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Setores da soja e da mineração dominam candidaturas ao Senado no Mato Grosso

OS PRINCIPAIS nomes entre os dez anunciados nas convenções partidárias para a disputa das duas cadeiras de Mato Grosso no Senado repartem-se entre a direita bolsonarista e a base do governo Lula. Mas, independentemente do lado, chegam à…

Repórter Brasil · 2026-08-10T08:30:00.000Z

OS PRINCIPAIS nomes entre os dez anunciados nas convenções partidárias para a disputa das duas cadeiras de Mato Grosso no Senado repartem-se entre a direita bolsonarista e a base do governo Lula. Mas, independentemente do lado, chegam à eleição amparados pelo setor da soja ou do ouro — ou pelos dois.

O ex-governador Mauro Mendes (União Brasil) lidera as pesquisas e traz a mineração na família, com sociedades em empresas do ramo. A mineradora do filho, Minerbras, já foi autuada pelo Ibama (Instituto Brasileiro do Meio Ambiente e dos Recursos Naturais Renováveis) por uso irregular de mercúrio.

Já o senador Carlos Fávaro (PSD), candidato mais bem posicionado no campo lulista, presidiu a Aprosoja, uma das principais associações de produtores de soja do país. Ex-ministro da Agricultura na atual gestão petista, tornou-se o ruralista de confiança do Planalto.

No meio do pelotão, o deputado federal José Medeiros (PL) apresentou projetos para abrir áreas protegidas à mineração. A deputada estadual Janaína Riva (MDB), por sua vez, aparece como sócia de uma holding da qual participa uma mineradora de metais preciosos.

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O ex-governador Pedro Taques (PSB) leva na suplência Carlos Ernesto Augustin, o Teti, fundador da Petrovina Sementes e da Aprosoja-MT, a associação de sojeiros do estado. Já Antônio Galvan (Avante), que também presidiu a Aprosoja, foi um dos dirigentes associados à aproximação da entidade com o bolsonarismo e teve como bandeira o combate à chamada “Moratória da Soja”.

Esvaziado no início deste ano, o acordo proibia a compra de grãos produzidos em áreas da Amazônia desmatadas depois de julho de 2008. Estudos mostram que a Moratória derrubou a fatia de soja vinda de desmatamento direto de cerca de 30% para perto de 1%.

Os eleitos terão mandato de oito anos e decidirão sobre licenciamento ambiental, regularização fundiária, mineração em terras indígenas e regras para agrotóxicos, além de votar as indicações para a diretoria da ANM (Agência Nacional de Mineração).

Fazenda no município de Tabaporã (MT): Moratória Soja foi essencial para reduzir desmatamento na Amazônia, dizem ambientalistas (Fotos: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Infrações ambientais são ‘símbolo de enfrentamento à fiscalização’, diz analista

As convenções partidárias, encerradas na última quarta-feira (5), desenharam três blocos. O primeiro é formado pelo governador Otaviano Pivetta (Republicanos), candidato à reeleição, e reúne Mauro Mendes e Margareth Buzetti (Republicanos), enquanto Galvan corre por fora no mesmo grupo.

Já o palanque de Wellington Fagundes (PL) ao governo reúne Janaína e Medeiros. O PL, no entanto, liberou seus filiados a pedir votos apenas para Medeiros.

Por fim, a frente de Natasha Slhessarenko (PSD) ao governo do estado, ligada a Lula, fechou com Fávaro e Taques.

Em 2022, Bolsonaro venceu Lula no Mato Grosso por 65% a 35%, e o PT não elegeu nem um dos 142 prefeitos em 2024. Diante do fracasso recente, não há uma candidatura própria da esquerda ao Senado.

Na pesquisa MT Dados, feita entre 15 e 21 de julho, Mauro tinha 46%; Janaína, 29%; Medeiros, 20%; Taques e Fávaro, 15% cada; e Galvan, 7%. A lista ainda incluía nomes que deixaram a disputa e não media Buzetti.

Para o analista político João Edisom de Souza, a hegemonia conservadora está ancorada nas prefeituras, no Legislativo e nos setores que financiam as campanhas. Ele estima que mais de 80% dos prefeitos sejam produtores ou próximos de grandes empresários do agronegócio. “Eles têm o domínio das prefeituras e de grande parte do Legislativo, que financiam e indicam”, afirma.

Souza relaciona o panorama político do estado à colonização intensificada por migrantes do Sul do Brasil, em sua maioria brancos, conservadores e religiosos. “Isso reflete nos processos ideológicos e políticos”, diz. Mesmo dividido entre diferentes grupos, o agronegócio conserva o centro do poder estadual.

Mato Grosso reúne Amazônia, Cerrado e Pantanal. Para a safra 2025/2026, o Instituto Mato-grossense de Economia Agropecuária estimou produção recorde de 51,56 milhões de toneladas de soja em 13 milhões de hectares. Em 2025, o estado respondeu por perto de 30% das exportações brasileiras do grão.

Lavoura, mineração industrial e garimpo têm escalas e impactos distintos, ressalta Herman Oliveira, secretário-executivo do Formad (Fórum Mato-grossense de Meio Ambiente e Desenvolvimento). O ponto comum, segundo ele, é a pressão sobre territórios, comunidades e instituições públicas.

Para Oliveira, autuações ambientais podem ser apresentadas pelos infratores como símbolos de enfrentamento à fiscalização. “Há um discurso de se apresentar herói para boa parcela do eleitorado”, afirma. Assim, violações perdem custo político e tendem a ficar fora da campanha e do noticiário local.

Vista aérea de área de garimpo de ouro próximo a Pocon

Poconé, no Mato Grosso (Foto: Fernando Martinho/Repórter Brasil)

Mauro Mendes sancionou lei que retira incentivos fiscais de signatárias da Moratória da Soja

Em novembro de 2025, o então governador do estado Mauro Mendes sancionou na Expominério, feira de exposições e negócios, uma lei que cria selos para empresas com boas práticas e anunciou R$ 30 milhões para pesquisas destinadas a substituir o mercúrio na extração de ouro. “Precisamos valorizar quem trabalha certo”, disse.

Cinco meses antes, o Ibama havia lavrado dois autos contra a Minerbras, mineradora de Luís Antônio Taveira Mendes, filho do hoje candidato a senador. As multas somam R$ 4,52 milhões. Os fiscais registraram mistura de ouro com mercúrio em desacordo com a licença, além de depósito de 1,195 quilo do metal sem comprovação de origem.

O uso irregular do mercúrio é especialmente grave porque o metal se espalha pelo ar e pela água, acumula-se em peixes e pode comprometer o sistema nervoso, os rins e o desenvolvimento de bebês.

Na época da autuação, a Minerbras contestou as autuações e afirmou que o material foi encontrado em área de terceiro, a mais de um quilômetro de suas instalações. O julgamento administrativo dos autos ainda não foi concluído.

Procurada, a assessoria da campanha de Mauro Mendes não se posicionou.

O então governador Mauro Mendes recebe prefeitos para tratar da Moratória da Soja, em novembro de 2023. No ano seguinte, ele sancionou lei que retira incentivos fiscais de empresas signatárias do acordo (Foto: Mayke Toscano/Secom-MT/Divulgação)

Mendes foi prefeito de Cuiabá e governador de 2019 a março de 2026. Declarou patrimônio de R$ 108,9 milhões na última eleição. Também é sócio de uma empresa que tem como representante legal Valdinei Mauro de Souza, o Nei Garimpeiro , empresário conhecido da mineração no Mato Grosso e no Pará e já investigado pela Polícia Federal por usar irregularmente mercúrio. Em matéria publicada na semana passada pela Repórter Brasil, Nei Garimpeiro negou as irregularidades .

Seu filho Luís Antônio preside a Sollo Mineração e é o único sócio da Minerbras, que teve quatro permissões de lavra garimpeira prorrogadas pela ANM até 2029.

Como governador, Mendes sancionou em 2024 a lei que retira incentivos fiscais de empresas participantes da Moratória da Soja. Em janeiro de 2026, diante do risco de perder benefícios, as principais tradings deixaram o acordo, que acabou esvaziado.

José Medeiros criticou Ibama por destruir máquinas em garimpos ilegais

Em maio de 2018, o então senador José Medeiros usou a tribuna da casa para atacar a destruição de equipamentos apreendidos em garimpos ilegais pelo Ibama. Defendeu que as máquinas fossem entregues às prefeituras, disse que as operações ocorriam “ao arrepio da lei” e acusou os fiscais de cometer “barbáries”.

A inutilização dos equipamentos, no entanto, está amparada pelo Decreto 6.514/2008, quando transporte e guarda de bens forem inviáveis, ou quando representarem risco ao meio ambiente ou aos agentes.

Ex-policial rodoviário federal, Medeiros tenta voltar ao Senado depois de dois mandatos como deputado federal.

O PL 571/2022, de sua autoria, prioriza a extração de minerais considerados de interesse para a soberania nacional, inclusive em unidades de conservação, terras indígenas e propriedades privadas. O PL 1.570/2023, também assinado por Medeiros, propõe regulamentar mineração, petróleo, gás e hidrelétricas em terras indígenas.

Seu primeiro suplente é Odílio Balbinotti Filho, presidente do Grupo Atto e produtor de sementes de soja. Em 2022, doou R$ 600 mil para Bolsonaro e R$ 500 mil para Medeiros. Segundo o candidato, Balbinotti foi indicado para a suplência por Bolsonaro. O segundo suplente, Velbster Birtche, administra a Bom G Agropecuária e teve 13 requerimentos de lavra garimpeira indeferidos pela ANM em junho.

Procurada, a assessoria da campanha de Medeiros não se manifestou até o fechamento desta reportagem.

Destruição de máquinas usadas em garimpos ilegais está amparada pelo Decreto 6.514/2008 (Foto: Fernando Martinho / Repórter Brasil)

Janaína Riva tem participação em holding de mineração

A candidata do MDB ao Senado também se aproximou das reivindicações do setor mineral. Em entrevista a uma rádio do interior, criticou a demora na regularização de pequenos garimpeiros, defendeu uma força-tarefa para acelerar licenciamentos e questionou a destruição de máquinas que poderiam ser removidas.

No terceiro mandato de deputada estadual, Janaína preside o MDB e foi a parlamentar mais votada do estado em 2018 e 2022. É filha de José Geraldo Riva, ex-presidente da Assembleia Legislativa do Mato Grosso, condenado por corrupção e desvio de recursos em outubro de 2024.

Janaína declarou ao TSE possuir 20% da Enernew Participações. A holding tem entre os sócios integrantes da família e a Vitória Mineradora, que atua com metais preciosos. Um irmão da candidata administra outra mineradora, voltada ao manganês e a metais preciosos.

Questionada, a assessoria da campanha de Riva não respondeu os questionamentos enviados pela Repórter Brasil.

Filho de agricultores, Carlos Fávaro cresceu como produtor em Mato Grosso, presidiu a Aprosoja, foi vice de Pedro Taques e chegou ao Senado em 2020. Em 2022, apoiou Lula e virou ministro da Agricultura.

Como ministro, criticou a Moratória da Soja e disse que as tradings haviam se tornado “mais legais do que a lei”. Também defendeu a Lei Geral do Licenciamento Ambiental, que ampliou a Licença por Adesão e Compromisso e criou dispensas para determinadas atividades agropecuárias.

Antes de ocupar a chefia do ministério, relatou o PL 510/2021, chamado por organizações socioambientais de “PL da Grilagem”. O texto amplia as ocupações de terras da União passíveis de regularização e o uso de autodeclaração sem vistoria prévia. Seu primeiro suplente, Alexandre Schenkel, presidiu a associação nacional dos produtores de algodão e cultiva soja, algodão e milho.

Procurada, a campanha de Fávaro afirmou que produção agrícola e preservação ambiental não são incompatíveis. “O Brasil é uma potência global na produção de soja, algodão e milho e não precisa desmatar mais nenhum milímetro de terra para manter ou ampliar o que já produz”, disse. Segundo a campanha, o próprio produtor depende de clima estável, chuvas regulares e solo saudável e, por isso, “é o primeiro interessado em um meio ambiente preservado”.

Na mesma aliança está Pedro Taques, ex-procurador da República, senador e governador. Seu primeiro suplente é Teti, fundador da Petrovina Sementes e da Aprosoja-MT. A segunda suplente é Guelda Andrade (PT). A campanha afirma que a composição busca reunir “trajetórias complementares” entre o agronegócio e as pautas sociais.

Informou ainda que Taques defende o Código Florestal como referência para a produção rural e diz que a Moratória da Soja deve ser discutida entre produtores, empresas e poder público, respeitando tanto a legislação quanto os acordos privados. Também afirma defender um licenciamento ambiental mais eficiente, sem redução da proteção, e uma regularização fundiária com segurança jurídica e preservação das áreas protegidas.

Sobre mineração em terras indígenas, diz que qualquer autorização deve respeitar a Constituição e os direitos dos povos indígenas. Em relação aos garimpos, diferencia a atividade legal da ilegal e defende reforçar a fiscalização contra crimes ambientais e exploração clandestina.

Outro sojeiro conhecido na disputa eleitoral é Antônio Galvan, candidato do Avante, que presidiu a Aprosoja de Mato Grosso e a entidade nacional do sojeiros. Nas eleições de 2022, recebeu 337 mil votos para o Senado e terminou em segundo lugar. Foi um dos principais adversários da Moratória da Soja. Em 2019, disse a Bolsonaro que o acordo criava reserva de mercado e contrariava a legislação brasileira.

Galvan já foi autuado por desmatamento sem autorização, armazenamento irregular de combustível e estruturas de pulverização sem licença. Também foi condenado com outros produtores por plantar soja durante o vazio sanitário, período em que o cultivo é proibido para conter a ferrugem asiática, como mostrou a Repórter Brasil .

Ex-dirigente da Aprosoja, Antônio Galvan (esq) teve seu nome associado aos atos golpistas de 8 de janeiro de 2022 (Foto: Divulgação/Aprosoja)

À frente do Movimento Brasil Verde e Amarelo, foi apontado pela Abin como um dos articuladores dos protestos contra o resultado eleitoral de 2022. A CPMI do 8 de Janeiro chegou a recomendar seu indiciamento por crimes como associação criminosa, abolição violenta do Estado Democrático de Direito e golpe de Estado. A recomendação da CPMI, porém, não resultou em denúncia pública da PGR (Procuradoria-Geral da República) contra Galvan por esses crimes .

Em outra investigação, um inquérito aberto em 2021 a pedido da PGR para apurar a organização e o financiamento dos atos antidemocráticos de 7 de Setembro daquele ano resultou, em 2024, em seu indiciamento pela Polícia Federal por incitação ao crime e associação criminosa. O inquérito foi encaminhado à PGR, e não há informação pública sobre eventual denúncia contra Galvan nesse processo, que tramita sob sigilo.

Procurada, a campanha de Galvan não respondeu às perguntas enviadas pela Repórter Brasil .

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