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'Poupança' dos royalties, Fundo Soberano do RJ encolhe quase 40% no governo Castro

Royalties do petróleo no RJ sobem 14%, mas estado tem 10 anos para se preparar para queda da produção

G1 — Brasil · 2026-08-12T04:00:10.000Z

Royalties do petróleo no RJ sobem 14%, mas estado tem 10 anos para se preparar para queda da produção

O Fundo Soberano do Estado do Rio de Janeiro, criado para funcionar como uma espécie de poupança dos recursos do petróleo, encolheu quase 40% desde que atingiu seu maior saldo. Entre 2023 e 2025, o valor disponível caiu de R$ 3,42 bilhões para R$ 2,06 bilhões, uma redução de R$ 1,36 bilhão.

O esvaziamento ocorreu justamente em um período em que o RJ continuou entre os maiores beneficiários da exploração de petróleo do país. E, em março deste ano, quando o fundo já tinha perdido mais de R$ 1 bilhão em relação ao pico, o Conselho Gestor aprovou projetos que somavam R$ 730 milhões em recursos do fundo.

O valor equivalia a cerca de 35% de todo o saldo disponível no fim de 2025.

Plataforma da Petrobras no Rio de Janeiro (P71)

Raoni Alves / g1 Rio

Entre os projetos estavam obras de pavimentação, sinalização e contenção de encostas em municípios do estado. As propostas foram posteriormente suspensas pelo governador em exercício, Ricardo Couto.

O episódio provocou questionamentos sobre a finalidade do Fundo Soberano. Para especialistas ouvidos pelo RJ2, o dinheiro deveria ser preservado ou direcionado a investimentos capazes de gerar retorno para o estado, e não substituir recursos que já deveriam financiar serviços e obras públicas.

“A obrigação de pavimentação não é do fundo soberano. Tem outro que tem obrigação de fazer pavimentação. A gente tem outros recursos para esse tipo de gasto. Então, quando você disciplina o uso, você consegue fazer com que esse investimento te traga retorno. E é assim que você consegue construir o futuro” explicou Karine Fragoso, gerente-geral de Petróleo, Gás, Energias e Naval da Firjan.

O atual governo do estado, sob o comando de Ricardo Couto, afirma que não utilizou recursos do Fundo Soberano.

“Nessa atual gestão a gente não utilizou nenhum recurso do Fundo Soberano”, disse o secretário estadual de Fazenda, Guilherme Mercês.

Segundo ele, eventuais novas destinações terão de passar por análise do comitê responsável.

“Qualquer deliberação e destinação que a gente tiver no Fundo Soberano será apoiado e analisado pelo comitê com total transparência, tanto para os gastos que forem tomados, quanto para a justificativa que esses gastos precisam”.

O fundo foi criado pela Alerj em 2022 com a ideia de transformar parte da riqueza temporária do petróleo em uma reserva para o futuro. A lógica é simples: como o petróleo é um recurso finito e sua produção pode oscilar, o estado deveria guardar parte dessa receita para enfrentar períodos de queda e reduzir a dependência dos royalties.

Exploração e extração de petróleo na P71 da Petrobras

Raoni Alves / g1 Rio

Como o Fundo Soberano encolheu

O Fundo Soberano do Estado terminou 2022, primeiro ano de existência, com R$ 3,05 bilhões disponíveis. No ano seguinte, atingiu seu maior saldo: R$ 3,42 bilhões. A partir daí, o valor começou a cair:

2022: R$ 3,05 bilhões

2023: R$ 3,42 bilhões

2024: R$ 2,59 bilhões

2025: R$ 2,06 bilhões

2026: R$ 2,07 bilhões até junho

Entre o fim de 2023 e o fim de 2025, a redução foi de R$ 1,36 bilhão, ou aproximadamente 40%.

Em março deste ano, quando o governador Cláudio Castro renunciou ao cargo, o Conselho Gestor do Fundo Soberano aprovou projetos que somavam R$ 730 milhões.

Castro não fazia parte do conselho. Os projetos incluíam intervenções de pavimentação, sinalização e contenção de encostas em cidades do estado. A decisão foi posteriormente suspensa pelo governador em exercício.

Fundo Soberano do RJ: composição do Conselho Gestor mudou ao longo dos anos

O episódio chama atenção pelo tamanho dos recursos envolvidos. Os R$ 730 milhões representavam aproximadamente 35% do saldo que o fundo tinha no fim de 2025.

O problema é especialmente relevante porque o Rio enfrenta uma situação fiscal delicada. A previsão é de um rombo de R$ 19 bilhões nas contas estaduais em 2026. Ao mesmo tempo, as receitas do petróleo estão crescendo.

Fundos de sucesso

A ideia de guardar parte da riqueza gerada pelo petróleo para o futuro não é uma exclusividade do RJ.

As exportações de petróleo e gás desempenham papel fundamental na economia da próspera Noruega

KRISTIAN HELGESEN/GETTY IMAGES

O exemplo mais conhecido é o da Noruega, que criou nos anos 1990 uma espécie de poupança nacional com recursos relacionados à exploração de petróleo.

O objetivo era permitir que a riqueza gerada por um recurso natural finito pudesse beneficiar também as gerações futuras.

Hoje, o fundo soberano norueguês tem, em média, 1,5% das ações de todas as empresas listadas em bolsas de valores do mundo.

Em 2025, o fundo teve lucro equivalente a US$ 248 bilhões, cerca de R$ 1,27 trilhão. O resultado foi maior do que toda a riqueza produzida pelo estado do Rio de Janeiro naquele ano, estimada em R$ 1,17 trilhão pelo IBGE.

Para a Firjan, o caso norueguês mostra como recursos do petróleo podem ser transformados em patrimônio e capacidade de investimento para o futuro.

“Quando você tem o que a gente está tendo hoje, que é essa receita extraordinária, você pode dar um passo além e começar a fazer investimentos de fato. Então, a gente tem exemplos fora do país de fundos soberanos que souberam fazer isso, que souberam construir uma indústria forte e exportadora a partir dos recursos de royalties e de participações especiais. O grande exemplo utilizado no mercado é o exemplo da Noruega”, disse.

No próprio estado do Rio, Maricá e Niterói também criaram reservas financeiras com recursos do petróleo.

O Fundo Soberano de Maricá começou com um repasse de R$ 30 milhões em 2018. Hoje, tem R$ 2,1 bilhões aplicados em bancos públicos, segundo a prefeitura.

Em Niterói, o primeiro repasse para a poupança dos royalties foi de R$ 100 milhões em 2019. Atualmente, o fundo tem mais de R$ 1,7 bilhão, aplicados em renda fixa e títulos públicos.

Os dois fundos municipais têm como objetivo proteger as cidades em momentos de crise e garantir sustentabilidade financeira no longo prazo.

Petróleo em alta

O debate sobre o Fundo Soberano ocorre em um momento de valorização do petróleo.

A projeção da Administração de Informação de Energia dos Estados Unidos (EIA) é que o preço médio do barril de petróleo Brent fique em US$ 82 em 2026, contra US$ 69 em 2025. A alta projetada é de 18,89%.

A preocupação dos investidores com a guerra no Oriente Médio e possíveis impactos sobre a oferta global de petróleo estão entre os fatores que pressionam os preços.

A alta internacional tem efeitos diferentes para quem vive no estado.

De um lado, combustíveis ficaram mais caros. O preço médio do litro do diesel S10 no Rio passou de R$ 6,26 em janeiro para R$ 7,08 em julho, segundo a ANP. A gasolina passou de R$ 6,24 para R$ 6,63 no mesmo período.

P71 da Petrobras

Raoni Alves / g1 Rio

De outro, o petróleo mais valorizado aumenta as receitas do estado e dos municípios produtores.

O RJ é responsável atualmente por 86% da produção de óleo e gás do Brasil. Em junho, a produção estadual chegou a mais de 3,8 milhões de barris de petróleo por dia. Além disso, 83% das reservas do pré-sal estão no litoral fluminense.

O problema é que a produção de petróleo não deve crescer para sempre.

A Empresa de Pesquisa Energética (EPE) prevê que a produção nacional passe de 4,4 milhões de barris por dia em 2026 para 5,1 milhões em 2031.

Depois, a produção deve se estabilizar e começar a cair. A projeção é de 5,1 milhões de barris por dia em 2032 e 2033, 5 milhões em 2034 e 4,9 milhões em 2035.

“Isso é comum em qualquer ciclo de campo de produção de óleo e gás. Ele tem que respeitar as fases de início meio e fim (...) quando chega nessa redução, já começa a preparar novas etapas para poder conseguir melhorar essa produção ao longo do da redução volumétrica desses campos”, comentou Marcelo Alfradique, superintendente da Empresa de Pesquisa Energética.

Arrecadação com royalties

O aumento do preço do petróleo já aparece na arrecadação. No primeiro semestre de 2026, Estado do Rio e municípios fluminenses receberam mais de R$ 21,5 bilhões em royalties.

Somente a arrecadação do estado com royalties, sem considerar participações especiais, cresceu 13,95% no primeiro semestre.

Exploração e extração de petróleo na P71 da Petrobras

Raoni Alves / g1 Rio

Os royalties são compensações financeiras pagas pela exploração de petróleo e gás, relacionadas aos riscos e impactos provocados pela atividade.

Para o ex-diretor-geral da ANP David Zylbersztajn, a concentração da produção no RJ faz com que o estado seja diretamente beneficiado quando o petróleo sobe de preço.

“O país recebe os impostos e as taxas ligadas ao petróleo. Elas são vinculadas ao preço internacional. Então é o estado do Rio de Janeiro, por exemplo, está arrecadando. Tá tendo uma verba extra porque 80% da produção de petróleo brasileiro estão no estado do Rio”.

O aumento da receita, porém, reforça a necessidade de decidir o que fazer com um dinheiro que pode não existir na mesma proporção no futuro.

Diversificar a economia

Para o secretário estadual de Fazenda, os próximos anos representam uma janela de oportunidade para reduzir a dependência do petróleo.

“Os próximos 10 anos são talvez a última janela de oportunidade para o Rio de Janeiro no que diz respeito à transição energética. A gente vai ter o pico da produção de petróleo nos próximos 10 anos e depois uma queda a partir de então”, disse o secretário.

Segundo Mercês, o aumento esperado dos royalties deve ser usado para preparar o estado para essa mudança.

“Qual a grande oportunidade para o Rio de Janeiro? Os Royalty vão aumentar nesse período e o Rio de Janeiro acima de tudo tem que usá-los para fazer essa transição econômica”.

A Firjan também defende que o Rio aproveite a experiência acumulada na indústria do petróleo para desenvolver novas atividades econômicas.

“A gente acredita que o Rio de Janeiro possa estimular que a construção e a integração, o comissionamento de plataformas, sejam feitos a partir do Estado do Rio de Janeiro. A gente pode vir a participar dos outros investimentos que virão, que não sejam aqui na bacia de Campos e de Santos”.

“A gente fica preparado, com competência acumulada, para participar de outros investimentos, sejam no Brasil ou fora do Brasil”.

A lógica é fazer com que a riqueza gerada pelo petróleo não desapareça quando a produção começar a cair.

Para Karine Fragoso, o Fundo Soberano pode ter papel importante nessa estratégia, desde que os recursos sejam direcionados para investimentos capazes de gerar retorno.

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