ITATIBA1

Golpe da falsa central bancária: vítima perde R$ 600 mil, tem conta zerada e financiamento feito em seu nome

Cuidado com a falsa central: quem liga não é quem você pensa

G1 — Brasil · 2026-08-10T11:32:04.000Z

Cuidado com a falsa central: quem liga não é quem você pensa

Golpistas se passam por gerentes e funcionários de bancos, usam dados pessoais das vítimas e criam situações de urgência para induzi-las a realizar operações. Em um dos casos acompanhados pelo Fantástico, prejuízo chegou a R$ 600 mil.

Vídeos feitos por golpistas revelam como funcionam as falsas centrais bancárias

Uma mensagem aparentemente enviada pela gerente do banco. O nome, a foto e até o número de telefone eram os mesmos usados pela profissional de verdade. A abordagem parecia legítima, mas fazia parte de um golpe.

A vítima, um advogado do Paraná que preferiu não ser identificado, recebeu uma mensagem sobre uma suposta transação suspeita. Na conversa, os criminosos enviaram dados pessoais e bancários e disseram que era preciso confirmar se ele reconhecia o pagamento.

Em seguida, informaram que um especialista da área de segurança entraria em contato para ajudar a cancelar a operação.

Era o início do golpe da falsa central bancária.

“Ela fala: ‘Você reconhece esse pagamento?’ E manda um comprovante com os meus dados, CPF, o valor. ‘Não clique em link nenhum e não efetue o pagamento’.”

Do outro lado da ligação, uma mulher se apresentou como funcionária da central de segurança do banco. A partir daí, segundo a vítima, os criminosos passaram a orientá-lo a acessar o aplicativo e realizar procedimentos que, supostamente, serviriam para proteger a conta.

Na realidade, as ações permitiram que os golpistas movimentassem o dinheiro.

O prejuízo chegou a aproximadamente R$ 600 mil. Os criminosos retiraram o dinheiro que estava na conta, utilizaram o limite do cheque especial e ainda fizeram um financiamento em nome da vítima.

Golpe explora medo e sensação de urgência

Especialistas explicam que a fraude não depende apenas de tecnologia. Uma das principais armas dos criminosos é manipular o comportamento da vítima.

A pessoa é levada a acreditar que existe uma ameaça imediata à sua conta e que precisa agir rapidamente para impedir que o dinheiro seja roubado.

“Você precisa fazer isso agora porque daqui a dez minutos a sua conta será totalmente zerada”, é um dos tipos de argumento usados pelos golpistas.

A estratégia combina diferentes gatilhos psicológicos, como autoridade e urgência. O criminoso pode se apresentar como gerente, funcionário da auditoria ou integrante da equipe de segurança do banco.

A ideia é fazer com que a vítima deixe de questionar a situação e passe a seguir as instruções recebidas.

“É uma espécie de hackeamento da mente”, explicou um especialista entrevistado pelo programa.

Golpistas podem ter informações pessoais das vítimas

A abordagem se torna ainda mais convincente porque os criminosos muitas vezes já têm informações sobre quem está do outro lado da ligação.

Nome, CPF, dados bancários e outras informações podem ser utilizados para criar uma falsa sensação de legitimidade.

Em alguns casos, os criminosos também gravam vídeos se passando por funcionários de bancos para orientar as vítimas.

Em uma das gravações obtidas pela reportagem, um falso gerente conduz a vítima durante uma operação no aplicativo.

“Pode clicar em continuar novamente no verdinho”, orienta o criminoso.

A vítima segue as instruções acreditando que está fazendo um procedimento de segurança.

“Parece um código, mas é dinheiro”, explica a reportagem.

Quadrilhas dividem funções

Investigações policiais mostram que o golpe pode envolver diferentes grupos especializados.

Enquanto uma quadrilha entra em contato com as vítimas, outras podem atuar na obtenção de dados, na criação de páginas falsas ou na movimentação dos valores roubados.

O dinheiro também costuma passar rapidamente por diferentes contas, o que dificulta sua recuperação.

“Essas quadrilhas estão bastante especializadas. Algumas replicam sites de bancos. Outras trabalham com os contatos com as vítimas. Outra quadrilha é responsável por obter esses vazamentos de dados dos bancos”, explicou um investigador.

Segundo a polícia, há ainda casos em que criminosos de diferentes estados trabalham juntos. Parte das pessoas identificadas nas investigações também estaria fora do Brasil.

Operação prende 22 pessoas em falsa central

Em Guarulhos, na Grande São Paulo, a polícia monitorou uma casa que funcionava como uma espécie de central para aplicação dos golpes.

Uma operação terminou com 22 pessoas presas. No local, foram encontrados celulares utilizados nas fraudes, computadores e documentos.

Segundo a investigação, o grupo mantinha informações judiciais e bancárias sigilosas das vítimas.

Na parede, os policiais encontraram ainda uma espécie de quadro de metas, com objetivos estabelecidos para cada mês.

Em outra investigação no interior de São Paulo, a polícia identificou o crescimento expressivo dos crimes virtuais nos últimos anos.

Segundo os investigadores, em 2017 e 2018 eram registrados cerca de mil golpes virtuais. Durante a pandemia, o número cresceu rapidamente e chegou a ultrapassar 15 mil ocorrências em determinado período.

Foram 152 pessoas presas e 706 mandados de busca e apreensão cumpridos.

Pequenas cidades também viram alvo

A região noroeste de São Paulo também registra grande número de ocorrências.

Em 30 cidades da região, cerca de metade dos golpes investigados tem relação com a falsa central bancária.

Mirassol aparece entre os municípios com maior número de casos. Segundo a polícia, pelo menos duas pessoas são vítimas desse tipo de crime todos os dias.

Os alvos são variados.

Há casos de comerciantes convencidos a contratar linhas de crédito e aposentados que acreditaram que suas contas haviam sido invadidas. Até um delegado aposentado caiu no golpe e teve o saldo bancário zerado.

Em uma situação especialmente grave, um empresário recebeu a ligação dos criminosos enquanto acompanhava o corpo do pai para ser cremado.

Inteligência artificial deixa golpe ainda mais convincente

A tecnologia também passou a ser usada pelos criminosos.

Vítimas relatam que a voz de quem fazia a ligação era praticamente idêntica à de seus gerentes bancários.

A inteligência artificial pode ajudar a reproduzir vozes e tornar a abordagem ainda mais convincente.

“Já tive relatos assim. E aí a vítima acredita piamente que está falando com o gerente bancário”, relatou um especialista.

Segundo investigadores, cidades menores podem ser escolhidas pelos criminosos por diferentes motivos. Uma possibilidade é a realização de ligações em sequência para números de telefone com o mesmo DDD. Outra é o acesso a informações de clientes de uma determinada agência.

Dinheiro pode ser recuperado?

A recuperação dos valores depende de diversos fatores, principalmente da rapidez com que a vítima percebe o golpe e comunica o banco.

Isso porque, depois de uma transferência, o dinheiro pode ser rapidamente enviado para outras contas, numa tentativa de dificultar o rastreamento.

“O fluxo financeiro acaba sendo redirecionado para múltiplas contas para tentar ocultar esse valor”, explicou um especialista.

Também entram em jogo as políticas e os procedimentos adotados por cada instituição financeira.

A vítima do Paraná, que perdeu cerca de R$ 600 mil, não conseguiu recuperar o prejuízo.

Além de ficar sem o dinheiro que tinha na conta, ela passou a lidar com dívidas e com um financiamento contratado pelos criminosos em seu nome.

“Você sai de vítima para inadimplente, sem recurso, sem amparo”, afirmou.

Especialistas, no entanto, reforçam que a responsabilidade pelo crime não deve ser atribuída à pessoa enganada.

“A culpa do golpe nunca vai ser da vítima. A culpa do golpe é do fraudador, é do golpista.”

Como se proteger da falsa central bancária

A Federação Brasileira de Bancos (Febraban) mantém iniciativas de prevenção e orientação sobre fraudes bancárias. A recomendação é desconfiar de contatos que peçam procedimentos incomuns ou solicitem transferências para supostamente proteger uma conta.

Bancos não pedem que clientes façam transferências ou pagamentos para uma conta indicada por um suposto funcionário como forma de “cancelar” uma operação ou proteger o dinheiro.

Também não é necessário fornecer senhas, tokens ou códigos de segurança durante uma ligação recebida de alguém que se apresenta como funcionário da instituição.

Se houver dúvida, a orientação é interromper o contato e procurar o banco pelos canais oficiais.

A principal recomendação é não seguir as instruções de quem liga dizendo que existe uma emergência na conta. A urgência criada pelo criminoso é justamente uma das principais ferramentas usadas para impedir que a vítima tenha tempo de desconfiar.

Leia no Itatiba1 →