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Aos 65 anos, mulher que não pôde estudar na infância aprende a ler, conclui ensino médio e escreve livro na PB

Da alfabetização ao sonho de publicar um livro

G1 — Brasil · 2026-08-09T18:14:14.000Z

Da alfabetização ao sonho de publicar um livro

Depois de uma vida inteira dedicada ao trabalho no campo e à criação dos filhos, Maria da Conceição transformou um sonho antigo em realidade, na cidade de Sousa, no Sertão da Paraíba. Aos 65 anos, ela aprendeu a ler e escrever, concluiu o ensino médio e agora se prepara para lançar o primeiro livro.

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A oportunidade de estudar só surgiu na terceira idade. Durante a infância e a juventude, Maria morava na zona rural e não conseguiu frequentar a escola. A distância, a rotina pesada de trabalho na roça e as dificuldades financeiras impediram que ela fosse alfabetizada.

"Morava no sítio, trabalhava na roça e a escola era muito longe. Eu chegava cansada porque trabalhei muito na roça, plantei algodão, trabalhei muito. Não tinha como estudar.", relembrou.

A expectativa é que o lançamento do livro, que foi escrito à mão por ela, aconteça até o mês de outubro.

Marido Francisco também aprendeu a ler e escrever por causa do incentivo da idosa, no Sertão da Paraíba

Além de retomar os próprios estudos, Maria incentivou o marido, Francisco, a voltar para a sala de aula. Ele também havia abandonado a escola ainda jovem para trabalhar como gesseiro e ajudar no sustento da família. Juntos, os dois conseguiram concluir o ensino médio.

"Apesar de todas as dificuldades que eles enfrentaram quando eram jovens, ver essa vontade de aprender hoje nos deixa muito orgulhosos. Meu pai chegava do trabalho muito cansado, mas mesmo assim foi estudar junto com minha mãe. Os dois conseguiram concluir o ensino médio", contou a filha da idosa, Járcia Soares.

Idosa que aprendeu a ler com 65 anos vai lançar livro no Sertão da Paraíba

A trajetória de Maria começou por conta da Educação de Jovens e Adultos (EJA), modalidade de ensino voltada para pessoas que não tiveram acesso à educação na idade adequada.

Segundo dados do Ministério da Educação, mais de 16 milhões de matrículas foram registradas na EJA nos últimos 10 anos em todo o Brasil. Desse total, cerca de 5 milhões ocorreram na região Nordeste. Na Paraíba, aproximadamente 500 mil estudantes passaram pela modalidade no mesmo período.

Na escola, Maria encontrou professores que respeitaram o ritmo de aprendizagem dos alunos. O mesmo foi válido para o marido Francisco, que foi incentivado por ela.

"Os professores têm muita paciência com a gente. Às vezes a gente pensa que não consegue aprender, mas consegue", afirmou o esposo.

Um livro escrito à mão

Livro da idosa foi escrito à mão no Sertão da Paraíba

Se concluir os estudos já era uma grande conquista, Maria decidiu ir além. Sem contar para ninguém da família, passou meses escrevendo um livro durante as noites. A surpresa veio quando revelou ao professor dela que já havia terminado a obra.

Ao receber o material, o educador ficou impressionado. Eram cerca de 200 páginas escritas à mão. Segundo o professor Nilson Rutizat, a iniciativa surgiu depois de um trabalho desenvolvido em sala de aula, onde costumava apresentar livros de autores da própria região para mostrar aos estudantes que a literatura também é produzida no Sertão.

"Eu costumo trazer livros de autores locais para a sala de aula para mostrar pros meus estudantes que temos pessoas fazendo arte no Sertão. Foi nessa conversa que surgiu a ideia dela de escrever o próprio livro. Quando vi a quantidade de páginas, fiquei encantado. 200 páginas escritas à mão", explicou o professor.

Uma história inspirada em fatos reais

A obra é inspirada na história de uma amiga de infância de Maria. Embora prefira manter detalhes da narrativa em segredo até o lançamento, a autora adianta que o livro traz uma mensagem de perseverança, fé e superação.

"(Esse livro)conta uma batalha sem fim, sem desistir nenhum segundo, porque sou uma pessoa com muita fé"", destacou.

O manuscrito já foi digitado, recebeu capa e está em fase de registro. Mesmo antes da publicação do primeiro livro, Maria já faz planos para a próxima obra.

"O próximo vai para as crianças, os professores que se preparem, vou começar em outro", afirmou.

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