações terapêuticas específicas já aprovadas — respondem por mais de 90% desses registros.
O crescimento nas notificações, no entanto, não indica necessariamente que os problemas causados pelas substâncias aumentaram na mesma proporção. Segundo a Anvisa, sistemas de notificação espontânea costumam refletir outros fatores: maior conscientização de pacientes e profissionais de saúde, expansão das plataformas eletrônicas de registro e maior engajamento com a farmacovigilância.
Segundo a agência, a decisão de repor ou não o hormônio depende do quadro clínico de cada mulher — sintomas, exames, histórico de saúde e evidências científicas — e não de um padrão que valha para todas. A reposição só deve ocorrer quando houver indicação clínica, após avaliação individual e com acompanhamento médico.
A nota reforça que a única situação com respaldo científico para o uso terapêutico da testosterona em mulheres é o transtorno do desejo sexual hipoativo (TDSH) após a menopausa. Mesmo assim, o tratamento só é indicado depois que outras abordagens já foram tentadas sem sucesso e o quadro persiste.
A agência alerta ainda que usar testosterona sem indicação clínica, em doses acima das recomendadas ou combinada a outras substâncias, eleva o risco de efeitos adversos. Entre eles estão acne, alopecia — queda expressiva de cabelo e pelos —, alterações no fígado, dependência psíquica e problemas cardiovasculares. O hormônio também pode causar dislipidemia, distúrbio nos níveis de gordura no sangue que favorece a formação de placas nas artérias.
Pacientes e profissionais de saúde que identificarem eventos adversos relacionados a medicamentos podem notificar a Anvisa pelo sistema VigiMed.
Na menopausa, o hormônio que falta é outro
Um dos apelos mais frequentes nos consultórios que vendem implantes envolve a menopausa. A queixa é real — os sintomas do climatério afetam qualidade de vida —, mas o argumento hormonal costuma estar invertido.
Di Bella explica: a menopausa é fisiologicamente caracterizada pela queda do estradiol, o principal estrogênio feminino.
"Durante a menopausa, o hormônio que falta nas mulheres é o estradiol", afirma a ginecologista.
👉 Quando indicada, a terapia hormonal envolve a reposição de estradiol e, em mulheres com útero, a combinação com progesterona.
"A testosterona não é um hormônio que deve ser reposto rotineiramente no climatério e na menopausa. Não existe indicação", afirma.
A ginecologista acrescenta que a testosterona sequer precisa ser dosada em exames de rotina da menopausa: valores baixos são esperados e compatíveis com a fisiologia feminina nesse período. Rastrear o hormônio apenas abre espaço para oferecer uma "solução" a um número que, por si só, não representa um problema.