ITATIBA1

UFG é condenada após anunciar mulher trans pelo nome de registro ao invés do nome social em colação de grau

UFG é condenada após anunciar mulher trans pelo nome de registro ao invés do nome social

G1 — Brasil · 2026-08-10T19:24:07.000Z

UFG é condenada após anunciar mulher trans pelo nome de registro ao invés do nome social

A Universidade Federal de Goiás (UFG) foi condenada pela Justiça Federal a pagar R$ 4 mil por danos morais após anunciar uma estudante trans pelo nome de registro ao invés do nome social durante uma colação de grau em 2022. Em entrevista ao g1, a atriz e professora Mar Dias Rosa, de 27 anos, disse que o episódio "acabou" com um momento que seria especial.

O g1 entrou em contato com a UFG para um posicionamento, mas não teve retorno até a última atualização desta reportagem.

A sentença saiu em março de 2026, mas o pagamento da indenização foi feito em agosto, de acordo com Mar. No documento da condenação, o Juizado Especial Cível e Criminal Adjunto à 2ª Vara Federal da SSJ de Anápolis reconheceu que foram apresentadas provas suficientes de que o nome social da estudante era usado em registros institucionais desde 2021.

✅ Clique e siga o canal do g1 GO no WhatsApp

UFG é condenada após anunciar mulher trans pelo nome de registro ao invés do nome social em colação de grau

De acordo com a sentença, a UFG reconheceu o erro, mas alegou que o equívoco foi prontamente corrigido e que, na época, o sistema institucional não permitia a emissão de diplomas com nome social, motivo pelo qual houve divergência entre o diploma impresso e os dados da lista nominal.

Apesar disso, a Justiça reconheceu falha administrativa e violação direta ao direito fundamental da estudante ao reconhecimento de sua identidade de gênero.

O pedido da estudante era de R$ 25 mil, mas a Justiça julgou o pedido parcialmente procedente ao reconhecer que a UFG enfrentou o caso de forma "pontual, diligente e respeitosa", considerando que houve:

Retificação durante a cerimônia;

Reconhecimento do erro e postura conciliatória.

Justiça autoriza adolescente trans de 16 anos a alterar nome no RG, em Goiás

Alvo de ação judicial, faixa em homenagem ao Dia Internacional contra LGBTFobia é apagada, em Goiânia

Estudante de medicina da UFG é investigado por homofobia após associar gays à pedofilia: ‘Desorientação sexual’

'Me senti humilhada'

Quatro anos após o ocorrido, Mar ainda lembra de como se sentiu no momento em que ouviu seu "nome morto", como chama o nome de registro, sendo chamado durante a tão sonhada colação de grau do seu curso de teatro na Escola de Música e Artes Cênicas da Universidade Federal de Goiás (Emac-UFG).

"Aquilo acabou para mim, naquele momento, com a colação de grau. Me senti humilhada diante de tantas pessoas. O Centro de Eventos estava lotado, estava sendo transmitido pela internet. As pessoas que eu tanto cobrava que me chamassem pelo meu nome vendo a UFG não me respeitar também", disse ela.

Mar em apresentação do espetáculo Meia xícara e Só

Segundo Mar, ela já usava seu nome social na UFG há algum tempo e mesmo assim procurou representantes da instituição que estava à frente da organização da formatura para garantir que o nome correto seria chamado.

Ela conta que não soube o que fazer quando escutou seu nome de registro, mas por vergonha, se levantou para pegar o diploma. "Quando eu me sentei, comecei a chorar muito, e aí uma amiga em especial, que já tinha se dado conta do que havia acontecido, foi lá até a oradora e pediu que fosse corrigido", lembra ela.

Minutos depois, ela foi chamada novamente ao palco com o nome correto.

A atriz conta que procurou a universidade nos dias seguintes à colação e que teve algumas reuniões com representantes da UFG. Nesses encontros, Mar afirma que a instituição disse que, em alguns meses, ela teria uma colação especial, como forma de retratação, mas que nada disso aconteceu.

Além da humilhação causada pelo episódio, ela ainda lembra que solicitou atendimento psicológico após o episódio, pois tem transtorno de ansiedade generalizada. Diante do que aconteceu, ela decidiu entrar com um processo contra a universidade em 2024.

"A priori, a gente fica sem saber o que faz. Eu fiquei meio perdida, pensando que eu poderia perder. [...] Isso precisa chegar nas pessoas trans para que elas também façam a mesma coisa e que a gente tenha jurisprudência para ganhar esse tipo de causa", disse ela.

No processo, a UFG alegou que uma reportagem institucional de valorização da diversidade foi produzida com a participação de Mar, mas que ela solicitou a não publicação por não desejar exposição pública naquele momento.

Reitoria da Universidade Federal de Goiás, em Goiânia

Durante os anos após a colação e enquanto o processo era julgado, Mar disse que se sentiu injustiçada, invisibilizada e sozinha. Após o desfecho com a condenação da universidade, ela diz que está feliz com o resultado e que se sente "amparada", mesmo que não totalmente.

"Estou feliz por poder contar para as pessoas que o que aconteceu foi errado. E, na verdade, comemorar com as minhas, com as pessoas trans. A gente ganhou, nós pessoas trans", disse ela.

Embora não tenha se sentido parte da universidade por algum tempo após o episódio. Mar conta que voltou à instituição como a primeira travesti a ingressar no mestrado em Artes da Cena, em 2023.

"Me formei mestra no mesmo prédio, na mesma universidade, porque, apesar dos pesares, essa universidade também é minha e eu posso estar nela", completou.

VÍDEOS: últimas notícias de Goiás

Leia no Itatiba1 →