ITATIBA1

Estátua de Lúcifer de uma tonelada, interdição e disputa judicial: o que aconteceu com templo no RS dois anos depois

Estátua de Lúcifer em meio a templo interditado no RS

G1 — Brasil · 2026-08-08T07:00:24.000Z

Estátua de Lúcifer em meio a templo interditado no RS

Dois anos após a interdição do templo da Nova Ordem de Lúcifer na Terra (N.O.L.T.) em Gravataí, na Região Metropolitana de Porto Alegre, o espaço onde foi instalada a estátua de Lúcifer continua sem autorização para funcionar.

O terreno tem cinco hectares de área aberta na zona rural da cidade. Já o monumento que representa Lúcifer tem cinco metros de altura (contando com o pedestal), pesa uma tonelada e custou R$ 35 mil, pagos por integrantes da ordem. Mestre Lukas de Bará da Rua afirma que a estátua deve contar com uma iluminação especial caso seja inaugurada.

A imagem de Lúcifer foi produzida em cimento por um ateliê e, segundo o religioso, retrata a dualidade do homem humano e do esqueleto, com pés e asas, representando o espírito da divindade. Mestre Lukas afirma ter sonhado com a imagem para concebê-la. O projeto contou com o apoio de um engenheiro.

"Para nós é algo sagrado. Eu tenho uma história de 21 anos dentro da religião. A gente tem feito um trabalho de conscientização, para demonstrar a força que a nossa religião tem", comenta.

🔎 Para algumas religiões, como o cristianismo, a figura é associada ao demônio. Por outro lado, para o Mestre Lukas de Bará da Rua, um dos representantes da N.O.L.T, Lúcifer representa o portador da luz. A maioria dos integrantes da ordem segue a linha da quimbanda, mas há adeptos que se dedicam exclusivamente à demonolatria, sem vínculo com essa tradição religiosa.

Apesar de uma decisão judicial ter determinado a reabertura do processo administrativo, a concessão do alvará para funcionamento do templo ainda depende da apresentação de novos documentos exigidos pela prefeitura.

Quem realizar atividades no espaço interditado, situado a cerca de 15 km da área urbana, pode receber multa diária de R$ 50 mil.

Entraves com a prefeitura

A interdição ocorreu em agosto de 2024, quando a inauguração do templo foi impedida por falta de licença. Desde então, o caso se transformou em uma disputa administrativa e judicial entre o grupo religioso e o município.

A batalha pelo funcionamento do templo ocorre em duas frentes. Na Justiça, o mandado de segurança movido pelos representantes do grupo religioso foi remetido ao Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul em junho de 2026.

Já no âmbito administrativo, a prefeitura reabriu a análise do pedido de alvará e passou a exigir novos documentos para dar continuidade ao processo.

🔎 Em setembro de 2025, a Justiça determinou a reabertura do processo administrativo que havia sido encerrado pela prefeitura. A decisão foi obtida por meio de um mandado de segurança apresentado pelos representantes da ordem após o município interromper a análise do pedido de alvará sob a justificativa de que existiam requerimentos duplicados para o local.

🔎 Mandado de segurança é uma ação judicial usada para proteger um direito quando ele é ameaçado ou violado por um ato ilegal ou abusivo de uma autoridade pública.

No entanto, a Justiça entendeu que o processo deveria voltar a ser analisado na esfera administrativa. A decisão não concedeu automaticamente a licença de funcionamento.

Segundo o Mestre Lukas, durante a vistoria da prefeitura de Gravataí, foi apontada a necessidade de um novo estudo de viabilidade e de outros documentos para dar continuidade ao pedido de licença.

Estátua de Lúcifer, em Gravataí

André Ávila/ Agencia RBS

A Prefeitura de Gravataí informou que, para dar prosseguimento à análise interna do pedido de alvará, solicitou uma Anotação de Responsabilidade Técnica (ART) referente à estátua instalada no local.

"Nós já estamos com o engenheiro verificando essa documentação agora e vamos levar adiante", ressalta o Mestre Lukas.

🔎 A ART é um documento emitido por um profissional habilitado, como um engenheiro, que registra quem é o responsável técnico por uma obra ou estrutura. O documento serve para comprovar que o projeto foi analisado por um especialista e atende aos requisitos técnicos exigidos.

Mestre Lukas sustenta que essas exigências não haviam sido feitas quando o pedido original foi protocolado: "Se eles tivessem solicitado isso há dois anos atrás, a gente já tinha entregue. Mas, na primeira viabilidade, não pediram nada disso", declara.

Segundo a prefeitura, a apresentação da análise técnica da estrutura é necessária para que o processo siga tramitando até a decisão sobre a concessão do alvará.

O município também explicou que os responsáveis pelo espaço apresentaram dois pedidos distintos de licenciamento para o local. O primeiro buscava o enquadramento como religião de matriz africana. Posteriormente, foi protocolado um novo pedido para enquadramento como templo religioso, enquanto o requerimento anterior ainda permanecia em tramitação.

Segundo o Mestre Lukas, primeiro, o grupo tentou enquadrar o templo como "povo de terreiro". Depois, como instituição. Ambos os pedidos foram inicialmente negados.

Infográfico - Templo com estátua de Lúcifer está interditado há dois anos

Marcelle Governatori/arte g1

Repercussão e ameaças

Estátua de Lúcifer, em Gravataí

André Ávila/ Agencia RBS

Em conversa com o g1 em dezembro de 2025, o Mestre Lukas afirmou que a negativa da prefeitura não é apenas burocrática e o caso se tornou "perseguição religiosa".

“Estamos no Brasil e o Estado é laico. Então, nós temos a liberdade de culto. E nós não temos verba pública aqui. É um espaço privado. Nós trabalhamos, nos dedicamos, investimos pra ter o nosso espaço. Não é um espaço aberto ao público”, desabafa.

Na época, a reportagem entrou em contato com a prefeitura, que não se manifestou sobre.

Na época da interdição do espaço, a polêmica ganhou repercussão nacional. No início, segundo Mestre Lukas, houve muita intolerância: o grupo recebeu ameaças de morte, mensagens dizendo que iriam botar fogo no local e até cortar-lhes os pescoços.

No entanto, com o tempo, os ataques diminuíram e surgiram mensagens de apoio:

"A Prefeitura acha que está nos atrapalhando e pelo contrário: está nos dando espaço para falar sobre a nossa ordem, a nossa visão sobre Lúcifer. E hoje nós temos muito mais adeptos do que tínhamos no passado, mais pessoas se aproximaram", comenta.

Atualmente, o noltismo conta com, aproximadamente, 250 pessoas no Brasil, de acordo com o Mestre Lukas.

Para a ordem, Lúcifer não é um demônio, mas um símbolo de conhecimento. “Ele é o portador da luz. Queremos estudar, conhecer mais. Esse espaço na natureza foi pensado para isso”, explica Lukas.

Estátua de Lúcifer, em Gravataí

André Ávila/ Agencia RBS

A Nova Ordem de Lúcifer na Terra (N.O.L.T.) foi oficializada pelos fundadores do templo em 2024.

De acordo com o Mestre Lukas de Bará da Rua, o noltismo tem dogmas próprios, prega o culto aos demônios e uma nova interpretação da espiritualidade luciferiana.

Os seguidores são chamados de noltistas ou daimomantes, termo derivado da união entre daimon (entidade espiritual interior) e amantia (estado de entrega ritual), explica Lukas.

"O noltismo não é apenas mais um movimento. É agora uma religião e uma casa simbólica para os que caminham com o Lúcifer vivo. E todos estarão convidados a entrar", afirma o religioso.

Apesar de estar associado ao diabo e ao "mal" no cristianismo, o nome de Lúcifer é, para os noltistas, uma "manifestação simbólica de transformação, conhecimento e libertação", conforme o Mestre Lukas.

Quem é Mestre Lukas

Mestre Lukas ao lado do monumento de Exú, também erguido em Gravataí

Natural de Gravataí, Mestre Lukas de Bará da Rua é um mestre de quimbanda independente e trabalha com cartas e búzios negros. Em maio do último ano, o religioso atuou na criação de um monumento dedicado a Exu no município. (veja foto acima)

Lukas conta que decidiu fundar a ordem para poder trabalhar com as figuras de demônios.

"A gente resolveu tratar fora da casa [de quimbanda] porque existe um preconceito muito grande quando se fala de demônios", diz.

VÍDEOS: Tudo sobre o RS

Leia no Itatiba1 →