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Campanha tenta reescrever o legado de Richard Nixon e reabilitar a imagem do 1º e único presidente a renunciar nos EUA

Quando era governador da Califórnia, Ronald Reagan descreveu uma delegação da Tanzânia como 'macacos' em um telefonema com o então presidente Richard Nixon

G1 — Brasil · 2026-08-10T11:26:29.000Z

Quando era governador da Califórnia, Ronald Reagan descreveu uma delegação da Tanzânia como 'macacos' em um telefonema com o então presidente Richard Nixon

Mike Sargent/AFP Files/AFP

O presidente americano que, há 52 anos, caiu em desgraça como corrupto e conspirador, e renunciou após o escândalo Watergate, agora é incensado nas redes sociais por um grupo de jovens conservadores.

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Pode parecer inverossímil, mas a campanha, idealizada pela Fundação Nixon, está crescendo, por meio de vídeos, discursos e memes no Instagram e no Tik Tok. Apresenta o 37º presidente dos EUA à Geração Z, como um precursor do movimento MAGA, que sustenta Donald Trump, e tenta transportá-lo para o atual contexto político: um presidente combativo, injustiçado, perseguido pela mídia e pelos investigadores.

Embalados em raps, os vídeos rapidamente viralizaram. Projetam a imagem do ex-presidente como um anti-herói dos tempos modernos, altivo, passeando na limusine presidencial e acenando do helicóptero presidencial com o V de vitória. Camisetas estampam frases como "Nixon: Agora mais do que nunca" e “Garotas bonitas por Nixon”.

A reinterpretação póstuma da imagem de Nixon é impulsionada pelo vice-presidente, J.D.Vance. No mês passado, em visita à biblioteca que leva o nome do ex-presidente, na Califórnia, ele comparou a renúncia de Nixon aos esforços para destituir Trump em seu primeiro mandato.

“Seu legado está passando por um renascimento. E acho que merecidamente. Se Watergate acontecesse hoje, seria notícia por 12 horas. A ideia de que isso derrubaria uma presidência é uma loucura”, opinou Vance.

Tanto Vance quanto a Fundação Nixon minimizam Watergate e o atribuem a uma armação do “estado profundo”. O escândalo envolveu espionagem ilegal e abuso de poder por parte do presidente, depois que veio à tona a tentativa de sua campanha de invadir e sabotar a sede do Partido Democrata.

Pressionado e diante da iminência de um processo de impeachment, Nixon deixou o cargo. Um mês depois, recebeu do sucessor, Gerald Ford, o perdão pleno e incondicional por crimes federais que pudesse ter cometido durante o seu mandato.

Trump nunca escondeu a admiração por Nixon, com quem trocou cartas após a sua renúncia. Numa das correspondências, em 1990, Nixon expõe o ressentimento: “Caro Donald, eu não sei nada sobre as complexidades dos seus empreendimentos comerciais, mas o ataque massivo da mídia contra você me coloca a seu lado!”

O revisionismo em torno de Nixon tenta associar o seu fracasso a um bem articulado golpe do “Estado profundo” e o retrata como uma figura inspiradora: explora a imagem e a narrativa do político que construiu a própria carreira, reabriu as relações com a China, reduziu a participação dos EUA na Guerra do Vietnã e foi derrubado pelo establishment.

A tentativa de suavizar o legado do ex-presidente ignora, porém, justamente o que levou ao seu fim político: os abusos de poder, a espionagem política e a obstrução da Justiça para encobrir o escândalo.

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